RESENHA #32: A BESTA É HUMANA

02/04/2018


A BESTA É HUMANA

RESENHA #32

AUTOR: Émile Zola 
SINOPSE: 
França. 1870. Atormentado pelo desejo de matar as mulheres por quem se sente atraído, o maquinista Jacques Lantier se refugia no comando de sua Lison, a possante locomotiva a vapor com que periodicamente cruza a linha Paris-Le Havre. Os trilhos fazem com que seu destino se cruze com o da bela e cruel Séverine, e terminam as vidas de todos os personagens deste livro. 


O que nos diferencia dos animais? A depender do estudioso, nada; outros dizem que muito, pois somos civilizados e temos polegares. Alguns podem até citar que somos superiores em capacidade intelectual e desenvolvimento afetivo por um funcionamento cerebral extra, além de tantas outras afirmações que se propagaram ontem e continuam até a contemporaneidade.

Mas, de fato: o que nos diferencia?

Certa vez, minha mãe me disse que nós somos maus e sem escrúpulos enquanto os animais irracionais agem puramente por instinto. Contudo, o que de fato é maldade e o que de fato é instinto? Como podemos conectar cada um desses pontos e tentar traduzir ou entrever alguma resposta?

Na minha concepção: todos somos lógicos, mesmo que a lógica fuja da natural civilidade imposta de acordo com a sociedade em que se vive - e me parece que Émile Zola interpreta o mundo de forma semelhante, como pode-se vislumbrar em A Besta Humana, a décima sétima obra de sua coletânea de ficções Os Rougon-Maquart: História natural e social de uma família sob o Segundo Império, contando com diversos personagens que, na busca da autopreservação, seguem seus instintos mais mundanos, deixando-se cair nas garras das bestas que habitam os seus corações.

Talvez, eu tenha avançado um pouco demais ao falar da perspectiva e da ideia elaboradas dentro da obra, sem antes desenvolvê-la. Rápido. Como uma locomotiva acelerada em que o maquinista não tem mais qualquer capacidade de controlar. Assim, nós - seres humanos - somos com alguns de nossos impulsos. Temos desejos incontroláveis, como de comer um doce ou beber algo, fazer certo tipo de atividade. Na vida cotidiana, geralmente, essas são as opções mais comuns, porém, há outras que fogem do padrão estabelecido: como o desejo de matar alguém ou causar dano.

Vivendo com o conceito da escola naturalista, que utilizava a crueza do mundo e suas imperfeições para fazer arte, Émile Zola traz alguns confrontos psicológicos profundos ministrados com uma trama policial que está escondida para os personagens, mas não para os leitores.

O interessante disso é que a resposta já é nossa, nós sabemos quem assassinou e suas motivações para o crime, porém, os outros personagens não, o que nos coloca em uma posição de não nos importarmos com o mistério investigativo à moda Christie, mas sim com as reações presentes na narrativa a respeito do mistério, de como a investigação é conduzida e do que os envolvidos e não envolvidos no crime acham de tudo.

A partir desse desenvolvimento, em que todos são um pouco inocentes e culpados de suas ações no decorrer da narrativa, encontramos características que fogem a postura correta da sociedade francesa em todos eles, literalmente. Inclusive, é dessa forma que Zola trabalha os seus personagens secundários, dando-lhes formas tão vivas quanto as das figuras em destaque; o que faz parte de um exímio trabalho de construção que floresce diante da bestialidade humana.

A história parece, a priori, acompanhar o casal Roubaud e sua esposa Séverine, buscando concretizar uma vingança contra um homem influente que, abusando de seu poder, extrapola sua autoridade. No entanto, em sequência, conhecemos aquele que realmente deve ser destacado: Jacques Lantier e sua compulsão em matar as mulheres que deseja ardentemente.

Por uma coincidência, esses três acabam construindo relações que vão trazer à trama uma nova perspectiva e uma mudança de ares tão naturais à vida cotidiana que, de tal forma, poderia ocorrer em qualquer lugar. Há o esgotamento das relações que se chocam por traumas de forma tão crua e tão bem elaborada que conseguimos sentir na pele as sensações do casal Roubaud e Séverine, como também podemos notar o desejo crescente na relação entre Séverine e Jacques.

Há uma naturalidade tão estupenda que não há como não elogiar a performance literária de Zola e como a sua trama vai preenchendo as lacunas sem nem sequer precisar recorrer extensivamente a diálogos.

Nesse interim de relações que se esgotam, há uma personagem que também vai se degradando e se mostrando tão humana quanto aos que de fato o são: Lison. A locomotiva conduzida por Jacques, de dada forma, atrai nele certo interesse romântico e erótico - que atenua e apaga seus ensejos e desejos -, ao ponto de o autor sempre alocar a ideia, ao lado do foguista Pecqueux, de um ménage à trois, ou seja, uma relação sexual a três.

Essa personagem possui muita força na narrativa e é a partir dela que vemos o confronto entre máquina e homem, como também das relações humanas com a tecnologia da época. Lison, em diversos momentos, é vista como uma mulher que atrai Jacques e o afasta das de carne osso e de seu desejo insano de matar, entretanto, no momento em que se envolve com Séverine, passa a se afastar da máquina, tratando-a de maneira até mesmo maldosa.

No entanto, é uma relação que se desfaz e se renova, porque, a partir do momento em que a natureza e a bestialidade se revelam mais uma vez para Jacques, é para os braços de sua adorada locomotiva que ele retorna, fazendo-o retornar, de certa forma, sempre para o mesmo ponto, como a própria máquina fazendo a viagem de ida e volta todos os dias.

Há como fugir dessa natureza que o persegue? É uma das questões que me pareceram mais presentes na narrativa, pois Zola utiliza a ferrovia como uma metáfora tão intrínseca que não consigo deixar de pensar que a nossa vida é uma linha reta, nossas escolhas e nossas ações são movidas por esse trilho. Estamos perdidos nele e aptos para aflorar a qualquer momento - não há escapatórias quando não há mais viagem, da mesma forma, não há como trilhar outro caminho que não o da nossa natureza. Se os humanos e as locomotivas são o mesmo, o trilho que seguimos também não seria o que nós intrinsecamente somos?

Outro fator muito interessante da narrativa é que Émile Zola fomenta, em certa medida a partir do personagem de Jacques, o pensamento que viria a ser de Sigmund Freud anos mais tarde, a respeito do desejo - Éros - e da morte - Thanatos - estarem conectados, pois fazem parte do mais intrínseco do homem e são o que movimenta mais os seus instintos. O prazer como fonte de vida e a morte, como uma tentativa contínua de destruir, pulsando.

Embora eu não seja muito fã das teorias freudianas alocadas lado a lado com os mitos porque geralmente são desculpas alegóricas, há algo de muito interessante nessa teoria e plausível: a natureza humana - como a animal - possui um instinto sexual violento, pois, mesmo nas relações mais amorosas, o sexo é uma invasão, um - metaforicamente - arrombamento, por conta disso, há no sexo, em certa medida, um nível de agressão, como amor e ódio que vivem lado a lado, pois quanto maior o sentimento e a sensação para um lado, maior será a possibilidade e a própria existência do outro. Provavelmente, a frase "do amor nasce o ódio" possa ser uma velha conhecida que ilustre bem o caso.

Ainda que não conhecesse a psicanálise freudiana, Zola coloca em sua obra essa noção muito fortemente e nos dá a entender que sua perspectiva seja congruente a de Freud e, consequentemente, a natureza da psique.

Há algo também na obra que me pareceu interessante, embora eu acredite que nem todos hão de concordar com essa perspectiva: a noção de aparência da teoria do criminoso nato. Para mim, Zola passa a obra inteira refutando a teoria de Lombroso, ainda que a utilize.

É bem marcado no decorrer da história como acentua o perfil de todos os personagens, destacando a sua aparência, principalmente, a face. O autor faz questão de demarcar continuamente, porém, com a conclusão da narrativa, observamos que o único que é considerado pela sociedade francesa como um assassino, alguém verdadeiramente criminoso, constantemente marcado pela ideia do crime e o único que é julgado como tal durante todo o tempo é o mais inocente entre eles, fazendo com que, no final das contas, a aparência não leve a lugar nenhum.

Esse confronto entre o externo e o interno é uma armadilha muito bem elaborada por Zola, surpreendendo-nos no decorrer da execução de sua obra como um todo e, essencialmente, mostra-nos que a besta é humana porque nós somos bestiais.


REFERÊNCIAS

ZOLA, Émile. A Besta Humana: edição comentada e ilustrada. Tradução de Jorge Bastos. 1ªed. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.