ESPECIAL #10: VOCÊ SABIA? CARLOS DRUMMOND

31/10/2017


NUNCA ME ESQUECEREI QUE NO MEIO DO CAMINHO TINHA UM CARLOS

 ESPECIAL #10 

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) nasceu no dia do Halloween e gosto de acreditar que isso não foi mera coincidência. Veio ao mundo para nos arrepiar e nos surrar com sua escrita, ora com pedras no caminho, ora com rosas que nascem no concreto. Drummond foi mesmo um gauche, cujas faces ultrapassam as sete apontadas em seu consagrado poema.

Sendo mineira, devo dizer que esse autor honra os costumes de nossa terra e entende nossa essência. Aos interessados, basta ler, como introdução aos seus estudos, o belíssimo A palavra Minas.

"Minas não é palavra montanhosa
É palavra abissal
Minas é dentro e fundo
As montanhas escondem o que é Minas (...)"

Na verdade, seus conterrâneos se sentem representados ao longo de toda sua obra. Ausência, ou O Maior Trem do Mundo são poemas que, além de tratarem de temáticas recorrentes da obra do autor como a infância e os sentimentos humanos, fazem referência a sua cidade natal, Itabira. Assim também o fazem os poemas Vila da Utopia, Confidência de um Itabirano, Fruta-Fruto e outros.

Teve seus primeiros trabalhos publicados em 1921 no jornal Diário de Minas, local no qual, mais tarde, atuaria como redator-chefe. Em 1924, conheceu grandes figuras das artes brasileira: Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e Mário de Andrade - esse viria a ser um de seus melhores amigos e foi quem lhe concedeu uma extensa orientação literária. Carlos, surpreendentemente, formou-se em farmácia pela aclamada Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFMG) em 1925 - profissão que nunca exerceu, realmente. Nessa mesma época, casou-se com Dolores Dutra de Morais, também escritora. Juntos, tiveram dois filhos: Maria Julieta (1928-1987) que seguiu os passos dos pais; e Carlos Flávio (1927-1927), que morreu antes de completar uma hora de vida, a quem dedicou o tocante O Que Viveu Meia Hora (A Paixão Medida).

"Nascer para não viver
só para ocupar
estrito espaço numerado
ao sol-e-chuva
que meticulosamente vai delindo
o número
enquanto o nome vai-se autocorroendo
na terra, nos arquivos
na mente volúvel ou cansada
até que um dia
trilhões de milênios antes do Juízo Final
não reste em qualquer átomo
nada de um hipótese de existência."

Apesar desse evento tão traumatizante na vida de qualquer um que a vive, o autor seguiu em frente. Com seu crescimento como redator, Drummond publicou No meio do Caminho, em 1928.

"No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra."

Ora duramente criticado, ora considerado o feito de um gênio literário, Drummond faz uso exagerado da redundância para causar inquietação no leitor. Independentemente de como você o veja, é difícil alegar que não sentiu essa nódoa, esse estranho desconforto. Sejam as pedras uma metáfora para os obstáculos ou para momentos inesquecíveis de nossas vidas, ambos acontecem repetidas vezes ao longo de nossos caminhos, melhor dizendo, nossas vidas.

As críticas foram se acumulando, uma a uma, e serviram de material para o livro Uma Pedra no Meio do Caminho - Biografia de Um Poema publicado quase 20 anos depois. O escritor, na verdade, guardou críticas de seu trabalho ao longo de toda a sua carreira, mas aquelas voltadas para esse poema, tão polêmico, mereceram um livro (com razão, em meu julgamento).

Carlos tirou dinheiro do próprio bolso para publicar Alguma Poesia, seu primeiro livro. Nos anos seguintes, vieram Brejo das Almas (1934), Sentimento do Mundo (1940), Poesias (1942), Confissões de Minas (1944)e, seu mais extenso e conhecido trabalho A Rosa do Povo (1945). O humor e a leveza, tão característicos de sua escrita, dão lugar nessa obra a uma contínua tensão através de um refinamento lírico e estrutural que busca representar, com imagens surrealmente verossímeis, todos os horrores vividos pela Segunda Guerra Mundial.

Foi poeta, cronista, escritor infantil, jornalista e um dedicado estudioso de línguas estrangeiras. Uma pesquisa realizada na Fundação Casa de Rui Barbosa pelos professores Augusto Massi e Júlio Guimarães, revelou que Drummond pretendia lançar uma coletânea de traduções, cujo nome seria Poesia Errante (Traduções). Nos escritos, demonstrava-se conhecedor de espanhol, francês e inglês, debruçando-se em autores como Chordelos de Laclos, Marcel Proust, André Verdet, Guillaume Apollinaire, Charles Vildrac, Dorothy Parker e Carmen Bernos.

Entre as décadas de 70 e 80, seu nome apareceu 21 vezes na edição centenária do nascimento de Manuel Bandeira. Recebeu o título de doutor pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) ao completar 80 anos. Em 1984, Carlos aposentou-se enquanto cronista e jornalista. Faleceu três anos depois, exatamente doze dias após a morte de sua filha. Finalmente, daria as mãos para a morte, na qual alegou pensar desde criança e sobre a qual escreveu diversas vezes.

Como podemos ver, não apenas de Minas viveu Drummond. Expandiu-se, através dela, contornou-a e se tornou um dos maiores representantes do modernismo no Brasil. De fato, tornou-se representante da cultura brasileira, como um todo. Sua influência ultrapassou o que pretendia enterrá-lo. Tornou-se inesquecível, inevitável. Habita o imaginário de todo brasileiro que aprecia arte e também daquele que aprecia história e línguas. De 1988 a 1990, Drummond foi homenageado nas cédulas de 50 cruzados; há a icônica estátua dele, lavrada em bronze, no calçadão da praia de Copacabana. Nela, ele imortaliza-se na posição que adotou ao longo da vida: a de pensador, contemplando e questionando tudo aquilo que o mundo pôde lhe oferecer. Antes de eternizarem seu corpo, o próprio autor já havia se perpetuado através das palavras. É praticamente impossível encontrar qualquer estudante que não conheça e não tenha se utilizado da expressão - que é um patrimônio histórico do mais alto escalão - "E agora, José?".

Carlos Drummond de Andrade é o exemplo de escritor que se consolidou por meio das palavras e deu forma concreta, na complexidade de seu simples, ao sentimento do mundo. Lê-lo é ser atravessado por um delicioso mal-estar, como a agulha fina sobre um toca-discos: o contato nos arranha, nos vira do avesso; entretanto, o som é sublime.

Parabéns, meu caro mineiro, por nos ensinar a resistir! Por nos ensinar que não há falta na ausência, que o amor é dado de graça e cabe no breve espaço de beijar... tantos são os seus ensinamentos e provocações! Seu nome não foi Raimundo e, certamente, você foi e ainda é parte da solução. Fico no desejo de que algum dia vire Deus, e possa finalmente realizar seu decreto, mantendo todas as mães eternas. Nesse aniversário, obrigada por ter propiciado às rosas de todos os escritores um solo além do asfalto. Continue a nos comover como o diabo.