RESENHA #27: A FANTÁSTICA SOLIDÃO DA MEMÓRIA

06/03/2018


A FANTÁSTICA SOLIDÃO DA MEMÓRIA

RESENHA #27


AUTOR: Gabriel García Márquez
SINOPSE: Narra a história da família Buendía, uma estirpe de solitários que habitam a mítica aldeia de Macondo. A narrativa desenvolve-se em torno de todos os membros dessa família, com a particularidade de que todas as gerações foram acompanhadas por Úrsula, uma personagem centenária e uma matriarca conhecida.

O passado era mentira, que a memória não tinha caminhos de regresso, que toda primavera antiga era irrecuperável, e que o amor mais desatinado e tenaz não passava de uma verdade efêmera.

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

O livro de Gabriel García Márquez, conhecido como Gabo, foi uma das obras premiadas com o Nobel de Literatura, no ano de 1982. Como Ensaio sobre a Cegueira, a obra Cem anos de solidão fala sobre o homem, além das nuances da memória, da solidão e do maravilhoso dentro do que é comum.

Contudo, a história vai muito além de falar do arquétipo humano e da solidão de uma jornada sem fim, da qual não se entende o que é de fato esse final. Usando uma família inteira, Márquez cria um micro espaço para retratar o macro espaço, ou seja, a partir dos Buendía - os seus protagonistas -, ele retrata toda a América Latina, o seu povo e a jornada dos países que a constituem.

A América Latina sofreu com uma exploração sem tamanho de todos os lugares, de muitas pessoas do mundo inteiro, em diversos tempos. Na representação da cidade imaginária de Macondo, que se torna município no decorrer da história, o autor recria todas as cidades de uma vez só e o faz com uma maestria exuberante, pois, a cada passo da narrativa, encontramos uma ficção real, mesmo que cercada de elementos fantásticos.

Vemos exploração de pessoas, matança desumana, ganância e inveja; vemos um pouco de cada pecado e um espaço imenso do vazio que os homens possuem. García Márquez consegue trazer, dentro do seu enredo e de sua escrita, o que é natural dos homens.

Esse natural é uma subjetividade da realidade, fazendo com que os personagens tomem voz a cada momento e tragam para a trama algum resquício de sua solidão e de seu ponto de vista, além disso, cria uma esfera em que o impossível é uma mera e vaga concepção mundana.

Eu confesso que, embora o título esteja relacionado a sensação de solidão, e que esse conceito esteja presente durante toda a narrativa, não acredito muito que o tema central seja esse. Na minha concepção, a solidão é uma consequência dos temas importantes: da memória e do tempo.

Talvez soe um pouco louco, ou talvez não, mas Cem anos de solidão me dá a sensação de que o tempo é a ferramenta principal e a memória, toda carcomida, a secundária. Toda essa solidão apresentada na narrativa é caracterizada por esse tempo que passou e essa memória que apaga o que realmente importa.

Não é da natureza dos homens deixar o tempo passar e acumular feridas que podiam cicatrizar, mas não cicatrizam? Essa solidão, para mim, torna-se as feridas que tentam sarar e não conseguem, seja porque os ditadores e os exploradores de recursos estão constantemente tentando reabri-las ou porque o fato de esquecerem o que realmente importa - ou, ao menos, tentar - faz com que o organismo - a nossa mente, no caso - recuse-se a curar o que foi ferido ou perdido, para que não caiamos no erro outra vez.

Mesmo assim, erramos de novo. Como o autor aponta a partir das palavras de Úrsula, o tempo parece cíclico, pois o mesmo ocorre, de novo e de novo, com algumas variações sim, porém resultados iguais. Como os nomes iguais. Como as dores. Como a solidão que cerca os Buendía.

Outro aspecto interessante dentro da obra e que me chamou muito atenção foram os nomes. Confesso que os nomes sempre me chamam atenção, no entanto, na obra de Márquez, eles ganharam novos significados e muito profundos. Macondo, por exemplo, é uma árvore comum nos países da América Latina, como na Colômbia, lugar em que nasceu o escritor. O interessante é que, dentro da narrativa, se trabalha uma árvore genealógica dentro de um lugar com nome de árvore.

Como eu disse antes, a ideia de Márquez parece muito ser de um micro espaço que representa o macro espaço, como Machado de Assis também fez com Dom Casmurro. Os nomes dos personagens também vão de acordo com o que existe dentro dessa árvore gigantesca que seria a própria América Latina.

Existem mulheres fortes como ursos, representados por Úrsula; existem flores que nunca murcham e são adoradas, como Amaranta; entretanto, acredito que os nomes que mais simbolizam dentro da narrativa são os que se repetem inúmeras vezes: Aureliano e Arcádio.

Aureliano e Arcádio, além de serem nomes de imperadores romanos, mostrando o quanto o domínio desses povos se deu e afetou as populações indígenas, também são representações do que a América Latina levou para o mundo exterior e que foi surrupiado pelos colonizadores e, em seguida, pelos dominadores (os militares, principalmente, nas ditaduras): o primeiro, o ouro, com o significado de "filiado ao ouro/ filho de ouro" e o segundo, "aquele que veio da Arcádia", lugar em que os poetas se inspiraram para fazer arte.

Dessa forma, o que o primeiro levou foi a riqueza, tanto literalmente ouro quanto tudo que tomaram para si; em sequência, o que os militares fizeram foi tirar a voz, a expressão, tirando a liberdade do povo e inibindo-o de fazer poesia. Aureliano e Arcádio são as representações mais nítidas do que foi surrupiado e morto, aos poucos, mesmo que nascesse de novo.

A poesia, definitivamente, renasceu dentro da obra de Márquez e continua viva, através do realismo mágico, estética literária que miscigena o fantástico com o real, e das pessoas que leem Cem anos de solidão.

Ler essa obra também é compartilhar a nossa solidão.


REFERÊNCIAS

MÁRQUEZ, Gabriel García, Cem anos de Solidão. Tradução de Eric Nepomuceno. 82ª edição. Rio de Janeiro: Record,2014.