RESENHA #35: OS DOMÍNIOS DE UM CAVALHEIRO

30/04/2018


OS DOMÍNIOS DE UM CAVALHEIRO

RESENHA #35

AUTOR: Amor Towles
SINOPSE:
Nobre acusado de escrever uma poesia contra os ideais da Revolução Russa, Aleksandr Ilitch Rostov, "O Conde", é condenado à prisão domiciliar no sótão do hotel Metropol, lugar associado ao luxo e sofisticação da antiga aristocracia de Moscou. Mesmo após as transformações políticas que alteraram para sempre a Rússia no início do século XX, o hotel conseguiu se manter como o destino predileto de estrelas de cinema, aristocratas, militares, diplomatas, bons-vivants e jornalistas, além de ser um importante palco de disputas que marcariam a história mundial.

Mudanças, contudo, não paravam de entrar pelo saguão do hotel, criando um desequilíbrio cada vez maior entre os velhos costumes e o mundo exterior. Graças à personalidade cativante e otimista do Conde, aliada à gentileza típica de suas origens, ele soube lidar com a sua nova condição. Diante do risco crescente de se tornar um monumento ao passado até ser definitivamente esquecido, o Conde passa a integrar a equipe do hotel e a aprofundar laços com aqueles que vivem ao seu redor.

Com sua perspectiva única de prisioneiro de duas realidades distintas, o Conde apresenta ao leitor sua sabedoria e sensibilidade ao abandonar certos hábitos e se abrir para as incertezas de novos tempos que, mesmo com a capacidade de transformar a vida como a conhecemos, nunca conseguirão acabar com a nobreza de um verdadeiro cavalheiro.

Se um homem não dominar suas circunstâncias, ele é dominado por elas.

AMOR TOWLES

Certa vez, uma menina da minha turma de ensino médio questionou uma professora minha a respeito da diferença entre cavaleiro e cavalheiro. Sem aprofundamentos, essa minha colega de turma conseguiu a explicação que desejava, afinal, o primeiro é aquele que anda a cavalo e o segundo, é o educado, conhecido também como gentleman.

Embora ela estivesse saciada com a resposta, eu não estava - na verdade, geralmente uma afirmação simples me sacia - nem um pouco. E, automaticamente, acreditei que cavaleiro e cavalheiro fossem palavras de origem parecida ou comum, porque isso fazia sentido (sem aprofundamentos também, porque eu sempre fui preguiçosa). Depois de um tempo, eu esqueci, mas, com a leitura de Um Cavalheiro em Moscou, eu me recordei dessa história.

Ao invés de fazer uma mera explicação etimológica provinda direto do Houaiss - que também não deixa de ser a fonte desse texto -, vou tentar explicar o sentido dessa origem. A primeira palavra a surgir foi cavaleiro, do latim "caballarius, i", que era um palafreneiro (um homem que conduzia ou montava o palafrém, um cavalo dedicado aos nobres, reis e clero por ser essencialmente manso) ou um escudeiro.

Esse homem, já distinto de origem e com possibilidades de estudo, tinha certo refinamento ao contrário dos demais subalternos, que não andavam a cavalo e, muitos, eram considerados guerreiros até bárbaros (principalmente, os inimigos que estupravam e assassinavam camponeses).

No entanto, na língua portuguesa, a diferença entre cavaleiro e cavalheiro não veio diretamente do latim, na verdade, veio do espanhol "caballero" porque, na época em questão, na Península Ibérica, numa reconquista militar e religiosa, o termo começou a ser utilizado para diferenciar as classes sociais e também dar um status ao cavaleiro como um homem nobre, gentil e educado. Isso se dava porque o cavaleiro - que era um cavalheiro de acordo com a sua distinção social - era capaz de proteger os incapazes, ao contrário dos demais.

Contudo, Um Cavalheiro em Moscou, embora mostre em parte essa aristocracia cavalheiresca bem característica e presente durante todo o enredo, é um livro escrito por um americano chamado Amor Towles que titulou o livro A Gentleman in Moscow, logo, o que pode melhor definir é a etimologia da palavra gentleman.

A origem dela, de acordo com Lawrence Stone, proveio do final do século XVI, quando as terras da alta aristocracia foram passadas para à gentry, que era constituída de uma pequena e média nobreza rural; entre outras classes, como os comerciantes, por exemplo. Nessa transmissão de terras, o status e o poder também foram transmitidos para as pessoas que as detinham, justamente porque a terra ainda era a principal fonte de riqueza.

Logo, na hierarquia social inglesa da época, a gentry formou uma nobreza de status. Os membros desse grupo eram ninguém menos que os gentlemen (no singular, gentleman), sendo eles proprietários das terras que outrora pertenciam a alta aristocracia, como também de fortunas que não tinham qualquer relação com a terra.

Da mesma forma que o termo foi trazido para o português e a associação entre cavaleiro e cavalheiro foi feita, a palavra gentleman também adquiriu o status de refinamento, inclusive, até hoje pode ser interpretada como senhor.

Esse livro fala exatamente sobre o que um cavalheiro é, sua origem e seus traços mais marcantes e, ao mesmo tempo, trabalha a decadência de toda uma era de homens que eram nobres e perderam seu status, mas não seu refinamento.

Pode parecer brutal utilizar o termo "extinção", porém, ao ler o livro de Towles, tive, durante a leitura, a sensação - constantemente - de que era um tipo de tempo que se foi, um estilo de homem que se perdeu.

O cenário secundário dessa narrativa é a Rússia, um lugar marcado pelo frio e pelas guerras bem-sucedidas porque nenhum inimigo era capaz de ultrapassar as barreiras climáticas, como foi o caso de Napoleão e de Hitler. Inclusive, esse segundo é memorado, dentro do tempo presente, na trama que percorre trinta e dois anos (nesse meio tempo, estoura e termina a Segunda Guerra Mundial) da prisão domiciliar do protagonista, Alexandr Ilitch Rostov, também chamado pelo narrador e conhecido por ser um Conde.

Durante as primeiras cem páginas do livro, embora a descrição seja leve e o refinamento do Conde nos deixa inebriados, sentimos nitidamente a sua prisão, o seu ócio que podem comprometer a parte inicial da leitura e torná-la maçante, em certa medida, pois estamos falando de uma trama que se passa em um só cenário, de um homem que tinha a liberdade de ir a todos os lugares - e os conheceu - transformando-se em alguém trancafiado.

Entretanto, aos poucos, em momentos quase imperceptíveis aos olhos, começamos a nos apaixonar e conhecer o glamour que cerca o protagonista e o segundo personagem, na minha concepção, principal da trama: o Hotel Metropol. Esse hotel, que funciona e existe até hoje, é um cenário que flutua entre ser cenário principal e ser personagem, como a Catedral de Notre Dame, em Corcunda.

Dentro desse lugar, o Conde, sem sequer sair, conhece o mundo do lado de fora e todas as situações marcantes do período russo, porque o hotel é peça chave para a própria política do país: os debates e assembleias são feitos lá, os mais ricos e influentes jantam e se hospedam ali. E, como uma ficção histórica, acaba não somente nos trazendo conhecimento sobre as situações intrínsecas do país, como sua literatura e o pensamento de toda uma nação (embora, acredito eu, seja um tanto comprometido pelo fato de que Towles é americano e não um russo nato).

A cada instante, o livro traz uma reflexão a respeito da vida, algumas mais poéticas e outras profundamente dolorosas; ao mesmo tempo, é quase que uma ode à arte, não se prendendo só a literatura (e nem só a Rússia - o que me incomoda um pouco é que ignora completamente o primor de Leskov já mencionado por Benjamin durante a época da narrativa), mas tudo que a cerca, inclusive, a arquitetura, constantemente marcada dentro da trama como algo necessário ao homem e à sua história. Devo dizer que um dos melhores momentos do enredo é toda uma reflexão a respeito do homem russo e de seu anseio por autodestruição.

Por conta disso, acredito eu que, além de trabalhar a história, a ideia do cavalheiro, o livro também abarca a própria ideia de identidade de uma nação - a partir de um grupo de trabalhadores de um hotel que transitaram por diferentes tempos russos, a partir de hóspedes que chegaram há pouco e nada sabem, mas suspeitam - que se encontra e se perde nas noções de certo, errado, justo, injusto, imperialista ou não.

Enquanto trabalha a identidade, o autor também elabora a respeito do anseio pela liberdade, inclusive, um dos momentos mais interessantes das reflexões do Conde é a respeito da prisão domiciliar: não pode retomar a vida, conhecer outros lugares e pessoas; nem pode se esquecer do lugar pelo qual lutou. Ele está estanque e, na medida em que o tempo vai passando, essa noção se torna cada vez mais transparente, embora, em mesma medida, tudo vá ganhando um sabor delicioso de requinte.

O interessante, inclusive, é que as identidades - dos personagens e dos cenários - miscigenam-se. A cada página, podemos perceber a mescla da Rússia que se foi, a partir do Conde; a Rússia que é, a partir de Nina; e a Rússia que será a partir de Sofia. Em mesma medida, o Metropol é o próprio símbolo da Rússia que persiste, mesmo com as adversidades e nós temos a noção completa disso porque os personagens interagindo entre si mostram e denotam as relações de poder.

Confesso que a delicadeza do livro e a sutileza dos detalhes pode tanto prender o leitor ansioso quanto pode afastá-lo (ainda mais quando esperamos a violência própria daquele período), porém, todo esse esmero se deve absolutamente a personalidade do Conde e do próprio Metropol: cheio de recatos, brilhos e pompas. Inclusive, repleto de arrogância.

Nós, por estarmos acompanhando o Conde a todo momento, deixamo-nos perceber somente as suas qualidades: sua educação, destreza, tato e humanidade; no entanto, devemos lembrar que ele é um nobre, que veio de um berço de ouro e, por vezes, podemos vê-lo frustrado ou irritado por bobagens, como a mera escolha de um vinho. É por conta dessa arrogância que, embora o adoremos, nosso Conde cria certo inimigo - o que o faz um personagem interessantemente complexo: parece cheio de qualidades próprias de um mocinho, mas há defeitos que encontramos somente ao vislumbrarmos os domínios de um cavalheiro.


REFERÊNCIAS

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 2001.
STONE, Lawrence. Causas da Revolução Inglesa (1529-1642), tradução Modesto Florenzano, Bauru, Edusc, 2000.
TOWLES AMOR. Um cavalheiro em Moscou. Tradução de Rachel Agavino. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.
<https://m.caras.uol.com.br/mobilesite/noticia/etimologia-sinais-graficos>; consultado em 26/04/2018 às 19:55hr.