RESENHA #36: QUEM SÃO OS ANIMAIS RACIONAIS?

01/05/2018


QUEM SÃO OS ANIMAIS RACIONAIS?

RESENHA #36

AUTORA: Ceridwen Dovey
SINOPSE: Nós, humanos, achamos que somos o máximo. Mas o que temos feito com o nosso mundo? "Só os Animais Salvam" é um livro que tenta responder a essa pergunta de maneira inusitada. Cada um de seus contos é uma fábula moderna, narrada pela alma de um animal envolvido em mais um de nossos incontáveis conflitos e guerras humanas ao longo do último século, e suas espantosas e formidáveis histórias de vida e morte. Em meio ao caos, os animais conseguem encontrar esperança e inspiração em uma das atividades mais significativas que nossa espécie já criou: a literatura. Ceridwen Dovey reúne fragmentos e personagens da obra de escritores imortais e nos faz sonhar o sonho dos inocentes.

Ouvi-o dizer que gostava de colocar animais em suas histórias porque fazia os humanos parecerem piores.
CERIDWEN DOVEY

Em certos cenários, durante a nossa vida, podemos, sim, questionar nossa racionalidade. Dizemo-nos muito sábios, espertos e inteligentes, porém, em alguns instantes, todo esse discurso pode cair por terra, por mar ou pelo ar. Isso porque dedicamos a nós mesmos - humanos - certa parcela de superioridade que, na minha concepção, não é muito convincente.

Em Só Animais Salvam, da autora Ceridwen Dovey, essa percepção é bem nítida e verossímil. Se nós criamos guerras, uns contra os outros, por que envolver outros seres que nada têm a ver nesse percurso doloroso e sofrido? Por que criamos conflitos armados quando temos diversas outras soluções possíveis que demandariam menos sacrifícios?

São questões que permanecem conosco desde que nos reconhecemos como animais racionais, inclusive, parece-me que são perguntas propositalmente não sanadas.

Durante a minha formação acadêmica, fiz uma matéria - por prazer próprio, confesso - que divagava a respeito da guerra, de seus armamentos e de suas estratégias, durante certo período histórico. Quanto mais eu estudava e me aprofundava em diversos autores de lugares e tempos distintos, mais eu me sentia encantada pelos estratagemas, pelo empenho e por toda a estrutura propiciada, sem deixar de levar em conta o sofrimento.

Entre tudo que eu aprendi, o mais interessante foi saber que a guerra só foi vista como monstruosa após muitos períodos de conflito. No tempo dos gregos e romanos, por exemplo, as guerras eram vistas - literalmente - como parte do cotidiano e não como um malefício ou um problema. Como em muitas outras culturas que não ocidentais, o fato de se sacrificar por seu povo ainda é algo positivo, mesmo que isso te leve a morte - e os conceitos de morte, sacrifício e dor variam muito.

Entretanto, não é porque a maioria não via como problema, que grandes pensadores ignoraram os malefícios que ela causava. Pode-se ver entre os gregos, do período clássico, como Eurípides, o quanto a guerra era danosa, tanto para os aliados quanto para os inimigos, principalmente, para as mães que choravam a perda de seus filhos.

Durante o passar dos anos, outros autores - alguns citados nesse livro como referências, embora alguns tenham uma presença concreta - também se rebelaram e se impuseram diante da guerra.

Mesmo que berrassem, escrevessem ou se lamuriassem, até os dias de hoje, continuamos chorando perdas inenarráveis, ainda que tentemos narrar. Só Animais Salvam é um exemplo disso: narrar algo que, dificilmente, se é capaz.

Eu confesso que gostei bastante da abordagem utilizada pela autora e da ideia que teve ao narrar nas múltiplas perspectivas de animais já mortos, durante a cronologia das guerras humanas, ou seja, cada conto se passa - na linha temporal - um após o outro. Esses animais, considerados por nós irracionais, mostram-se - tanto na vida cotidiana quanto no decorrer das páginas - muito mais sensatos do que a humanidade. Além de outros adjetivos que classificaríamos como puros, porque são sagazes e leais, íntegros e honestos, entre outros epítetos que demonstram a sua nobreza.

Entretanto, eu não acredito que Dovey tenha realmente alcançado a alma animal nesse livro, parece-me que ela tenta demais humanizar aqueles que não deveriam ser humanizados em nenhuma hipótese porque já alcançaram uma perfeição que nós, humanos, não possuímos, e esse é o fator que me incomodou durante a leitura, ainda que os seus conhecimentos científicos, históricos e culturais estivessem presentes e fossem coerentes durante os contos. Certas horas, a narrativa é confusa o suficiente para te fazer reler uma, duas, três vezes a mesma passagem, e até conto, para ver se a mensagem transmitida foi realmente compreendida; outras, o discurso é tão cru e sensível que simplesmente paramos admirados e refletimos sobre o que lemos.

Há uma mistura entre prazer e desprazer nesse livro nos dá sensações mistas, porém, embora muitos leitores possam ficar tristes com sua leitura; acredito que o mais válido nele é a reflexão deixada sobre a humanidade a partir de perspectivas que fogem à humana (ou tentam).

Dentre os dez contos presentes, confesso que me senti muito apaixonada e intrigada por uns mais que por outros, não porque os animais me cativaram em demasia ou porque eram meus preferidos em alguma seleção pré-leitura, ou porque seus tempos históricos extremamente fidedignos me intrigavam mais, mas pelos seus temas que embalavam e preenchiam mais os meus vazios - o que definitivamente fazem.

Há um conto só sobre a solidão da alma; outra sobre a obsessão e o acatamento; há aquele que relata a perda da memória e o amor que se esvanece. Há sobre o abandono e o preconceito. Contudo, mesmo nas dores mais profundas e sensíveis a alma, há o prazer e a docilidade, o amor e o conforto, a esperança de dias melhores, amores melhores e momentos melhores, como o próprio anseio por liberdade.

Na minha concepção, essa obra pode ser classificada como dupla: vivendo entre dois mundos de sentidos, sensações e personagens. Entretanto, seria ingenuidade minha fazer uma afirmação que, por vezes, parece-me leviana e que não contempla de todo o que é alguma coisa, o que é uma história, o que é uma obra, o que são os personagens que se metamorfosearam e se negaram como humanos.

O homem é duplo. Ele é animal e ao mesmo tempo finge não ser; os animais em questão parecem passar por um processo semelhante em certos momentos, contrário em outros - alguns se afirmando mais e outros se negando em uma medida quase que equivalente. E, nesse processo de aceitação e personificação do eu, cada um deles nos narra a dor que sentiram ou a libertação que perceberam com a guerra.

O pior se passa com aqueles que não se lembram de tanto sofrimento. Esse momento dói. E, de novo, somos capazes de nos questionar: quem são os animais racionais?

Como sempre, a diagramação da Darkside é louvável, a capa possui uma combinação de cores primorosa e, a cada página, podemos perceber o esmero da edição, preenchendo lacunas não-ditas com um visual elegante e, ao mesmo tempo, marcado nas estrelas, como os elefantes. O único problema de edição, infelizmente, são os erros de revisão que, embora apareçam aqui e acolá, não incomodam em nada durante a leitura.


REFERÊNCIAS

DOVEY, Ceridwen. Só Animais Salvam. Tradução de Leandro Durazzo. Rio de Janeiro: Darkside, 2017.