RESENHA #16: VERÍSSIMO, AS MÃOS DA FELICIDADE?

16/12/2017

VERÍSSIMO, AS MÃOS DA FELICIDADE?

RESENHA #16



Autor: Érico Veríssimo
Sinopse: Dona Margarida e seu Inocêncio relembram as dificuldades que enfrentaram na vida, embargados pelas músicas que seu filho Betinho, agora famoso pianista, toca. 

Alguma vez em sua vida você já viveu através do êxito do outro? Doou-se de tal forma que esqueceu de si mesmo? É o que acontece com a personagem Margarida, no conto As Mãos de Meu Filho, de Érico Veríssimo. Nessa curta narrativa, somos apresentados à família: Gilberto, o prodígio músico, que consegue através da música superar sua pobreza; Margarida, mãe de Gilberto (por ela chamado de Betinho); e Inocêncio, o pai alcoólatra e ausente.

Encontramos uma série de pequenos simbolismos como, por exemplo, o fato de Gilberto ter se tornado um célebre pianista. Através da arte, sua transcendência social aconteceu. De modo semelhante, a arte opera nas vidas de quem a perpassa: alcançamos um novo patamar intelectual, mudando significativamente nossa condição humana. Interessante notar que, através do seu talento, é que os pais do personagem revisitam suas memórias e sentimentos mais profundos.

Outro fator que não pode passar despercebido é a escolha do autor para o nome dos pais. Margarida, que provém do latim Margarita, pérola. É um tipo de flor simples, que cresce em variados tipos de solo, sendo uma planta solar, ou seja, dependente de luz para sobreviver. Assim como a flor, Margarida tem uma origem simples, viveu em condições adversas e foi a necessidade de ver o filho ter sucesso que a motivou a seguir trabalhando cada vez com mais afinco.

Inocêncio, por outro lado, demonstra a sutil ironia de Érico Veríssimo - pois o pai de Betinho é malicioso e preguiçoso. Enganou a própria mulher para obter o dinheiro do trabalho suado dela.



"Inocêncio arranjava empreguinhos de ordenado pequeno. Mas não tinha constância, não tomava interesse. O diabo do homem era mesmo preguiçoso. O que queria era andar na calaçaria, conversando pelos cafés, contando histórias, mentindo..."


Outra menção válida se relaciona à escolha musical da narrativa. Primeiramente, tem-se Adágio de Beethoven, durante o qual se faz uma descrição das mudanças sonoras, de como:



"Os sons sobem no ar, enchem o teatro, e para cada uma daquelas pessoas do submundo eles têm uma significação especial, contam uma história diferente."

A partir daí surge Suggestion Diabolique, de Prokofiev; música com bastante destaque na alternância entre sons agudos e graves, repetidos em padrões rápidos que nos transmitem uma sensação agonizante e de terror. E, tal qual a melodia, as lembranças de Margarida vão da infância de Betinho à bebedeira incontrolável de Inocêncio. Uma vez findada a música, a mãe retorna ao presente e Inocêncio é arrebatado por um misto de emoções, em sua grande maioria, formado por culpa e admiração.

É quando Gilberto toca Navarra que o leitor passa a ter mais detalhes do passado do casal, especialmente do pai. É aqui, também, que se enfatizam os atos altruístas da mãe, agora alcançando o que acredita ser a felicidade: através do sucesso de seu filho.

Por fim, ao ressoarem "as mágoas de Chopin" pelo teatro, Inocêncio assume seus erros e sente inveja das palmas que o público não sabia estar dando para a mãe. Autodeprecia-se, novamente, e as lágrimas acompanham seu remorso. Ao ver o filho dividir sua glória com Margarida, a inferioridade o esmaga. Aqui, temos o oposto da mãe: a felicidade egoísta, que se resumira em alimentar o vício, despejava, anos mais tarde, suas consequências implacáveis em Inocêncio.

Nas últimas linhas, entendemos o significado do título escolhido pelo autor: as mãos de Betinho eram o elo entre as memórias afetivas dos pais. A mão, nesse contexto, segundo o Dicionário de Símbolos, "é como uma síntese, exclusivamente humana, do masculino e do feminino (...)". A definição de um filho não é algo muito parecido? Através de memórias e movidos por conceitos de felicidade bastante divergentes, Margarida e Inocêncio apresentam algo em comum que os liga para toda a eternidade.

O escritor pincela, através desse sucinto e, por vezes, mordaz conto, um retrato da típica família de classe baixa e suas recorrentes problemáticas, especialmente no que se refere às mães que, solteiras ou não, criam seus filhos sem uma figura paterna significativa, algo tão presente na realidade brasileira. Por conseguinte, as relações entre esses filhos e suas mães são veridicamente representadas através de Margarida e Gilberto.

O conto possui uma linguagem simples, porém repleta de referências musicais requintadas e de alegorias minuciosamente elaboradas. Por ser curto e acessível, torna-se uma leitura indispensável para todos os interessados na produção autoral nacional. Com Veríssimo, a literatura brasileira está incrivelmente bem representada.


REFERÊNCIAS:

CHEVALIER, J.; GHEERBRANT, A. Dicionário dos Símbolos. 28ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015. 
VERÍSSIMO, E. Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século: Outros contos. Rio de Janeiro:  Objetiva, 2000.