RESENHA #40: O SILÊNCIO BIZARRO EM LONDRES

31/05/2018


O SILÊNCIO BIZARRO EM LONDRES

RESENHA #40


ORGANIZADOR: Oscar Zarate
SINOPSE: Este é um guia da capital inglesa em forma de ficção criado por alguns dos mais cultuados autores britânicos da atualidade. Mais do que paisagem, Londres é também personagem nas 23 crônicas e histórias em quadrinhos que mostram o lado mais obscuro da cidade. Uma apaixonada homenagem a uma das mais pulsantes capitais do planeta, A Vida Secreta de Londres é um livro obrigatório para quem quer entender o pensamento por trás da chamada invasão britânica dos quadrinhos, para os interessados na nova literatura inglesa e para aqueles que não temem conhecer o lado mais obscuro da capital britânica.

Em todos os lugares do mundo, sem exceção, podemos encontrar pequenos espaços renegados, dos quais os pontos turísticos não fazem parte. Como, por exemplo, ocorre no Brasil; há outros ambientes que possuem esses arquétipos e medonhas paisagens que nos levam ao medo, à solidão ou a qualquer sentimento confuso, perturbado e assustador.

Mas como esses espaços nos influenciam e nos transformam como moradores?

Nós podemos não notar no cotidiano, mas cada espaço em que passamos nos modifica. Sabe aquele jogo de cores dentro de restaurantes que aumenta o nosso apetite? Há dentro das camadas das estruturas arquitetônicas, da argamassa à tinta na parede, algo intrínseco a um povo ou a uma necessidade. Essa influência de nós sobre o meio funciona tanto quanto a influência exercida pelo meio em relação ao que somos.

Mas por quê? Porque a estrutura também é linguagem, e - impreterivelmente - nós nos comunicamos a partir e por causa dela. Sinceramente, isso não é uma novidade, pois conseguimos encontrar essa ideia em obras célebres, como Corcunda de Notre Dame, que conta com descrições minuciosas sobre arquitetura e quanto ela está presente em nossas vidas.

Inclusive, a arquitetura e o espaço urbano são tão presentes que somos capazes de identificar; algumas vezes, por exemplo, falamos sobre colunas gregas, ladrilhos árabes ou telhados chineses. Como saberíamos ou definiríamos se aquelas pequenas estruturas não nos dissessem algo sobre sua origem e até sobre o seu povo? Em A Vida secreta de Londres, vamos encontrar os becos e as sarjetas sujas, as estações e as vielas repletas de bêbados e identificaremos aquele espaço urbano e como ele afeta o povo londrino enquanto é afetado.

Contudo, antes de dar espaço para o próprio texto e a sua linguagem imagética, eu prefiro falar sobre a edição brasileira. O trabalho da editora Veneta, a partir da perspectiva do Rogério de Campos, afetou muito a minha percepção da obra como um todo, e devo dizer que não de forma negativa. A priori confesso que achei tudo tão explícito no título e no design da capa que, ao abrir o quadrinho e começar a lê-lo, surgiu certo estranhamento porque foge, e muito, dessa explicitude, trabalhando muito mais no campo do implícito e do pensamento, além de, claro, da crítica.

O título original é It's dark in London, porém, o título em português, embora não seja nem de perto uma tradução literal, traduz e muito o que significa essa obra: porque é a busca de uma vida secreta para nós, brasileiros e demais estrangeiros, que não vivemos lá e não conhecemos esse mistério que espera por nós a cada beco que ignoramos quando preferimos visitar o palácio. Enquanto para eles há uma escuridão que ressoa dentro de um silêncio bizarro, para nós, é um segredo que podemos desvendar ao abrir as páginas desse livro.

Com menos riscos, devo ressaltar.

Outro ponto muito interessante é a própria capa. O design com tentáculos me foi muito agradável e também muito esclarecedor antes de eu sequer abrir o quadrinho, porque meio que me dizia o que eu tinha que esperar ali dentro. Para quem não sabe, e é interessante narrar aos seguidores do Caneta, é o significado - poderia ser uma lula, mas a imagem de dentro nos impede de pensar assim - do polvo: ele é uma criatura, antes de tudo, misteriosa e singular, claro que também representa a inteligência e a flexibilidade tanto quanto a criatividade, no entanto, sua inconsistência singular é o que me deu a dica do que encontraria dentro das páginas.

Da mesma forma que tentamos trazer novidades e por isso usamos o símbolo do polvo - há mais justificativas -, as narrativas dentro desse quadrinho também possuem esse intuito. Não espere encontrar uma trajetória linear comum e nem sequer um texto padrão com explicações simples e óbvias como o título e a capa insinuam. Cada uma das histórias conta com uma crítica, um distúrbio e uma passagem que poderia se passar em qualquer parte de Londres ou naquelas tramas em específico, nem sempre é ruído, às vezes, é silêncio; amor inacabado ou homicídio doloso; desejo de ser esquecido e desejo de aparecer; a fuga ou o encontro. Há dissonâncias suficientes para trazer algo comum; há azedo tanto quanto doce e isso é tão assustador quanto os becos vazios quando os pubs fecham.

Eu, com absoluta certeza, posso dizer que fui incapaz de compreender cada detalhe da obra, algumas críticas me passaram despercebidas e outras me atingiram em cheio, mas isso é uma falha minha e não da edição ou do quadrinho em si, porque acho que ele é mais feito para o cidadão londrino que finge não perceber aqueles detalhes do que para nós, curiosos, tanto que existe uma mudança do título em inglês para o elaborado pela editora Veneta que tenta trazer-nos para dentro, embora não estejamos e nem consigamos completamente porque, tanto quanto o Oscar Zarate, somos estrangeiros. Vemos o que eles não percebem e eles observam de um jeito que nunca conseguiremos e isso é normal.

Dentro do quadrinho, a todo momento, encontramos preto e branco - e essa não é uma economia despropositada pelo intuito de gastar menos em edição -, pois é a máxima representação que eles conseguiram trazer em comum.

Cada história possui um acontecimento, fala de uma região e de personagens que não se comunicam ou se conhecem, são situações cotidianas ou completamente avessas ao comum, contudo, o que todas elas possuem em comum é a cor - além de estarem em Londres, claro. A cor de um lugar, tanto quanto o próprio ambiente, afeta a nossa percepção e, dentro das narrativas, essa coloração não é por acaso. O cinza é a representação da própria capital inglesa tanto quanto o preto e o branco representam, inclusive, o que as histórias nos passam: não há narrativas felizes ou histórias de superação, mas há violência, morte, dor, traição, nudez, pornografia, pedofilia e tudo o que é de mais macabro e, infelizmente, mais humano.

Há um estranhamento para qualquer leitor de quadrinhos comum, que acompanha tramas da DC Comics ou da Marvel, inclusive, devo alertar que é estranho até para os leitores do selo Vertigo, ainda que amem Sandman e o achem revolucionário, eu diria que não há revolução igual a essa obra que usa a psicogeografia, ou seja, a forma como o ambiente nos afeta, para se manifestar em forma de arte.

A única coisa que me incomodou muito - e talvez seja proposital - foram algumas passagens que eu não consegui ler bem ou me esforcei muito para tentar compreender o que estava ali. Pode ser proposital porque é difícil enxergar a diferença nos becos da cidade e observar aquela bizarrice silenciosa, mas, ainda assim, como leitora, isso realmente atrapalhou a experiência - ou complementou de um jeito negativo; mas não tirou, em momento algum, o teor excruciante e fascinante ao mesmo tempo.

Não é uma obra que eu recomendaria para todos, só para os mais curiosos e ousados. Inclusive, para os maiores de idade. 

Novas formas de expressão são necessárias, vivemos em um mundo complexo, perigoso, e a ansiedade tomou conta de todos. 
CHRIS WEBSTER

REFERÊNCIAS

ZARATE, Oscar (org). A vida secreta de Londres. Organização de Oscar Zarate. Tradução de Alexandre Boide. São Paulo: Veneta: 2017.
< https://www.dicionariodesimbolos.com.br/polvo/>; consultado em 28/05/2018 às 05hr.