RESENHA #31: A IDENTIDADE DOS PÁSSAROS QUE VOAM

23/03/2018


A IDENTIDADE DOS PÁSSAROS QUE VOAM

RESENHA #31

AUTORA: Nadia Hashimi
SINOPSE: Filhas de um viciado em ópio, Rahima e suas irmãs raramente saem de casa ou vão à escola em meio ao governo opressor do Talibã. Sua única esperança é o antigo costume afegão do bacha posh, que permite à jovem Rahima vestir-se e ser tratada como um garoto até chegar à puberdade, ao período de se casar. Como menino, ela poderá frequentar a escola, ir ao mercado, correr pelas ruas e até sustentar a casa, experimentando um tipo de liberdade antes inimaginável e que vai transformá-la para sempre. 

Contudo, Rahima não é a primeira mulher da família a adotar esse costume tão singular. Um século antes, sua trisavó Shekiba, que ficou órfã devido a uma epidemia de cólera, salvou-se e construiu uma nova vida de maneira semelhante. A mudança deu início a uma jornada que a levou de uma existência de privações em uma vila rural à opulência do palácio do rei, na efervescente metrópole de Cabul. A pérola que rompeu a concha entrelaça as histórias dessas duas mulheres extraordinárias que, apesar de separadas pelo tempo e pela distância, compartilham a coragem e vão em busca dos mesmos sonhos. Uma comovente narrativa sobre impotência, destino e a busca pela liberdade de controlar os próprios caminhos.

Acho que todos nós carregamos conosco a história de nossos antepassados.

NADIA HASHIMI

A consciência dos nossos direitos é muito importante e, às vezes, podemos nos esquecer disso.

Certa vez, em sala de aula, uma professora minha disse à turma que a conquista de nossos direitos faz parte do nosso DNA. Quando os temos, nada mais pode acabar com eles ou interferir em sua existência, porque - essencialmente - faz parte do que somos a partir do instante em que eles se presentificam.

A obra A pérola que rompeu a concha, da autora Nadia Hashimi, fez com que essa frase martelasse na minha mente por horas consecutivas durante e após a leitura, porque é exatamente sobre isso que a história fala: sobre os direitos que são perdidos e a luta para reavê-los.

Mas, acima disso, também é sobre esperança.

Confesso que por horas procurei como surgiu a tradição da bacha posh, que literalmente é, em Dari, língua principal do Afeganistão, vestir-se como menino; porém, eu não encontrei nenhuma informação concreta que pudesse relatar sobre a origem dessa tradição. O que se diz, em alguns textos, é que foi uma tradição iniciada a partir da falta de soldados para a guerra, por isso, mulheres passaram a se vestir como homens para lutar pelo seu país, um exemplo histórico relatado é Malala. Contudo, são informações não muito precisas.

Em outras culturas, esse processo também é comum, como na China, lugar em que surge a lenda de Mulan; que se veste de homem pelo mesmo exato motivo. Entretanto, uma pergunta interessante a ser feita é: por que essa tradição continua?

Essa resposta não é difícil de ser encontrada, pelo contrário, nas páginas do livro de Hashimi é possível perceber a necessidade dessa tradição e como ela é um malefício, ainda que faça bem em parte, para as meninas que tomam para si esse manto masculino.

Existe uma valorização muito forte da figura masculina. Como ocorre na China, é o homem que sustenta economicamente os pais durante a velhice, logo, existe uma necessidade social de que a família gere, pelo menos, um menino.

Quando isso não ocorre, surgem as bacha posh. No Afeganistão, e em outros lugares próximos e com uma cultura semelhante, é visto como negativo o fato de não se ter um menino, dessa forma, a mãe - principalmente - tanto quanto o resto da família é julgada pela comunidade por não ter um filho.

Pode parecer insano para nós, mas isso acontece porque a existência de um rapaz que vá cuidar da família no futuro e, principalmente, que possa sair de casa é necessária dentro do ambiente familiar, visto que mulheres não podem ir ao mercado fazer compras, não podem - literalmente - sair de casa e são poucas que conseguem ir para a escola.

A tradição da bacha posh tenta minimizar esse problema familiar, pois, ao vestir uma menina de menino, a família possui - até a puberdade - um rapaz que poderá ir ao mercado e ser livre.

Porque homens são livres por lá, mulheres não.

Outro motivo da prática, e foi o que me assustou ainda mais, é a tentativa de impedir casamentos de meninas de nove até treze anos, pois é comum homens de quarenta a setenta anos quererem se casar com meninas dessa idade. O interessante é que, na verdade, nas leis do próprio Afeganistão, somente é permitido o casamento para meninas acima de dezesseis anos, no entanto, a prática de homens tomarem meninas jovens e abaixo da idade permitida é tão comum nas zonas rurais que fica impossível para o governo controlar o próprio povo, os próprios pais que vendem a filha como uma propriedade.

O mesmo ocorre com Rahima, uma das protagonistas da história de A pérola que rompeu a concha. Ela, aos treze anos, é vendida pelo pai - por ópio - para um homem muito mais velho que ela. Ainda que fosse uma bacha posh, isso não impediu Abdul Khaliq de querê-la, pois era extremamente poderoso na região e, até o final da narrativa, não foi sequer julgado por isso.

Da mesma forma que vemos todo o processo de uma menina que, para ter um pouco de liberdade, veste-se de menino, também encontramos o que essa transformação faz com ela.

Ela se torna metade. Menino e menina, perdida em um mundo que a priva de ser livre quando torna a ser mulher. Todas as suas formas de agir, sentar e ser se transformam e a mudança de volta é extremamente difícil, para não dizer impossível, pois ela nunca vai conseguir aceitar aquela condição tão contrária a primeira.

A prática é um ganho, no aspecto de que dá liberdade a figura feminina, mas é tão negativa quanto se não existisse, pois, além de privá-la da liberdade que outrora carregava, demonstra fortemente como é indesejável nascer mulher, como se nascer mulher fosse a pior coisa que pode ocorrer.

E para eles, basicamente, é isso.

Para as mulheres, muito mais. O preconceito enraizado na sociedade em relação a qualquer minoria - seja por gênero, sexualidade ou cor - e qualquer deficiência é extremamente explícito e danoso. Se você não for um homem, de origem afegã por completo - ou branco, afinal, esse é aceito como padrão em qualquer lugar -, sem qualquer deficiência, você definitivamente vai sofrer preconceito. Eles, durante o decorrer da narrativa, demonstram como você não é aceito, gritando insultos e fazendo cochichos a todo instante.

O fato de ser diferente de um modelo padrão, lá tanto quanto aqui, é um problema tão forte que as pessoas só agem de maneira preconceituosa, sem medir a aflição que causam no outro. Inclusive, a falta de sororidade entre as mulheres é absurda, porque elas competem entre si pelo homem que as maltrata porque sabem que sem ele não serão capazes de comer.

Quanto mais eu lia essa história, mais doía, mais enraivecida eu me sentia. Não podemos negar que é uma herança cultural que devemos respeitar, mas como conseguimos respeitar algo que não respeita a diferença? Não respeita outros indivíduos que são flagelados e marcados por toda a vida?

Torna-se tão complicado e ao mesmo tempo tão sofrido que é difícil dizer com frieza sobre essa cultura riquíssima em alguns aspectos e paupérrimo em outros. Além disso, ainda que Shekiba - a tataravó - e Rahima estejam em tempos completamente diferentes um do outro, uma por volta de 1910 e a outra pelos anos 2000, respectivamente, elas vivem uma realidade semelhante: de meninas que tiveram de ser meninos e de pessoas que viveram a liberdade e viram-na escapar de suas mãos, de um jeito ou de outro, elas se veem obrigadas a aceitar essa situação.

Contudo, A pérola que rompeu a concha não se limita a denunciar todos os problemas citados e tantos outros mais que conseguimos captar dentro da narrativa, também é uma história que fala sobre esperança dentro dos contextos culturais e políticos nos quais está inserida.

A mensagem final da história, como o seu final, não é realmente um final, o que se torna agridoce, porque é real e palpável; mas a possibilidade de um novo início, de um voo de liberdade e da possibilidade de existir uma identidade própria, que amarre essas duas pontas de quem são Shekiba e Rahima.

Ao menos, para uma delas.

Confesso que, sendo bem honesta, esse foi um livro que me surpreendeu porque ele é totalmente possível, não existe algo como o príncipe encantado ou uma salvação além das expectativas. São mulheres, simples e comuns, que, passando pelas adversidades de seu tempo, de sua cultura e seu país, rebelam-se. Rebelam-se à medida possível, voam para um final pacífico na medida que é permitida.

Nadia Hashimi criou uma história que não só nos emociona e nos dá esperança, criou com fatos históricos, culturais e políticos uma forma de pensarmos que nossa liberdade atual também é consequência de nossa luta e nosso voo para alcançar a igualdade.

Alcançar quem somos, sem precisarmos nos mascararmos como outros.


REFERÊNCIAS

HASHIMI, Nadia. A pérola que rompeu a concha. São Paulo: Arqueiro, 2017.
NORDBERG, Jenny. As meninas ocultas de Cabul: em busca de uma resistência secreta no Afeganistão. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
<https://www.fides.org/pt/news/61352-ASIA_AFEGANISTAO_As_bacha_posh_meninas_vestidas_como_meninos_para_evitar_casamentos_precoces_com_adultos> consultado em 20/03/2018, às 12:00