ESPECIAL #07: VOCÊ SABIA? RUPI KAUR

05/10/2017


RUPI KAUR: A RESPOSTA NECESSÁRIA A PERGUNTAS QUE NÃO FORAM FEITAS

ESPECIAL #07 

Quando Rupi Kaur apareceu pela primeira vez na minha timeline, lembro-me de me perguntar como raios alguém conseguia despir a alma - a sua e a dos outros - com tanta facilidade. Era como ver meus sentimentos expostos à realidade. Sentir a crueza do que eu lia (era um dos poemas de Outros jeitos de usar a boca) me feriu e aqueceu tão simultaneamente que me senti obrigada a procurar mais textos da autora. Foi assim que Outros jeitos de usar a boca veio parar na minha estante.

Inicialmente, confesso que eu não sabia se tratar de poesia feminina. Descobrir isso, aliás, foi um dos principais fatores que me fizeram perseguir os rastros de Rupi. Uma indiana, mulher, jovem, imigrante e que dá a sua cara a tapa. Era tudo o que eu e o mundo andávamos precisando. Alguém que diga bem e com coragem é sempre bom, mas uma mulher que diga bem e com coragem é necessário.

Mas quem é Rupi Kaur?

Arrisco dizer que Rupi é alguém que ousa ser - e isso diz muito sobre ela. Indiana natural de Punjab, teve de enfrentar grandes mudanças desde cedo, quando, aos quatro anos, emigrou com a sua família para Toronto, no Canadá. Conviver com uma língua desconhecida lhe rendeu bastante tempo sozinha; e, depois de finalmente aprender o inglês, tornou-se amiga íntima dos livros. Hoje é formada em retórica e escrita profissional pela Universidade de Waterloo e reside no Canadá, onde foi radicada.

A ilustração é sua velha conhecida. Foi cedo, aos cinco anos, que, incentivada pela mãe, começou a desenhar e a pintar. A escrita, por sua vez, também a acompanha há algum tempo, pois, antes mesmo de se assumir autora, Rupi já tinha o costume de escrever poemas para amigos em seus aniversários, bem como mensagens e cartas para pessoas que lhe despertavam algum interesse. Por fim, há a fotografia, outra de suas paixões, que lhe rendeu não só fotos em seu Instagram como um embate com essa mesma plataforma.

No ano de 2015, a autora publicou, em sua conta, um ensaio sobre menstruação; e, em uma das fotos, ela aparecia deitada, de costas, usando um pijama cuja calça estava manchada de sangue menstrual. A imagem foi removida da plataforma duas vezes sob a acusação de violação das diretrizes da rede social. A autora, então, publicou um protesto no facebook e no próprio instagram. A repercussão de seu texto foi tão grande que a plataforma voltou atrás e pediu desculpas, dizendo ter cometido um engano.

Mas, no que diz respeito ao Instagram, sua relação com Rupi Kaur não para por aí. A mídia social é uma de suas marcas, visto que ela é considerada uma instapoet. Com origem no inglês, esse termo, formado pela união dos termos instagram e poet, que significa, em tradução simples, poeta de instagram. Rupi ganhou essa designação devido a seus poemas curtos, de poucos versos e unidos a ilustrações simples que lá eram publicados e que mantiveram o formato ao ir para o suporte do livro.

Atualmente, a arte continua a ser parte de Rupi, assim como Rupi é parte de sua arte, seja ela qual for: poesia, ilustração, vídeo ou fotografia. Suspeito que ela seja uma dessas mulheres cuja mente, corpo e a arte não se desvinculam. Assim foi Cora Coralina, assim é, hoje, Rupi.

É arriscado de minha parte falar sobre ela - e elogiá-la, porque, invariavelmente, desvio-me por esse caminho - porque sou mulher e compreendo o ser mulher. Ainda que existam traumas pelos quais eu, em minha curta vida, não passei e espero nunca passar, posso sentir a aura de sofrimento, lamentação, mas também de esperança e recomeço que Rupi transmite em sua obra, especialmente em Outros jeitos de usar a boca, com a qual tive mais contato. Ainda que talvez nem ela mesma compreenda a extensão do que criou, ainda que ela não tenha planejado - será possível algum autor premeditar o alcance de seu trabalho? - sua obra tornou-se uma espécie de aconchego esperançoso. Foi a resposta para perguntas que eu, que nós, não tínhamos feito ainda, mas que deveríamos.

Após tudo, ainda me pego perguntando a mim mesma: quem é essa mulher?

É a mulher presente em sua própria obra, certamente, todas somos um pouco. É uma dupla sobrevivente: do feticídio feminino, comum na Índia; e também da emigração. É uma vivente da arte. É fonte de uma voz que conseguiu transbordar-se. É uma literata que começou cedo, escrevendo anonimamente, e que finalmente assumiu seu lugar de autora, em 2013, quando começou a publicar em seu Tumblr. É escritora de um livro incrível que foi lançado, primeiramente, de forma independente; mas que hoje recebe o selo da Editora Planeta e já está na sexta edição. É dona de outras obras, inclusive The sun and her flowers, oficialmente publicado dois dias atrás.

Entretanto, não obstante todos os "és" que ligam Rupi e suas qualidades, características e ocupações; o principal a se ressaltar neste 5 de outubro, dia em que a autora celebra seus 25 anos, é a mensagem que a autora nos passa - não só a nós, mulheres, mas a nós, humanos: todos somos

Não devemos nos esquecer disso.

Parabéns, Rupi. Não há agradecimento suficiente para o presente que você deu a nós.

"sua arte
não é a quantidade de pessoas
que gostam do seu trabalho
sua arte
é
o que seu coração acha do seu trabalho
o que sua alma acha do seu trabalho
é a honestidade
que você tem consigo
e você
nunca deve
trocar honestidade
por identificação

- a todos vocês poetas jovens"

(Milk and Honey, p. 202)