RESENHA #33: UMA CONVERSA AGRIDOCE

13/04/2018


UMA CONVERSA AGRIDOCE

RESENHA #33

AUTORA: Larissa Lima
SINOPSE: Você só se dá conta de quão precioso é o tempo quando ele se torna limitado. É o que acontece comigo: tenho mais ou menos um ano antes que meus sonhos - e toda a minha capacidade de me movimentar - morram devido a uma doença. 

Pretendo fazer cada segundo valer a pena.

Escrever esta resenha não foi uma tarefa fácil. Desde que li o primeiro capítulo de Antes de ELA chegar, venho adiando a leitura, simplesmente por não querer que ela acabe. Logo nos primeiros parágrafos, já me vi envolvida na trama e estranhamente ligada aos personagens.

Helena, a personagem principal dessa história, foi diagnosticada com esclerose lateral amiotrófica ou ELA, para os íntimos. A mesma doença que acometia Stephen Hawking, o brilhante físico que faleceu no dia 14 de março. O resultado do sorteio que me levou até essa história foi anunciado no dia 15 de março. Era coincidência demais, o que despertou suspeitas até em alguém tão cética quanto eu. A verdade é que me sinto obrigada a agradecer o alinhamento do universo e das estrelas - ou o gerador aleatório do sorteio - que me proporcionou tal leitura.

Pois bem, vamos começar pelo começo, que tal? Helena é uma adolescente comum, que vive uma vida comum, até que é diagnosticada com ELA. Essa doença é caracterizada pela degeneração progressiva dos neurônios motores no cérebro - os neurônios motores superiores - e na medula espinhal - os neurônios motores inferiores -, ou seja, estes neurônios perdem sua capacidade de funcionar adequadamente (transmitir os impulsos nervosos). O neurônio é uma célula nervosa especializada, diferente das outras células do corpo humano porque apresenta extensões que realizam funções especiais. No caso dos neurônios motores, eles são responsáveis pelos movimentos de contração e relaxamento muscular. Quando os neurônios motores não podem mais enviar impulsos para os músculos, começa a ocorrer uma atrofia muscular, seguida de fraqueza muscular crescente. Isso resulta em dificuldade de fala, deglutição, e, eventualmente, da respiração.

Stephen Hawking alcançou o último estágio da doença, onde precisava do auxílio de equipamentos para se locomover e até mesmo para se comunicar. Todavia, o caminho até esse estágio é tortuoso, difícil e doloroso.


Se eu vou morrer? 
Bom, é óbvio que sim. Todo mundo vai. 
Quando? 
Não faço a menor ideia.

Helena tem um ano até alcançar esse estágio. Por isso, decidiu fazer uma lista com tudo o que quer fazer antes de perder total controle sobre o seu próprio corpo. Tal premissa não é incomum - tanto no mundo ficcional quanto no mundo real - com o conceito de "bucket list", aquela famosa lista de coisas para fazer antes de morrer. O termo bucket list vem da expressão to kick the bucket, que em português corresponde a "bater as botas". To kick the bucket se refere ao fato de a pessoa estar com a corda no pescoço, em cima de um balde (bucket) e, então, ela chuta o balde (kick the bucket) para se enforcar. Um termo um tanto tétrico para resumir experiências que escolhemos realizar para nos sentirmos mais vivos. Mas nem só a morte é a inspiração para a criação dessa lista, e Helena é a prova disso. Ao confrontarmos a brevidade da vida e a fragilidade de nossa liberdade vivemos um momento catártico, gerando, dessa forma, um desejo poderoso de cruzar as linhas que nos são estabelecidas e desafiar conceitos que, uma vez questionados, não parecem fazer muito sentido.

No decorrer da narrativa, podemos observar que ELA não parece ser somente a doença de Helena, mas também uma personagem forte a parte que pode nos rememorar a chegada de um vilão, tanto quanto o clímax de seu plano malévolo ou como o ataque do Macaco Louco à cidade de Townsville. Isso pode parecer muito triste, mas a protagonista encara a situação com todo o otimismo possível.

Acompanhar a jornada de Helena na sua busca por novas aventuras, sua evolução ao concluir mais itens em da lista, é uma experiência agridoce. A autora fez - até o momento - um ótimo trabalho com sua escrita, trazendo com as palavras uma sensação de proximidade e veracidade que transparecem a dor da personagem. No entanto, tudo é leve e divertido, ainda que, por vezes, seja tão intimista e visceral. A proposta é bem cumprida: ser uma simples conversa. Helena escreve conversando com o leitor, contando suas aventuras como se estivesse sentada ao seu lado, dividindo um sorvete ou um chá. E, talvez, isso seja ainda mais doloroso do que o mais dramático dos dramas.

Essa proximidade é muito poderosa. É o tipo de vínculo leitor/personagem que chega tão naturalmente que você nem mesmo se dá conta de que ele está se aproximando. Quando percebe, a história já lhe envolveu e Helena já conquistou seu coração. Isso que faz tudo ser tão doloroso, pois, por mais que o foco seja na lista de aventuras e nas primeiras vezes da personagem, a autora não deixa de trabalhar, simultaneamente, a doença que avança em seu próprio tempo. ELA, dentro do enredo apresentado, é uma espécie de subtrama tortuosa ao mesmo tempo em que é uma personagem com engrenagens vivas e dispostas a atrapalhar o caminho de Helena, essa, sem sombra de dúvida, foi uma das genialidades que identifiquei nessa história. Quando os sintomas da doença começam a se manifestar, eles, primeiramente, são comentados de maneira simples, tão simples que podem passar despercebidos pelo leitor desatento. ELA pode estar chegando devagar, mas sempre está presente.


⸺ Anote sua ideia na agenda de hoje, gênio - pedi. Não conseguia escrever.


É preciso falar de outro trunfo desta história: Gustavo, apelidado carinhosamente de Vader. Ele é o melhor amigo de Helena e seu companheiro de aventuras, que aceitou ajudá-la a criar e cumprir sua lista. Vader é um personagem carismático, bem construído e muito bem apresentado pelos olhos de sua amiga. É, por falta de melhor definição, um fofo. Quero colocar Vader e Helena em um potinho e protegê-los para sempre... mas isso não vem ao caso. O relacionamento dos dois é tão natural e acolhedor, casa tão bem com a trama, que é impossível não se apaixonar. A parte mais incrível disso tudo é como Vader também evolui ao longo da lista, enfrentando seus próprios medos para ajudar a sua amiga.

A empatia com os personagens fica ainda mais forte com as suas referências a filmes, séries e livros espalhadas pelo texto. Ambos ganham características tão reais e precisas que é muito fácil visualizá-los ou imaginá-los como seus amigos, por lembrarem alguém que você conhece. E, para aumentar essa proximidade, a história se passa em solo brasileiro.


⸺ Você ainda vai gostar de mim quando eu não puder fazer nada disso? (...) Quando eu for só um vegetal numa cadeira de rodas, sem dançar, sem sair para comer, sem correr de você, nada? 
⸺ Não, talvez eu te jogue no mar. (...) Que pergunta boba. É claro que eu ainda vou gostar de você! Mesmo sem o que você disse, ainda teremos isso. (...) Você ainda será você, a menina mais inteligente e engraçada que me shippa com qualquer ser vivo na Terra. E eu ainda vou ser... bom, só eu. Sempre seremos Vader e Helena, Helena e Vader. ⸺ Tipo Emma e Dexter.


Uma das grandes surpresas que tive foi encontrada nas notas da autora. Ela afirma estar cumprindo realmente os itens da lista, escrevendo cada capítulo baseado em suas próprias experiências, usando referências de lugares reais. Acredito que esse seja seu ponto forte, pois a sua vivência traz para o texto uma verdade adicional, uma veracidade que está presente em cada palavra porque é real. A cada momento, vemos a transmissão dos sentimentos tão bem quanto as descrições de suas aventuras. É muito fácil se sentir parte daquilo.

Com ares que me remetem a John Green, Antes de ELA chegar tem tudo o que um bom YA (Young adult, do inglês jovem adulto, que pode ser definida como literatura para pessoas de 14 a 21 anos) precisa. Há experiências e transformações, diversão e tristeza, além de um casal de amigos que poderia ser um par (eu sei que eles são só amigos, mas é impossível não querê-los juntos). Imaginei-me protegida debaixo das cobertas em uma tarde de inverno, avançando pelas páginas deste livro, devorando cada palavra, rindo e chorando com a trama. Helena, Vader, e até mesmo ela, vão aquecer seu coração tanto quanto o chá aqueceu meus dedos.

A história é tão bem trabalhada que me parece pronta para ser publicada e ocupar um espaço na estante de todos, ao lado de grandes escritores como John Green, Meg Cabot e Rainbow Rowell.

Por isso, aproveite a oportunidade de acompanhar essa história que, atualmente, conta com apenas seis capítulos. Experimente as aventuras de Helena e Vader e, quem sabe, tente reproduzi-las em sua vida. Aproveite cada minuto e saboreie cada palavra.

E, para não perder o costume, sinto que devo me despedir da mesma forma que Helena sempre se despediu de mim ao final de cada capítulo:

Aqui quem fala é a Jeniffer.

Câmbio e desligo.

Pensando bem, agora acho que, não importa o quão longa e plena seja uma vida humana, nunca se pode experimentar todas as coisas do mundo nela. Seria injusto com pessoas como eu, não é? Mas, na verdade, não importa. O que conta é que, no fim, cada um esteja feliz com sua pequena coleção de memórias. Estou me esforçando para incrementar, diversificar e amar ao máximo a minha. E você? 
Quando chegar ao fim, gostará do que vai ver ao olhar para trás? 
Sinceramente espero que sim.



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