RESENHA #05: A GRANDIOSIDADE DA DESUMANIZAÇÃO

24/09/2017


A GRANDIOSIDADE DA DESUMANIZAÇÃO

RESENHA #05



AUTOR: Valter Hugo Mãe
SINOPSE: A desumanização se passa na paisagem inóspita dos fiordes islandeses. Narrado por uma menina de 11 anos que nos conta, de maneira muito especial, o que lhe resta depois da morte da irmã gêmea, o livro é feito de delicada melancolia e extrema beleza plástica. 

Uma história grandiosa é um sucesso sem receita. Podemos especular, estudar e aspirar, mas alcançar essa grandiosidade verdadeira é como tentar agarrar-lhe o vento. Em algum momento de nossa vida de escritor/leitor, vamos parar para descansar e deixar o vento soprar nossos cabelos. São em momentos como esse que devemos apurar os ouvidos e abrir os olhos. A grandiosidade é feita para ser apreciada.

"A desumanização", quarto livro do escritor português Valter Hugo Mãe, é um sopro de grandiosidade. Não, talvez eu esteja sendo um tanto injusta. A obra é um furacão de grandiosidade, feita de ventos - por vezes cruéis - que te tiram do chão, sacodem sua cabeça e te deixam repousando em um lugar totalmente diferente.

A história se passa na Islândia, um cenário digno das mais nobres fantasias medievais, carregadas de magias e aventuras, mas que, nesse livro, é palco de uma narrativa muito diferente. Logo nas primeiras linhas, nós já somos levados para um ponto difícil na vida de nossos personagens: a morte da menina Sigridur. Essa é a primeira rajada de vento que tira seus pés do chão. Nada mais é do que um prenúncio da tempestade que está por vir.


"Quando for grande, Halla, não quero ser cozinheiro das baleias. Não vou ficar aqui encalhada a fazer doces para que elas se consolem. Quando for grande, quero ser de outra maneira. Quero ser longe. Eu respondia: ninguém é longe. As pessoas são sempre perto de alguma coisa e perto delas mesmas. A minha irmã dizia: algumas pessoas são longe. Quando eu for grande quero ser longe. E eu respondia: acho que quero ser professora."


Para tornar a narrativa ainda mais desconcertante e visceral, o leitor será apresentado aos fatos pela irmã gêmea de Sigridur, Halla, de apenas 11 anos. O livro fala sobre perda, dor, luto e solidão, tanto da menina quanto de sua mãe e de seu pai. A irmã viva - ou a menos morta, como a chamam - precisa lidar com o peso de ser duas, de substituir o que fora perdido. É um fardo muito pesado para os ombros frágeis de uma menina de 11 anos, que só aumenta com o ódio e rejeição de sua mãe.

Tomada pelo desespero, a mãe perde sua lucidez. Passa a transformar sua dor emocional em dor física, automutilando-se, como se pudesse sangrar toda a tristeza para fora do corpo. Halla passa a sofrer abusos físicos e mentais, que cada vez mais fazem crescer o medo e ódio que sente pela própria mãe. A menina não sabe ser duas. Sem Sigridur, só consegue ser metade.

O pai, um pescador e também um poeta, recorre aos seus livros e a sua poesia, transformando em palavra o que não entende. Acredita que tudo fica mais claro quando está escrito em papel. Utiliza também a leitura para acalmar a filha, distraí-la das dores da vida.


"Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia."


Ao explorar como cada um dos personagens lida com a perda irreparável que é a morte, nos deparamos com a mais pura essência humana e é inevitável não nos encontrarmos em algum deles - seja até mais de um. A dor e o desespero, combinada com a ingenuidade de Halla, são uma combinação poderosa.


"Repeti: a morte é um exagero. Leva demasiado. Deixa muito pouco.
Começaram a dizer as irmãs mortas. A mais morta e a menos morta. Obrigada a andar cheia de almas, eu era um fantasma. (...) As nossas pessoas olhavam-me sem saber se viraria santa ou demónio. Os santas aparecem, os demónios assombram."


O próprio nome das meninas é um reflexo de seus papéis na história. Enquanto Sigridur é combinação das palavras norueguesas sig "esposa, noiva" e frid "bonito, amado, belo", Halla, abreviação de Halldora, significa "de meio espírito". A irmã morta era considerada a mais bela, até mesmo Halla elogiava sua beleza, além disso, era também a mais amada por sua mãe. Sem ela, Halla se tornou o resto, uma vaga lembrança do que sua irmã fora, de apenas meio espírito. A própria mãe não a deixa esquecer desse fato, chegando ao ponto de desejar que a Halla morresse para fazer companhia a Sigridur.


"Devias morrer, dizia ela ao deitar. A tua irmã está sozinha e não te pode vir acompanhar. Mas tu podes. Tu podes chegar à morte com tanta facilidade. Cada passo é um perigo na nossa vida. Se não te acautelares, morres de distraídas. Nem te magoará. E eu respondia: não me peça para morrer, mãe. Ainda tenho muita vontade de fugir, foi o que me ensinou a Sigridur. Que agora também eu entendo o que é ser longe."


O pequeno vilarejo onde vivem, torna-se opressor para a menina, que acredita agora carregar sua alma e também a de sua irmã. Todos a tratam como se sua vida estivesse com os dias contados, uma vez que uma não poderia existir sem outra. É dentro desse contexto que outro personagem se encaixa. Einar é um homem adulto, mas que, devido a traumas passados, tem um comportamento quase infantil. Vive na igreja, junto ao Steindór, que toma conta dele e tenta ensinar-lhe as coisas certas.

Einar é um personagem controverso. Por conta de seu desenvolvimento interrompido, seu comportamento é algo que pode chocar. Halla conta ao leitor como ele costumava segui-las por aí, puxando-lhe as tranças ou acariciando-as. Por isso, deixaram de usar tranças quando saíam de casa, evitando qualquer coisa que pudesse dar motivo para que ele se aproximasse das meninas, além de sempre procurar alguém para protegê-las quando ele estava por perto.


"(...) E pensávamos sempre no Einar. Que era um ogre malcriado com quem nunca teríamos amizade, para o castigar de tudo quanto nos fazia e dizia. Por ser arrogante e feio, de boca desdentada e escura. Ainda que tivesse os olhos de azul acesso, o Einar era quase unicamente feio."


Por mais que seja alguém que as meninas evitavam - e até temiam - tudo muda na vida de Halla após a morte de Sigridur. Ela mesma se pega tendo o que ela chama de pânico, o que acredita que assola sua mãe: a dor transbordante que se transforma em raiva e crueldade. Mas, acima de tudo, ela é tomada pela mais completa solidão. Em um lugar tão isolado, em que ela tem opções limitadas de convívio, é difícil viver enquanto todos parecem esperar sua morte. Nesse cenário solitário, Einar é a única pessoa que pergunta à menina como ela se sente. Desesperada por algum tipo de compaixão, Halla passa a não mais evitar Einar, mas a ver nele um apoio, uma sustentação necessária para quem acreditava que nunca mais sairia do chão. A menos morta começou a se sentir mais viva.


"O Einar: não tens de estar sozinha. Só sentir. Sentir, sim. Estar, não. Até não te sentires sozinha."


Escrever sobre "A desumanização" sem estragar a história é uma tarefa difícil. Contada através de um fluxo de consciência repleto de reflexões, a narrativa caminha de um jeito próprio, mesmo tendo uma linha clara de enredo. O que você, leitor, vai encontrar nas páginas desse livro é muito mais do que me permiti contar aqui. Halla provocará emoções que você não sabia que poderia sentir, como o mais completo desejo de abraçá-la e protegê-la enquanto ela, ao mesmo tempo, enfrenta obstáculos e cresce como nenhuma criança deveria crescer: súbita e dolorosamente.


"Já não sou mais criança, pensei com maior convicção. Não inventava mais monstros. Bastavam-me os que a realidade tinha."


Os temas abordados são incômodos, desconcertantes e dolorosos. Mesmo que conte com pouco mais de 150 páginas, não é uma leitura rápida. De difícil digestão, "A desumanização" precisa ser absorvido aos poucos para que não o quebre ao meio. E, mesmo assim, ainda será uma das coisas mais lindas que você lerá em sua vida e o motivo é um só: a escrita de Valter Hugo Mãe.

Com o texto mantido no português de Portugal - requisição do autor -, o leitor não corre o risco de perder algo por conta de alguma tradução. O que você encontra é a genialidade crua e divina do autor. De prosa poética, Valter faz as mais diversas reflexões sobre os mais diversos temas de forma pura e muito precisa. Seus pensamentos são carregados de metáforas que contam com uma delicadeza extrema, mesmo quando falam dos assuntos mais brutais.

Ler Valter Hugo Mãe é como ganhar permissão de observar - mesmo que brevemente - as engrenagens do universo e finalmente entender como tudo funciona. Compreender, em sua totalidade, a representação perfeita de um sentimento. É perceber que o mundo é feito de sensações e elas podem descrever qualquer coisa.

Valter Hugo Mãe consegue agarrar o vento e transformá-lo em grandiosidade.


REFERÊNCIAS

MÃE, V. H. A desumanização. 1ª edição. São Paulo: Cosac Naify, 2014.
< https://www.todopapas.com.pt/nomes-do-bebe/nomes-origem-islandes/7> consultado em 20/09/17, às 18:50
<https://www.meaning-of-names.com/norwegian-names/halldora.asp> consultado em 20/09/2017, às 19:05