RESENHA #41: UM CONFRONTO ENTRE MAGIA E PARANORMALIDADE

05/06/2018


UM CONFRONTO ENTRE MAGIA E PARANORMALIDADE

RESENHA #41

AUTORA: Marion Zimmer Bradley
SINOPSE: Um confronto entre duas gerações: hippies dos anos 60, obcecados pela busca da Verdade em religiões e rituais arcaicos, e seus herdeiros, os jovens aparentemente céticos dos anos 90. Esta é a história de Thorne Blackburn, líder de uma comunidade mística que, numa noite de tempestade, perde a mulher Katherine, no ápice de um ritual. A filha do casal, na época com dois anos, é Verdade Jourdemayne, uma jovem cientista de 30 anos que aceita a fascinante missão de descobrir o que aconteceu de tão fantástico naquela noite. Vai descobrir muito mais: quem é realmente, de onde vem e que força mágica é esta que a mantém viva.

Muitos de nós, perturbados pelo cotidiano e presos no ordinário, vemos a magia e a paranormalidade como dois fenômenos bizarros e sem qualquer fundamentação científica, pois, de acordo com a crença comum, são duas ideias maravilhosas de cunho fantástico, mas que não existem no plano da realidade - ou, se existem, quase ninguém presenciou ou viveu realmente.

Observamos frequentemente, na literatura ou no cinema, figuras estereotipadas e marcadas com trejeitos e maneirismos esquisitos, coisas que definimos, com frequência, como relacionadas a gente maluca, etc. No entanto, no primeiro livro da série Light, encontramos muitos aspectos distintos aos padrões encontrados na crença popular e também ao apresentado em adaptações.

Não que fuja completamente do estereótipo, pois há personagens como Luz, que embora tenha mais de vinte e cinco anos, parece mais uma menina de quinze obcecada por doces e sem muita noção do que ocorre a sua volta. Além dela, há o pai da protagonista, Thorne Blackburn, que era um líder hippie de uma comunidade de magos bem famosos nos Estados Unidos durante a década de 1960. Essas duas figuras são as mais excêntricas da obra, eu diria.

O interessante e o ponto mais positivo da obra é como Marion Zimmer vai desenvolvendo os fatos históricos e os científicos. Autora de As Brumas de Avalon, ela já é conhecida por seu esboço e seu delineamento entre ficção e realidade que se complementam e criam uma narrativa cativante e que definitivamente prende o leitor que possui interesse na temática.

Não fugindo muito do misticismo e do historicismo, Bradley apresenta uma trama que se passa nos anos noventa, com uma personagem chamada Verdade (tradução do inglês Truth), que é forte, estudiosa, cética - até demais - e precisa enfrentar a herança mágica de seu pai, por assim dizer. A questão maior é que ela não acredita em absolutamente nada daquilo e, durante metade da trama, está disposta a provar que tudo é uma farsa.

A protagonista é uma cientista, ou melhor, uma parapsicóloga, cuja função é estudar uma relação extra-sensório-motora entre o ser humano e o meio, em outras palavras, ela estuda fenômenos considerados anormais, como casas mal-assombradas e manifestações de poltergeist, também chamados de espíritos ou fantasmas. Ao descobrirmos isso, podemos perceber que o paranormal e a magia são divididos em dois, um sendo louvado como possibilidade científica e a outra, mera ficção e enganação. Contudo, durante o decorrer das páginas, muito embora Verdade não admita o óbvio, podemos perceber que esse preconceito com a magia é mais algo dela do que da própria trama e dos personagens que a cercam.

Eu sou realmente apaixonada por As Brumas de Avalon e, talvez, por causa disso, eu tenha esperado muito mais do que eu deveria dessa história - ou pode ser que realmente não seja tão boa, mesmo sendo da Zimmer -, a questão é que, embora o início seja intrigante e a ideia inusitada possa prender aqueles que possuem certa curiosidade com a temática de paranormalidade e magia, eu não acho que a autora tenha conseguido sustentar tão bem o seu desenvolvimento até o desfecho.

A narrativa é divida em quinze capítulos e, a partir do nono, eu senti uma queda brusca no meu interesse em relação a história porque tudo estava soando óbvio demais e o desenvolvimento estava sendo deixado de lado por momentos, diria eu, desnecessários, por exemplo, há muitos personagens secundários que poderiam ser explorados e que são importantes para o desfecho, mas não foram.

Dessa forma, há uma inerente sensação de vazio. Miguel, por exemplo, um personagem muito interessante e com muitos segredos, não tem absolutamente nada revelado e o pouco que tem não é o suficiente para sustentar sua participação final; Irene, a senhora que tinha todas as informações sobre o passado, perde-se durante a trama e fica distante demais enquanto a relação entre Verdade e Julian se desenrola. Inclusive, a própria história de Julian não é muito bem explicada e o seu final, além de previsível, soou forçado demais por uma busca que parece mais do bem contra o mal do que o que a autora parecia propor no último parágrafo do livro: de humanos que cometem erros.

Há também estereótipos marcados que me soaram incômodos e forçados, como da personagem Fiona, ela é exatamente o estilo de mulher ciumenta e obcecada pelo o homem novo e bonito, o qual se interessa pela protagonista. Embora essa falta de sororidade e essa marcação me incomodem, acabam passando quase que batidos por conta da época em que o livro foi escrito, há mais de vinte anos atrás.

Esse livro é bom, há nele uma trama complexa e com detalhes místicos e históricos interessantes demais para serem perdidos ou deixados de lado, como é de hábito da autora. Há uma narrativa fluída que faz com que você sinta curiosidade de ler a trama até boa parte dela, no caso, a escrita da tradutora influencia muito, porque é muito limpa e eu realmente não consegui perceber erros gramaticais.

Entretanto, da mesma forma que o livro te puxa para esse universo novo, fantástico, fascinante e contemporâneo de Zimmer, ele também te afasta, ao menos, foi o que aconteceu comigo. Não é que tenha sido raso, de maneira nenhuma, mas muitos personagens me soaram assim e, por causa disso, a própria história perde - e muito - da sua força e da sua capacidade reflexiva.

Contudo, há uma reflexão que se mantem forte e que independe dos personagens e da discussão até que é gerada por eles: o confronto entre conhecimentos, parapsicológicos e mágicos. É interessante observar Verdade admitindo que a magia é tão científica quanto a sua própria ciência e que, para alguns, é considerada ciência, muito embora ela exija respeito dos outros quanto as suas verdades, mas não aceite a verdade alheia.

Há confrontos científicos nessa narrativa que valem muito a pena, embora não seja, nem de perto, a melhor obra da autora.


REFERÊNCIAS

BRADLEY, Marion Zimmer. Ghostlight, a luz espiritual. Tradução de Alyda Christina Sauer. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.