RESENHA #26: PUNK & VIOLINO

24/02/2018


PUNK & VIOLINO

RESENHA #26

AUTORA: Rainbow Rowell
SINOPSE: Eleanor & Park é engraçado, triste, sarcástico, sincero e, acima de tudo, geek. Os personagens que dão título ao livro são dois jovens vizinhos de dezesseis anos. Park, descendente de coreanos e apaixonado por música e quadrinhos, não chega exatamente a ser popular, mas consegue não ser incomodado pelos colegas de escola. Eleanor, ruiva, sempre vestida com roupas estranhas e "grande" (ela pensa em si própria como gorda), é a filha mais velha de uma problemática família. Os dois se encontram no ônibus escolar todos os dias. Apesar de uma certa relutância no início, começam a conversar, enquanto dividem os quadrinhos de X-Men e Watchmen. E nem a tiração de sarro dos amigos e a desaprovação da família impede que Eleanor e Park se apaixonem, ao som de The Cure e Smiths. Esta é uma história sobre o primeiro amor, sobre como ele é invariavelmente intenso e quase sempre fadado a quebrar corações. Um amor que faz você se sentir desesperado e esperançoso ao mesmo tempo. Este livro irá leva-lo de volta aos dias de frio na barriga, quando achava que todo o peso do amor e da paixão que sentia iria sufocar você, e quanto apenas um segurar de mãos já era suficiente para fazê-lo andar nas nuvens.


Eleanor & Park é um livro de timing. Pegá-lo no momento errado (ou pelo motivo errado) pode ser desastroso para a leitura. Peguemos o meu caso, por exemplo. Comprei a edição física desse livro no início de 2016, em uma promoção, e, depois de quatro capítulos, eu o larguei de lado. Simplesmente não conseguia entender como tantas pessoas amavam aquela história. Ela era tão... Igual a tudo. Dois adolescentes se apaixonam. Beleza, quem nunca viveu algo assim?

Dei um tempo. Dois, três meses. Tentei ler novamente e, mais uma vez, abandonei depois de quatro capítulos. Esse abandono se repetiu por mais duas vezes até que, dois dias atrás, eu o peguei novamente na prateleira. O motivo não foi nem tão nobre: eu ia ao médico e precisava de uma distração. Um livro com o qual eu não tivesse muito compromisso, porque, se eu me cansasse, era só largar.

Ou, pelo menos, eu pensei assim no começo. Até que eu passei do quinto capítulo.

Eu não seria hipócrita de dizer que Eleanor & Park é o tipo de livro sem defeitos que te prende da primeira à última página. Não. É o tipo de livro gradual que cresce diante dos seus olhos conforme as páginas avançam. Como uma música que começa lenta e vai ganhando corpo à medida que se faz ouvir. Como uma fita gravada por um amigo que conhece o seu gosto musical melhor do que você mesmo.

Então, você me pergunta: o que mudou tanto do início de 2016 para cá que te fez insistir até depois do quarto capítulo?

Eu percebi que o comum também pode ser extraordinário.

Esse foi o meu timing. O meu momento perfeito, que me fez perceber que não é só porque vivemos e vemos histórias de amor o tempo todo que elas não podem ser, ao mesmo tempo, comuns e extraordinárias. Entretanto, Eleanor & Park não é só feito de um comum-extraordinário. Ele é feito de aceitação, e, agora, eu estava pronta para aceitar algumas coisas que em 2016 eu não estava. E a primeira delas é que o final podia não me agradar e que tudo bem se isso acontecesse, porque alguns castelos são de fato moinhos de vento.

Se você já ouviu falar desse livro da Rainbow Rowell, também já deve ter ouvido opiniões bem conflitantes a respeito do fim do livro. Alguns amam e defendem; outros odeiam e desejam que o livro vire pó. Amar ou odiar são os riscos que você abraça ao iniciar a leitura e, em 2016, eu não estava pronta para abraçá-los. Eu não estava pronta para aceitar que um final podia não ser tão feliz, porque eu estava precisando de finais felizes. Naquela época, eu não conseguia ver que, talvez, um final não precisasse ser feliz - segundo os meus critérios, baseados no universo da Disney - para ser bom.

Acho mesmo que a melhor comparação para explicar a leitura desse livro é dizer que lê-lo é como ouvir um álbum composto pelos mais diferentes gêneros. Alguns capítulos são como ouvir música no violão, tomando sorvete, no fim de uma tarde tranquila. Outros são um show de rock lotado, daquele tipo que, por mais que você grite, ninguém nunca vai te ouvir.

Se você não estiver pronto para o álbum, não vai saber apreciar as canções.

Eleanor e Park, por si só, já são como músicas. Eleanor é punk, Park é violino. Escutá-la, em sua vida diária, é incômodo porque sua existência e suas convivências gritam conosco. Escutá-lo, com sua família, é como assistir a um concerto para violino tocado por um aprendiz: em alguns momentos, há desafinos que nos incomodam, mas é inspirador ver como a harmonia, de alguma forma, retorna.


"Ele parou de tentar trazê-la de volta"


Com essa frase, iniciamos o álbum. Começamos pela música dolorosa que nos diz que Eleanor já partiu e que, de alguma forma, Park desistiu de fazê-la voltar. Se eu pudesse escolher uma frase desse livro para tatuar em meu corpo, seria essa; porque ela é tão rica de sentidos e de sentimentos que, para mim, diz mais do que o a simples soma das sete palavras. Ela diz que parar nem sempre é desistir. Parar pode ser reconhecer. Parar pode ser amar.Park não amava menos Eleanor por desistir. Eleanor não amava menos Park por ir embora. Talvez se amassem até mais.

Mas esse é o tipo de compreensão em eu não conseguiria um ou dois anos atrás.

Se o prólogo do livro é um presságio de final, o primeiro capítulo é o início de tudo. Começar a ler sabendo que, de alguma forma, tudo entre eles já acabou, muda todo o resto da leitura, porque você já mergulha na história com a sensação de ter perdido algo que nem sequer conheceu. Das primeiras vezes em que li, eu não atentei nesse ponto. Eu não liguei que tivesse acabado, nem me perguntei por que tinha acabado. Parecia apenas outra história de amor que tinha dado errado. "Adolescentes terminam o tempo todo", eu pensei, "então por que eu deveria me importar?"

Dois dias atrás, eu me importei. E, ainda que eu não saiba dizer exatamente o motivo de ter me importado, isso fez toda a diferença. Eu vi os capítulos iniciais, que tanto havia depreciado, como momentos preciosos porque eles eram os primeiros acordes de uma música que não era mais tocada. É claro que sempre há a chance de o final não ser de fato um fim, mas tudo o que eu sabia é que tinha havido um fim em algum momento, então eu deveria apreciá-la enquanto podia ouvir.

A história é narrada através da alternância entre os pontos de vista de Park e Eleanor. No começo do livro, isso é mais marcado: cada capítulo é dedicado à perspectiva de um. Entretanto, conforme a proximidade entre eles aumenta, as perspectivas passam a se entrelaçar e a conviver dentro de um mesmo capítulo, às vezes, falando a respeito de um mesmo momento, completando um a visão do outro.

O início de tudo, ou seja, o primeiro capítulo é o momento em que Eleanor aparece pela primeira vez na vida de Park: dentro do ônibus, deslocada e diferente de tudo que ele - e, provavelmente, qualquer pessoa daquela cidade - já tinham visto. Eleanor era diferente. Não o tipo de diferente artificial que alguns livros usam para justificar porque aquela menina ou mulher se destacou em meio a tantas na vida do mocinho (até porque Park nem tinha conhecido tantas outras). Não. Eleanor era mesmo diferente: suas roupas, seu cabelo, seu tamanho, seu peso. Tudo era excessivo aos olhos de Park e, por consequência, aos nossos. Eleanor era demais, o que não era de forma alguma um elogio. Mas, conforme o tempo passa e a proximidade vai crescendo, o que antes era excesso torna-se a medida perfeita para Park. Medida, aliás, que ele sequer sabia existir.

Da mesma forma, temos a visão de Eleanor ao conhecê-lo pela primeira vez. Aos olhos dela, Park era o mestiço que a odiava. Ela não sabia se ele era como os outros estudantes - provavelmente não, já que a ajudara -, mas, ainda assim, ele tinha sido rude e, por isso, não parecia território seguro. Entretanto, Park era esperto e... Lia quadrinhos. Quadrinhos aos quais Eleanor jamais tivera acesso e que, espiando de canto de olho, começa a ler. Quando Park começa a incentivá-la e a interagir de verdade com a menina, ele também se transforma. Não é mais o mestiço rude, mas o mestiço idiota e lindo.

Antes que se dessem conta, tornaram-se um do outro.

Park da Eleanor. Eleanor do Park.

E, ao redor deles, o mundo.

Eleanor & Park é um livro de amor sim, mas é também um livro sobre amar. Sobre perder, ceder e ser covarde às vezes, porque não somos super-heróis. Sobre ter dificuldade todos os dias e ter de superá-las uma a uma; ou apenas ignorá-las, já que nem todas as vezes temos respostas para tudo. É uma história sobre saber dar "adeus" e "olá" em mais de um momento. Sobre superar, quando possível, ou apenas saber viver apesar das coisas, ainda que não as superemos. Ele conta não só a história de um casal, como a de dois adolescentes crescendo em contextos familiares completamente diferentes. Fala de preconceito, racismo, crueldade - mas também de aceitação, amor e carinho. Tudo isso com uma escrita sensível.

Sobretudo, ele é real. Tão real que, em alguns momentos, dói. Acho que, de todas as coisas com as quais eu ainda não estava pronta para lidar em 2016, a crueza da vida que aparece no livro era a principal delas. O mais irônico é que, naquela época, eu sequer sabia que a veria em Eleanor & Park. Talvez o livro tenha encontrado seu timing para mim, e não o contrário. Ou, quem sabe, ambos. O que importa é que, dois dias atrás, eu estava pronta para entender que a vida não é feita de todas as respostas que queremos. Que as pessoas têm atitudes egoístas às vezes, elas nem sempre acertam. Que alguns vilões encontram a ruína não em heróis, mas em si mesmos, só por viverem sob a própria pele. Que as coisas têm começos e fins sem que um signifique a exclusão do outro. Sem que a finitude signifique, necessariamente, um ponto final.

Esse foi o meu timing. Não quer dizer que será o mesmo para todo mundo. Cada um sabe o seu momento perfeito de ouvir um álbum. As músicas tocam as pessoas de diferentes formas e em diferentes momentos.

O que eu posso dizer com certeza é que aceitar Eleanor & Park - e seu final - é aceitar que punk e violino fazem uma canção. Uma canção tão doce e amarga que merece não só ser ouvida, mas escutada.

Letra e melodia compondo um comum extraordinário.


REFERÊNCIA

ROWELL, R. Eleanor & Park. São Paulo: Novo Século, 2014.