RESENHA #38: O DESCONFORTO DE BISBILHOTAR

21/05/2018


O DESCONFORTO DE BISBILHOTAR

AUTORA: Lionel Shriver 
SINOPSE: Aos 15 anos, o personagem Kevin mata 11 pessoas, entre colegas no colégio e familiares. Enquanto ele cumpre pena, a mãe Eva amarga a monstruosidade do filho. Entre culpa e solidão, ela apenas sobrevive. A vida normal se esvai no escândalo, no pagamento dos advogados, nos olhares sociais tortos. Transposto o primeiro estágio da perplexidade, um ano e oito meses depois, ela dá início a uma correspondência com o marido, único interlocutor capaz de entender a tragédia, apesar de ausente. 

Cada carta é uma ode e uma desconstrução do amor. Não sobra uma só emoção inaudita no relato da mulher de ascendência armênia, até então uma bem-sucedida autora de guias de viagem. Cada interstício do histórico familiar é flagrado: o casal se apaixona; ele quer filhos, ela não. Kevin é um menino entediado e cruel empenhado em aterrorizar babás e vizinhos. Eva tenta cumprir mecanicamente os ritos maternos, até que nasce uma filha realmente querida. A essa altura, as relações familiares já estão viciadas. Contudo, é à mãe que resta a tarefa de visitar o "sociopata inatingível" que ela gerou, numa casa de correção para menores. Orgulhoso da fama de bandido notório, ele não a recebe bem de início, mas ela insiste nos encontros quinzenais. Por meio de Eva, Lionel Shriver quebra o silêncio que costuma se impor após esse tipo de drama e expõe o indizível sobre as frágeis nuances das relações entre pais e filhos num romance irretocável.

Há uma ferida aberta nos Estados Unidos da América; uma que ainda sangra, machuca e demora a ser cicatrizada. Os atentados em escolas têm se tornado comuns nos noticiários e o número de vítimas, infelizmente, só aumenta. A cada nova fatalidade, o mesmo debate ganha nova força através do país, dividindo opiniões. Discutem-se leis mais duras sobre o porte de armas, a importância da segunda emenda, a necessidade de verificações mais rigorosas de credenciais e, até mesmo, doenças mentais. Como todo escritor, Lionel Shriver, nascida na Carolina do Norte, escreve sobre o que conhece, analisa seus arredores e sintetiza suas visões e percepções.

Os atentados, como o famoso Massacre de Columbine e outros tantos mais, foram a inspiração da autora para o seu romance Precisamos falar sobre Kevin. No livro, Lionel levanta um outro aspecto, geralmente ignorado, que é de extrema relevância para os costumeiros debates pós-ataque: a influência da família no trajeto de vida que culmina em tão violento fim.

Kevin Khatchadourian, apenas três dias antes do seu aniversário de dezesseis anos, assassinou cinco colegas, uma professora e um funcionário no ginásio de sua escola, a Gladstone High. O leitor toma conhecimento desse fato na sinopse, na orelha do livro e imediatamente no primeiro capítulo; portanto, não é uma surpresa ou um plot twist, uma reviravolta inesperada do enredo, mas o ponto de partida. Apesar de o ataque ser o ponto central de todo o desenvolvimento narrativo, atrevo-me a dizer que o complexo e enigmático Kevin não é o personagem principal dessa trama e sim, sua mãe - e nossa narradora - Eva Khatchadourian.

E nós precisamos falar sobre ela.

Eva é o estereótipo de mulher bem-sucedida e independente, mas está longe de ser assim tão simples e bidimensional. Foi criada por uma mãe que sofre de agorafobia - um distúrbio de ansiedade, fortemente ligado a ataques de pânico, que se caracteriza pelo medo exacerbado de situações e lugares considerados inseguros ou sem saída -, o que a fazia viver completamente isolada, sendo incapaz até mesmo de sair de casa.

Tal comportamento despertou em Eva uma de suas características mais essenciais: a necessidade de fugir. Fugir de sua cidade, de seu país, de sua vida, e não acabar igual à mãe. Aventurando-se em viagens a lugares exóticos, costumava anotar informações básicas e relevantes, como as condições do hotel; do transporte; os lugares que valiam a pena ser conhecidos; etc. Tais informações se transformam numa empresa especializada em catálogos para viajantes, dessa forma, ela inseriu-se em um nicho de mercado até então inexplorado, criando, para si mesma, a possibilidade de sucesso profissional. Seus guias exploravam opções mais acessíveis e intimistas, fugindo dos clássicos pontos turísticos e assinalando informações realmente relevantes sobre os locais, como a higiene do hotel e a qualidade do transporte público, algo que não existia no mercado.

Ao conhecer Franklin Plaskett, Eva acaba por se envolver romanticamente com um homem por quem, a princípio, ela mesma não acreditaria que poderia se interessar: um americano orgulhoso, que acredita viver no melhor lugar do mundo e que não há nada mais para se ver. Isso, inclusive, explica muito bem a profissão que ele escolheu, pois sua ocupação é encontrar cenários para fotos ou comercias que atendam às necessidades de seus clientes, mas com um custo mais baixo. Um prado italiano, ou um jardim parisiense sem sair de casa, qualquer lugar na América que parecesse com de outros países. Por conta disso, para ele, os Estados Unidos tinham tudo de que precisava.

A partir dessa diferença tão palpável, surgem grandes atritos entre os dois. O trabalho de Eva demanda que ela passe meses fora de casa, conhecendo cada detalhe digno de ser catalogado para a sua empresa. Enquanto a esposa conhece outros lugares e experiencia outras culturas, ainda que sempre volte para os braços de seu amado marido, Franklin acaba tendo que lidar com o afastamento e a solidão, principalmente, a falta de uma família.

Eva não quer ter filhos, pois crianças representavam tudo o que ela não deseja: perda de autonomia, impedimentos e, acima de tudo, compromissos a longo prazo. É possível interpretar o comportamento de Eva como uma vida vivida em etapas; poder viajar por meses, experimentar coisas novas, conhecer pessoas e voltar para casa, revivendo o clima de começo de namoro, impulsionado pela saudade, como se estivesse constantemente recomeçando. Ela nunca fica, sempre está em movimento, porque está sempre fugindo e, dessa forma, um filho seria uma amarra permanente.

Contudo, há algo mais forte do que sua necessidade de fuga: seu amor por Franklin. Mesmo depois de muita conversa e argumentação sobre prós e contras, Eva tomou sua decisão positiva em um momento de desespero. Confrontada com a brevidade da vida, se viu temerosa ao imaginar sua vida sem o marido. Por isso, decidiu que precisava de um backup. Caso algo terrível acontecesse com o marido, ela gostaria de ter alguém por perto que carregasse alguns traços dele, como uma memória pouco nítida, mas constante em sua vida. A sua decisão foi baseada exclusivamente no medo de perder o marido e de desapontá-lo.

O livro é um romance epistolar, o que significa que ele é escrito através de cartas. Cada capítulo é uma carta de Eva para Franklin e, desde o primeiro, é nítido que eles não estão mais juntos. Ela escreve essa correspondência como um grande desabafo, uma reflexão compartilhada, um modo de tentar dar ordem ao caos e lidar com as consequências do atentado cometido pelo filho.

Além do ponto anteriormente citado, sobre a dinâmica entre passado e presente dentro da história de Eva, é preciso destacar a genialidade da autora em outro aspecto e que, de certa forma, relaciona-se com o anterior. Uma vez que Shriver tece a sua trama após situá-la temporalmente como posterior ao seu evento principal, significa que há uma inovação na evolução da narrativa - de fatos já perpassados e pensados - tanto quanto faz com que consiga estabelecer um precedente essencial para o funcionamento do texto: a obra gerar, impreterivelmente, desconfiança.

É comum que, depois de um evento trágico, olhemos para trás, interpretando cada pequeno detalhe como um aviso ou premonição. Isso nos leva a questionar se tudo realmente era um indicativo do grande desastre ou o grande desastre alterou o modo como interpretamos as coisas. Kevin realmente era como Eva nos descreve ou ela estava abalada pelo atentado?

Mas antes, preciso alerta-lhe, leitor: essa não é uma narrativa convidativa. Não espere uma trama que irá lhe abraçar e fazer com que você se sinta parte da história. Por se tratar de um compilado de cartas para seu ex-marido, uma pessoa em quem ela confia e com a qual se sente à vontade, a narradora não mede suas palavras para expressar seus pensamentos mais íntimos, o que pode gerar certos desconfortos, principalmente, ao percebermos que Eva não é uma pessoa muito politicamente correta.

Você já se sentiu deslocado ao ouvir duas pessoas muito próximas conversando? Sentia-se perdido no rumo que a conversa tomava? As piadas internas e as memórias compartilhadas que só pertencem aos dois envolvidos, sem longas explicações? Um certo caos que parece fazer sentido só para esses indivíduos? É assim que você se sentirá ao ler este livro. Lê-lo é como bisbilhotar a vida alheia.

A genialidade de Lionel é essencial para desenvolver o relato intimista de Eva. A escrita é muito elegante e reflexiva, rebuscada e de grande sofisticação, apesar de muito densa, o que pode fazer com que alguns leitores a julguem lenta. A verdade é que Precisamos falar sobre o Kevin é um livro fragmentado. Em cada carta, em cada cena, por mais que ela possa parecer desnecessariamente longa - um artifício para desviar a atenção -, existem pedaços essenciais de informação. Pode-se dizer que isso seja proposital, uma tática para dispersar o marido e confundir os leitores bisbilhoteiros.

Este é o tipo de história que não pode ser lida distraidamente. É preciso prestar atenção em cada palavra, não devendo ignorar nenhuma delas. Ao longo da leitura, as peças vão se encaixando e, dessa forma, todos os detalhes que pareciam pequenos, desinteressantes ou pouco relevantes vão se unindo para formar um panorama muito mais complexo e assustador do que o leitor poderia imaginar quando ingressou nessa leitura sorrateira.

Por sua densidade e quantidade absurda de informações, é o tipo de livro que demanda mais do que uma única leitura. Em uma releitura, uma vez saciado de sua curiosidade e ciente do resultado final, o leitor poderá compreender os detalhes no momento em que os vê, analisando tudo com novos olhos. E, mesmo que isso não seja obrigatório, tenho certeza de que o leitor não conseguirá evitar. É impossível não querer ler tudo novamente, mesmo logo após terminar.

Há nessa história um magnetismo inexplicável. Talvez seja pelo nosso gosto de bisbilhotar a vida alheia e, por alguns momentos, fugir da nossa. Ou por aquela curiosidade mórbida de avaliar a mente de pessoas como o Kevin, que ultrapassam qualquer barreira e quebram qualquer regra imposta pelas leis ou pela sociedade. Ou talvez seja apenas pelo prazer de aproveitar a habilidade incrível de escrita que Lionel demonstra. Seja o que for, funciona muito bem. Precisamos falar sobre o Kevin é uma obra-prima memorável, que, pela complexidade, é digna de ser consagrada pelo tempo como um clássico incontestável. É uma espiada terrivelmente assustadora na essência da natureza humana que, invariavelmente, faz com que bisbilhotemos a nós mesmos.


REFERÊNCIAS

SHRIVER, Lionel. Precisamos falar sobre Kevin. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012.