RESENHA #37: A CRIANÇA QUE DEVEMOS SER

09/05/2018


A CRIANÇA QUE 

DEVEMOS SER

RESENHA #37

AUTOR: J. M. Barrie
SINOPSE: 
Peter Pan quer ser eternamente menino. Na história criada pelo escritor escocês J.M.Barrie e publicada pela primeira vez no início do século XX, Peter e a fada Sininho levam seus amigos Wendy, João e Miguel para conhecer o lugar em que vivem, a Terra do Nunca, onde o tempo não passa. Uma sucessão de aventuras espera a turma. Eles vão se deparar com um navio pirata e ter que enfrentar o temível Capitão Gancho, conhecer a aldeia dos índios e os meninos perdidos. Uma história cheia de emoções e mensagens. 

Enquanto as crianças forem alegres, inocentes e desalmadas

J. M. BARRIE

Quando eu era mais jovem - e isso não mudou muito nos dias de hoje -, diziam para mim que eu tinha Síndrome de Peter Pan, porque, ao contrário dos meus amiguinhos no colégio, eu realmente gostava de ser criança. Na verdade, se eu pudesse, eu nunca teria deixado de ser uma, porque enfrentar boletos é mais difícil do que enfrentar monstros no armário.

Na época, eu já conhecia o Peter - embora eu nunca tenha realmente gostado dele -, eu me identificava com o seu desejo de permanecer daquele jeito, vivendo aventuras e brincando de faz de conta. No entanto, ao contrário de mim, a maioria dos meus amigos queria crescer, queria viver a vida de adolescentes, adultos que saem, bebem e se divertem na madrugada.

Bom, eu não precisava disso - como até hoje não gosto tanto - porque tinha meus livros, uma imaginação bem fértil e companheiros imaginários que vinham direto dos livros. Eles me faziam bastante companhia e me davam um mundo além do que estava na minha frente e isso, para mim, era o suficiente (ou até mais do que o suficiente).

A obra de J.M. Barrie traz consigo toda essa fantasia e esse mundo que, embora a infância tenha chegado ao fim, continuam comigo a cada vez que abro um livro; a cada vez que experimento um filme ou uma série; ou jogo com meus amigos. Nos dias de hoje, imaginar é ainda mais essencial do que antes, porque continuamos desejando mais e mais e, no faz de conta, podemos ter tudo.

Por isso, acredito eu, histórias como Peter Pan e Alice sejam clássicos que permanecem até hoje, porque eles nos relembram o que há de melhor em nós, o que havia de melhor em ser criança e porque toda essa mudança da vida infantil a adulta é tão importante, sem deixar de nos lembrar que, embora tenhamos virado adultos, não precisamos deixar de lado o melhor da infância.

Toda essa impressão se dá a partir do narrador, em Peter Pan, que dialoga diretamente com o público e conversa com ele sobre as aventuras ao mesmo tempo em que nos faz refletir a respeito de ser quem somos: crianças, adolescentes, adultos ou idosos.

Esse diálogo se repete diversas vezes dentro da trama, quando ele declara quem é seu personagem preferido, qual aventura acha mais interessante contar e, inclusive, quando subitamente muda de ideia a respeito de tudo, porque não importa quanto tempo passe, a certeza, a permanência de uma ideia fixa faz-nos escravos e, consequentemente, burros.

Mas há mais do que fantasia na obra Peter Pan, porque, como uma trama para todas as idades, acredito eu, ela é a perspectiva que você toma da narrativa: se você é uma criança, verá uma fantasia na falta de moralidade e na terra perdida em sua mente; se você é um adulto, verá uma série de metáforas que se encaixam dentro e fora da vida cotidiana, com simbolismos que representam os nossos medos, nossos desejos e a nossa (in)felicidade.

Nesse meio tempo, também não deixamos de ver e reconhecer diversos estereótipos - da época de Barrie, claro - que marcam profundamente o tempo histórico em que a narrativa se passa, como também marcam a própria humanidade, equivalente aos arquétipos já apontados por Campbell.

O interessante e fundamental na narrativa em questão é a figura feminina, tanto como mulher quanto como uma mãe. Isso porque toda a narrativa de Peter é uma busca por essa figura que se perdeu e que é extremamente importante para todo desenvolvimento infantil - de qualquer criança -, visto que é a falta da mãe, a falta da experiência com o feminino e até da própria sexualidade que vetam o crescimento eterno a Peter Pan.

Logo, Peter Pan é e representa nada mais do que a própria infância, como uma personificação, pois, por ser incapaz de crescer, torna-se aquilo que simboliza em todos os aspectos. Ele é um menino arrogante que não possui qualquer moralidade, suas ações fogem aos modos e também é um tanto egoísta, esperando mais para si do que dando para os outros - ainda que, por vezes, exista uma quebra, como quando é cortês com Gancho ou põe os desejos da sra. Darling na frente dos seus.

Nenhuma criança é exatamente alguma coisa, mas há algo na criança que visa ao seu próprio bem porque, essencialmente, somos egoístas e, só a partir do crescimento e do desenvolvimento social que adquirimos características empáticas, como sentir pena de animais ou até desejo de emprestar brinquedos ou fazer alguém sorrir.

Outros personagens também são estereótipos, como a sra. Darling é a mãe ideal e perfeita, para simbolizar o que Wendy possui e o que Peter nunca terá. Ou a própria Wendy, a representação do feminino em crescimento e que, apaixonada pelo capitão dos Meninos Perdidos, deixa-se ser o que ele quiser: a mãe que ele perdeu, a mãe que ele precisa, muito embora ela deseje ser outra coisa.

Como a Princesa Tigrinha ou Sininho desejavam, mas também não conseguiam, pois, por ser a representação da infância, Peter parece não ter qualquer libido ou desejo sexual, o que contraria as pesquisas freudianas, por exemplo. Porém, há algo em Peter Pan que encanta todas as mulheres. O que é? Seriam seus dentes de leite? Seria a sua beleza ou o seu charme? Ou seria algo mais profundo?

O que há em Peter Pan que encanta? Essa é uma pergunta que serve para as personagens assim como para os próprios leitores que se sentem puxados e tragados para dentro da obra. Tanto o personagem quanto o texto são a representação de algo que nós somos, e que, contudo, perdemos.

Perdemos, inclusive, tornando-nos patéticos - e esse é o maior medo de Peter. Todas as figuras masculinas e adultas são patéticas em certa medida durante a narrativa, o pai das crianças é um homem que se importa mais com o que os vizinhos pensam do que com a segurança dos filhos; ou Gancho que sempre busca os bons modos tentando desvencilhar-se dos maus: o fato é que, ao crescermos, importamo-nos mais com as aparências do que com o que essencialmente é.

Essa essência permanece, mas foge; quer estar, mas se torna quase invisível aos olhos e, em Peter Pan, como em outras obras como Pequeno Príncipe e Alice, mostra-nos a importância de não sermos somente adultos e nem somente crianças, podemos ser o meio-termo, o equilíbrio.

Um adulto que não deixou a criança morrer, como Wendy.


REFERÊNCIAS

BARRIE, J. M. Peter Pan. Edição Ilustrada e Comentada. Tradução de Júlia Romeu. Apresentação de Flávia Lins e Silva. Notas de Thiago Lins. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.