RESENHA #39: SEMPRE HÁ ESPAÇO PARA O AMOR

27/05/2018


SEMPRE HÁ ESPAÇO PARA O AMOR

RESENHA #39

AUTOR: Kiera Cass
SINOPSE: Anos atrás, Kahlen foi salva de um naufrágio pela própria Água. Para pagar sua dívida, a garota se tornou uma sereia e, durante cem anos, precisa usar sua voz para atrair as pessoas para se afogarem no mar. Kahlen está decidida a cumprir sua sentença à risca, até que ela conhece Akinli. Lindo, carinhoso e gentil, o garoto é tudo o que Kahlen sempre sonhou. Apesar de não poderem conversar pois a voz da sereia é fatal , logo surge uma conexão intensa entre os dois. É contra as regras se apaixonar por um humano, e se a Água descobrir, Kahlen será obrigada a abandonar Akinli para sempre. Mas pela primeira vez em muitos anos de obediência, ela está determinada a seguir seu coração.

"Sempre há espaço para o amor [...]. Nem que seja uma frestinha"
KIERA CASS

Fechadas as páginas deste livro, eu não sei bem o que pensar. A Sereia não era nada do que eu estava esperando, e, de alguma forma, essa afirmação não se encaixa nem como elogio, nem como censura, porque eu sinceramente não sei o que dizer. Talvez de tudo, a sensação de ficar sem palavras seja o mais espantosamente maravilhoso, em especial por ela ter partido de onde eu menos esperava.

Não é segredo para ninguém que eu gosto da Kiera Cass. Acredito que, apesar das falhas, as histórias dela trazem reflexões importantes não só sobre a humanidade como ela é e como poderia ser, mas também sobre o próprio conceito de ser humano. É claro que não necessariamente os questionamentos aparecem explicitamente na obra, talvez não sejam sequer propositais; mas eu acredito de verdade que a força de uma obra reside também nas interpretações que podemos tirar dela.

Além disso, há um outro ponto que me atrai bastante: a amizade, em suas criações, é tão ou mais importante que o amor romântico, ainda que ele seja a base do enredo. Dar essa abertura aos diversos tipos de amor - incluindo-se aqui o familiar, embora eu ainda não o tenha citado - é importante, simplesmente, porque a vida não se faz só em casal.

De início, achei que essas duas observações que eu tinha feito seriam válidas apenas para A Seleção. Contudo, tendo agora lido A Sereia, parece-me mais ser uma característica da autora que de um ou outro livro.

Apesar de ter sido reeditado em 2016, A Sereia foi lançado pela primeira vez em 2009, sendo, portanto, o primeiro livro da autora. Nele, conhecemos Kahlen, uma garota de cerca de 19 anos que, logo ao início da história, está prestes a morrer em um naufrágio estranho. Estranho pois, apesar de haver uma tempestade para justificar o desastre, ela não parecia ser a causa de tudo. Na verdade, havia uma canção que atraía a todos para um suicídio coletivo: todos pulando ao mar, enfeitiçados. A tempestade era apenas coincidência.

Seduzida, Kahlen também pula. No entanto, já no mar, quando enfim toma consciência da proximidade de sua morte tão prematura, ela implora por sua vida e, surpreendentemente, alguém a atende. Sem saber direito como e nem por que, Kahlen tem a sua vida salva pela Água. Por causa disso, sua primeira vida, a humana, chega ao fim. Dali em diante, sua mãe seria a Água e ela, uma sereia.

A figura da Água foi objeto de encanto, revolta e assombro em diferentes partes do livro. Encanto porque achei fantástico que um dos elementos mais essenciais aos seres vivos finalmente ganhasse voz - e poder. Afinal, dentro do livro, ela é uma entidade quase divina. Tanto é que, para se referir a Ela, Kahlen sempre usa a letra maiúscula, como fazem os cristãos com Deus. Na verdade, é exatamente isso que a Água é para as sereias: a potência criadora que as originou e à qual elas devem servir em símbolo de dívida e gratidão. No caso d'Ela, isso é ainda mais forte porque representa a vida surgida da morte; a segunda chance que muitos pedem, mas poucos alcançam. É de se esperar, portanto, que o preço pela oportunidade seja alto. E é.

A relação que as sereias mantêm com a sua Criadora é ambígua: em grande medida, é pura subserviência; mas, para Kahlen, é também amor. Tendo perdido o carinho de sua mãe de forma abrupta após o naufrágio, ela acabou encontrando na Água o conforto e a sabedoria que lhe faltavam. Mesmo que deteste a obrigação que tem de cantar para naufragar navios, é grata pela oportunidade de viver de novo e acredita, do fundo do coração, que a Água não é má, é incompreendida. Isso é tanto ingênuo quanto belo, especialmente em tempos como os nossos, em que enxergar a bondade do mundo é quase um ato de coragem.

A necessidade de naufragar navios representa um ponto de contato com as mais diversas mitologias, pois representa a ideia do sacrifício. Para que a Água continue mantendo a vida humana, para que continue exercendo o Seu poder, Ela precisa se "alimentar". Por isso, uma vez por ano, caso nenhum desastre natural ou humano se encarregue de fornecer o alimento necessário através de afogamentos "naturais", as sereias precisam cantar para provocá-los através de algum naufrágio. Dessa forma, como a própria Água coloca, alguns humanos morrem para que muitos vivam.

A vida das sereias, desde a sua criação até sua libertação, foi algo que achei curioso porque, pelos cem anos que permanecem como tal, elas são parte da Água no sentido mais literal possível; afinal, Ela doa uma parcela de Si, que passa a habitar o corpo de suas servas pelo tempo que dura a servidão. Após esse período, a Água sai de seus corpos e elas começam uma terceira vida, sem lembrar nada sobre as duas anteriores, uma vez que a existência da água enquanto divindade depende desse segredo - que humano suportaria viver sabendo que depende de algo que se alimenta dele?

A Irmandade que as sereias construíram entre si ao longo dos anos é algo invejável. Tendo a consciência de que tudo que possuem é uma à outra, elas agem como as irmãs que são pela água que as une. Acima das discordâncias, das incompreensões e da divergência de opiniões está o laço que as une. Mesmo quando Elizabeth e Miaka não entendem a tristeza profunda de Kahlen, elas a suportam; mesmo quando Kahlen acredita que Padma tomará a pior decisão possível, ela a apoia porque sabe distinguir o certo do necessário. Isso não significa, é claro, que cada uma não tenha seu próprio momento egoísta, mas que sabem quando precisam abrir mão de si mesmas e de seus próprios impulsos individualistas.

De todos os pontos da obra, talvez o mais fraco seja o romance entre os protagonistas. Akinli não apresenta nada de novo em relação ao estereótipo do garoto educado, simpático, amável e amado, que enxerga a mocinha por quem ela é, não por sua aparência exterior. Ele é, sim, uma graça de personagem. Porém, Maxon também era. Assim como Aspen também foi.

O que eu achei mais interessante foi a conexão que se estabeleceu, dentro da obra, entre a relação de Akinli e Kahlen e a mitologia do Akai Ito, ou "o fio vermelho do destino". Segundo essa lenda de origem chinesa, quando um homem e uma mulher estão predestinados a se encontrar, seus tornozelos são interligados por uma corda vermelha no momento de seu nascimento. Essa ligação seria permanente, perdurando por toda a vida, durante a qual os dois fatalmente iriam se encontrar. A ideia de predestinação e mesmo de uma conexão física entre os dois está presente durante todo o livro, especialmente nos momentos mais críticos, quando Kahleen afirma sentir o que Akinli sente.

Se a ideia das almas conectadas foi o ponto forte, o elo fraco fica por conta da forma como isso foi colocado. Nem tanto pela rapidez com que ambos se apaixonaram - quem sou eu para medir o tempo do amor? -, mas pela forma com que Cass nos passou isso. Kahlen foi uma menina que, querendo ou não, teve a vida humana interrompida muito cedo. É certo que na sua época, em 1933, 19 anos já era idade o suficiente para se casar e até ser mãe, porém ela vinha de uma família abastada que, além de não apressá-la nesse sentido, ainda funcionava como uma baliza para os horrores do mundo exterior, graças à boa posição social e às riquezas acumuladas.

Depois de transformada, ela passou os oitenta anos seguinte entre observar os humanos e sua incapacidade de enxergar além de sua beleza, sentir raiva de si mesma pelo que era e pelo que fazia, tentar compreender a Água e lamentar-se por tudo que havia perdido por não ser mais humana. Dentre os sonhos mortos, o que mais lhe doía era o desejo de se casar, que nunca havia chegado a se concretizar.

Por ter experienciado pouco da humanidade se levarmos em conta o tempo vivido, quando ela conhece Akinli e ele a vê, seu deslumbramento e suas próprias projeções do que eles significam são exagerados. Parte é quem Akinli é, certamente, mas grande parte é como ela o vê.

Então, mesmo depois de todos os obstáculos enfrentados e de todas as reafirmações sobre a força do amor dos dois, eu não consegui evitar a sensação, pesada como a água, de que Kahlen amou muito mais a ideia do amor romântico do que o Akinli em si. Portanto, para mim, a protagonista estava predestinada a amar. Ponto.

Aliás, poderíamos estender isso até para além de Akinli, pois a capacidade de entrega e de sentimento dela é algo presente para com suas irmãs, para com a Água e para com os próprios humanos, especialmente os mortos em naufrágios provocados pelas sereias, aos quais ela dedica grande parte de seu sofrimento e atenção.

Isso não quer dizer que Kahlen não seja egoísta e não orbite o próprio umbigo às vezes. Talvez até demais, em alguns momentos. No entanto, é a sua capacidade de abrir os olhos quando há necessidade que deve ser destacada.

Da mesma forma, deve-se fazer com a obra de Cass. Ela peca, sim, em muitos pontos. As cenas finais da Água poderiam ter sido muito melhor desenvolvidas, sem resumir suas carências às carências humanas, uma vez que ela não o é; Padma poderia ter agido de forma diferente em relação aos seus problemas; realizar a perspectivação dos sofrimentos, colocando o de Kahlen como o mais intenso de todos também não foi a melhor das decisões, na minha opinião. Além disso, a aparência física que as sereias assumiam dentro d'Água poderia ter sido melhor explicada.

No entanto, prefiro fazer como Kahlen e enxergar os méritos. Pois para apontar defeitos e prejulgar já existem pessoas demais. 


REFERÊNCIAS

CASS, K. A Sereia . 2ª. ed. São Paulo: Seguinte, 2016.