RESENHA #28: UMA TOALHA, UM GUIA E NADA MAIS

11/03/2018


UMA TOALHA, UM GUIA E NADA MAIS

RESENHA #28

AUTOR: Douglas Adams
SINOPSE: Conta as aventuras espaciais do inglês Arthur Dent e de seu amigo Ford Prefect. A dupla escapa da destruição da Terra pegando carona numa nave alienígena, graças aos conhecimentos de Prefect, um E.T., que vivia disfarçado de ator desempregado enquanto fazia pesquisa de campo para a nova edição do Guia do mochileiro das galáxias, o melhor guia de viagens interplanetário.


O mundo não faz sentido, nem mesmo o universo, buscá-lo só fará você se perder e se confundir cada vez mais. Essa é a premissa dada dentro da história e é parte do tema de toda a narrativa presente em O Guia do Mochileiro das Galáxias, obra mais do que célebre do autor britânico Douglas Adams.

A primeira frase de que temos conhecimento, já presente na capa, é um pedido para que não entremos em pânico, desse momento em diante, depois de iniciar essa jornada ao lado de Arthur Dent - um humano - e Ford Perfect - um alienígena -, a sua mente explodirá com muitas informações, críticas e pitadas irônicas tanto quanto sarcásticas a respeito do mundo e de como ele funciona, sendo encenado dentro de todo o universo - ou parte dele, já que o universo é tão grande que limitá-lo ao infinito ainda não é o suficiente.

Essa obra é uma trilogia de cinco volumes, o que pode ser estranho a você, meu caro leitor, mas, a partir desse ponto, podemos perceber que Adams não se importa muito com uma estrutura e um padrão já prestigiados ou já elaborados, criando um ritmo próprio e, por vezes, tão caótico que podemos perder pedaços dele aqui ou acolá.

Devemos lembrar também, a respeito da estrutura da trilogia de cinco volumes, que há a especulação de que parte dessa trilogia de cinco volumes seria um episódio dentro da série britânica mais brilhante de todos os tempos, Doctor Who (1963), e, de fato, O Guia do Mochileiro das Galáxias seria dividido em três partes.

Ainda que não tenha sido televisionado e feito parte do repertório da BBC, nós tivemos o prazer de conhecer a sátira elaborada por Adams, a qual faz parte de toda leitura - praticamente obrigatória - do público nerd aficionado por esse gênero literário.

Não há como fugir dessa narrativa quando falamos de ficção científica, ao lado de escritores como Isaac Asimov, Douglas Adams é tido como um dos homens mais críticos, céticos e, principalmente, brilhantes da área, tendo um dia especial em homenagem ao seu livro, chamado O Dia da Toalha. Entretanto, ao contrário de Asimov, a narrativa de Adams deixa um pouco a desejar, visto que sua preocupação era explorar a sociedade e criticá-la em todos os seus aspectos, fosse o filósofo ou o político, o artista ou o matemático, a filosofia ou a sociologia, a geografia ou a biologia. Não importava quem fosse ou o que fosse, se Adams tinha algo a comentar sobre - o que ele sempre tinha -, a ideia ou a crítica ou o pensamento estaria presente dentro dessa obra tão célebre e tão comentada até na contemporaneidade.

Ao falar desses cinco livros, também encontrado em um volume único e definitivo, devemos prezar, acima de tudo, as suas críticas e a sua ironia, principalmente, quando mais nos fizer rir.

A obra é um apanhado de como não conhecemos absolutamente nada. Em uma pegada socrática, o autor nos mostra como não precisamos ficar em pânico por não saber, visto que é um processo mais do que natural. Contudo, ao contrário do Sócrates, parece-me que Adams não deseja responder as questões que faz necessariamente, mas sim fomentá-las na cabeça de seus leitores e, no fim, mostrar que nem sempre temos resposta para tudo e isso não é um problema, só nos basta o anseio de investigar (o que geralmente não fazemos). Para representar a ideia de como a humanidade funciona, o autor nos apresenta a figura de Arthur Dent, alguém que, até o final dessa jornada, não se importa e nem mesmo quer saber de tudo, pelo contrário, quanto menos souber, melhor.

Como é possível perceber, até mesmo os personagens são críticas constantes dos modelos vigentes dentro de nossa sociedade. Dentro da história, percebemos que o homem que se candidata à presidência - e serve para sê-lo - é o menos apto de todos para exercer a função, essa figura é representada - no decorrer do primeiro livro - pelo primo de Ford Perfect, Zaphod Beeblebrox. Um homem de duas cabeças, bem como de duas caras. Não é irônico como há muito disso na política? Não vamos esquecer que ele também é um ladrão e um homem procurado!

Outras figuras aparecem dentro da história e ganham bastante destaque, como Trillian, a personagem que contrapõe a humanidade de Arthur, o protagonista humano e que não quer saber de nada durante a sua jornada. Ainda que ela seja humana, antes de tudo, é uma cientista que abandona a Terra para conhecer mais do universo. Ao contrário de Arthur, ela queria sair e explorar. Logo, vemos, dentro da narrativa, uma ambiguidade humana e antagônica, daqueles que desejam saber e daqueles que não desejam saber nem que os paguem milhões de dólares.

A humanidade não é travada e única para Adams, como muitos de seus leitores alegam, mas ambígua e, a partir desses dois personagens, podemos vislumbrar o confronto desses polos paradoxais. Ainda mais, é muito interessante como Adams coloca uma personagem feminina para ser a representação do desejo de conhecimento humano e, muitas das vezes, a mais racional entre os personagens presentes.

Seja proposital ou não, o que Adams fez foi elevar a figura feminina já na década de setenta, mostrando que era um homem - em muitos aspectos além desse - revolucionário de seu tempo.

Há mais dois personagens que devem ser destacados dentro da narrativa. O primeiro é Ford Perfect. Ele é o alienígena que arrasta Arthur Dent - e, por um acaso, nós, leitores - para essa jornada, incrivelmente hábil e sortudo, carrega consigo uma toalha que possui mais funcionalidades do que se pode imaginar, aparato sem nenhum adendo tecnológico a mais além de costuras muito bem reforçadas. Além de tudo, ele mostra como o universo é totalmente avesso ao que esperamos dele. Não podemos esquecer, inclusive, que Ford Perfect é o nosso contato direto para o Guia, necessário para todo mochileiro das galáxias.

Antes de falar do último - e mais excepcional personagem, em minha humilde opinião -, precisamos falar sobre o Guia. Em uma ideia simples, o guia é um Wikipédia em formato de tablet que traz todas as informações necessárias para se viajar pelas galáxias, ou seja, por todo o universo. Embora a terra tenha ficado com somente duas palavras para representá-la, algumas das matérias presentes no guia são bem mais informativas e bem elaboradas. Outras, não tem nenhuma informação cabível ou plausível, são matérias praticamente inofensivas.

Essas matérias são feitas por mochileiros, como Ford, que são contratados pelo Guia, uma empresa, para conhecerem os lugares e escreverem sobre eles. Algumas vezes, tudo pode dar errado, como ocorre frequentemente com o personagem, com o mundo, com cada um dos presentes dentro da trama, inclusive, conosco, fora dela, se formos levar em consideração a possibilidade de universos paralelos.

O último a ser comentado, do elenco principal elaborado por Adams, é ninguém mais e ninguém menos que o Marvin. Marvin é um robô e o personagem mais complexo apresentado dentro dessa trama, visto que, ao contrário do esperado, ele é aquele que mais carrega emoções. Nós não esperamos que robôs expressem nada, Marvin não somente expressa - como expressa muito!

É um salvador, mas também um mártir. Ao contrário do que, geralmente, a ficção científica da época apresentava - a famosa e temerosa revolução tecnológica -, o que Adams faz é dar características tão marcantes ao personagem que fica claro que ele não teme a tecnologia, teme como nós usaríamos essa tecnologia. Como ficamos receosos e temerosos a cada vez que algum deles utiliza Marvin para alguma tarefa, deixando-o cada vez mais triste.

Douglas Adams é um excelente crítico e utiliza o humor irônico para alcançar tons cada vez mais lógicos e racionais, porém não diria que é um excelente escritor. A sua narrativa é cômica, mas não é tão bem trabalhada como deveria, o que faz com que muitos leitores desistam da história ou pensem menos do livro do que ele realmente é. Inclusive, de todos os cinco volumes, o quinto volume é o que mais deixa a desejar até quase o final, no qual a leitura volta a ficar tão frenética e suculenta que as páginas passam sem sequer serem percebidas.

Logo, se você gostar de uma pitada de crítica, humor e tecnologia, O Guia do Mochileiro das Galáxias é um livro feito exclusivamente para você. Entretanto, se preza a prosa antes da narrativa, talvez, você encontre dificuldades, mas acho essencial - para um pensamento a respeito do mundo e de como nossa sociedade funciona, ainda nos dias atuais - a leitura para não somente enriquecer a sua estante, mas enriquecer a sua mente com nada mais do que uma toalha e um guia.


REFERÊNCIAS

ADAMS, Douglas. O Guia do Mochileiro das Galáxias. São Paulo: Arqueiro, 2009.
_______. O restaurante no fim universo. São Paulo: Arqueiro, 2009.
_______. A Vida, o Universo e Tudo Mais. São Paulo: Arqueiro, 2009.
_______. Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes. São Paulo: Arqueiro, 2009.
_______. Praticamente Inofensiva. São Paulo: Arqueiro, 2009.