RESENHA #25: ÀS VERSÕES QUE PODERÍAMOS SER

20/02/2018


ÀS VERSÕES QUE PODERÍAMOS SER

RESENHA #25

AUTOR: Blake Crouch
SINOPSE: Essas são as últimas palavras que Jason Dessen ouve antes de acordar num laboratório, preso a uma maca. Raptado por um homem mascarado, Jason é levado para uma usina abandonada e deixado inconsciente. Quando acorda, um estranho sorri para ele, dizendo: "Bem-vindo de volta, amigo." 

Neste novo mundo, Jason leva outra vida. Sua esposa não é sua esposa, seu filho nunca nasceu e, em vez de professor numa universidade mediana, ele é um gênio da física quântica que conseguiu um feito inimaginável. Algo impossível. Será que é este seu mundo, e o outro é apenas um sonho? E, se esta não for a vida que ele sempre levou, como voltar para sua família e tudo que ele conhece por realidade?


Como você define as escolhas que toma durante o decorrer da sua vida? Há escolhas que, definitivamente, parecem-lhe tão marcantes que não podem mais ser desfeitas; há outras, no entanto, que soam ínfimas em uma imensidão tão profunda quanto o céu estrelado e que, no fundo, mostram-se nada, mas ainda possuem a capacidade de ser tudo.

Alguma vez, na vida, você já se perguntou o que ocorreria se você tivesse tomado outro caminho até o shopping? Resolvesse ir à festa com seus amigos ao invés de ficar lendo um livro em casa? Essas pequenas decisões podem não parecer tão significantes à primeira vista, porém, podem ser tudo.

Jason Dessen, o protagonista do livro Matéria Escura, consegue compreender a fundo como essa ideia funciona e, ao seu lado, vamos desbravar o que a física desencadeia quando falamos sobre multiversos.

A explicação no livro é baseada em uma teoria que eu gosto de chamar "Teoria do Gato Zumbi", embora esse seja o nome que eu dei para ela na época em que a conheci, quando uma amiga e meu irmão tentavam me explicar a ideia dela após terem uma aula sobre no mestrado. Ela me parece cada vez mais viral na literatura, utilizada até mesmo nos quadrinhos da DC Comics.

Conhecida como Gato de Schrödinger - o que o nome gato zumbi transforma-a em uma ideia bem mais simples na minha cabeça - é uma experiência imaginária feita em 1935, por um físico austríaco que tentava desbancar a interpretação de Copenhague. O experimento era até bem simples: colocar um gato preso em uma caixa - cujo interior não poderia ser visto - e, no lugar em que o animal estava, junto a ele, teria um frasco de veneno que poderia ser quebrado a qualquer momento e espalhado por toda a caixa.

Obviamente, existia um mecanismo para controlar se o frasco seria quebrado ou não. A ideia seria que, se o frasco quebrasse, o veneno mataria o gato, porém, o frasco poderia também não quebrar e o felino permanecer vivo. Sem um observador para comprovar se ele vivia ou não, o animal poderia estar tanto vivo quanto morto dentro da caixa, ou seja, o gato é - nessa lógica - um morto-vivo porque não se sabe qual condição ele se encontra e nem podemos dizer com precisão sobre.

Mas o que o gato zumbi tem a ver com os multiversos? Pois bem, os multiversos são como uma gama infinita de possibilidades de tudo que existe no mundo, ou seja, nosso mundo é somente uma das possibilidades que existem. Lembra-se da festa que eu falei antes? Que você deixou de ir porque queria ler? Então, em um dos universos que coexistem com o nosso, você foi a essa festa: num deles, você se divertiu; no outro, foi horrível; em mais um, você pode ter até encontrado o amor de sua vida. O multiverso é a ideia de que cada ação sua gera uma reação no mundo e, essa reação tende a mudar tudo que ocorre em sua vida.

Logo, nessa lógica do multiverso, cada ação que ocorre e sobre a qual eu tomo uma decisão, bifurca-se em mundos nos quais tomei medidas diferentes para resolver a situação em que eu me encontrava. Sendo assim, junto com os multiversos, eu me torno múltipla.

Todas essas explicações físicas são extremamente necessárias para entender o que se passa em Matéria Escura, livro escrito por Black Crouch, que conta com bases científicas e de estudos sobre física quântica para existir. A ideia do livro é muito bem elaborada e, principalmente, muito bem fundamentada, pois se passa em um lugar que se torna múltiplo, trazendo toda a ideia e todas as possibilidades que o multiverso pode trazer sem se perder no processo.

O princípio do livro pode nos dar algumas interpretações diferentes a respeito do que está ocorrendo naquele cenário e com Jason, o que tornaria tudo o que foi comentado até aqui um spoiler, contudo, já nos primeiros capítulos, a ideia de multiverso é tão palpável que sou incapaz de considerar como uma informação dada e que estraga a experiência da surpresa. O próprio experimento inicial do personagem, já comentado nos primeiros capítulos, é uma das maiores provas a respeito disso.

Embora a ideia da física quântica seja extremamente bem fundamentada e tudo seja muito bem amarrado, o que faz desse livro especial é a simplicidade com que os fatos são narrados. Tudo pode parecer muito confuso se o indivíduo não está acostumado com a ideia de tempo, no entanto, a narrativa é tão simples que, acredito eu, tudo vá se desmistificando de maneira muito gradual durante o livro, o que faz a narrativa e a complexidade serem opostos complementares para o leitor ávido por explicações.

Outro fator que me chamou muita atenção no livro é a narração no presente; existem livros que são narrados assim a esmo, por escolha do autor, porém, eu não considero que, em Matéria Escura, a escolha tenha sido por acaso. A ideia de trabalhar a noção do eu, como indivíduo e como sujeito, constantemente, durante o enredo, encaixa completamente com a presentificação do personagem.

O personagem usa o presente para falar porque ele tem a necessidade da presença de si mesmo, ou seja, do que ele identifica como e com quem ele é. Pode parecer estranho, mas não é. Durante as páginas, podemos vislumbrar um personagem que é multifacetado - e se reconhece dessa maneira -, logo, essas facetas preenchem também as lacunas de quem ele poderia ser e não foi; de quem ele é e daquele que podia não ter sido.

Falando de Jason Dessen, é impossível não comentar sobre a estrutura utilizada para montar o personagem. Ele é cheio de defeitos, principalmente, medroso, no entanto, também possui qualidades formidáveis como a sua engenhosidade. Como um bom cientista fracassado, questiona-se o que poderia ter sido feito diferente, o que seria de sua vida se não tivesse optado por construir uma família. Como um homem feliz por ter sua esposa e seu filho, agradece todos os dias por tomar a decisão que parece ser o ápice de sua existência.


Sem todos os acessórios de personalidade e estilo de vida, quais são os componentes fundamentais que me fazem ser quem sou?


Entretanto, não podemos negar a humanidade de nos questionar sobre nossas escolhas, como também é humano carregarmos conosco qualidades e defeitos, termos medo e travarmos na hora de desespero. Diversas facetas do personagem se mostram tão palpáveis que foi muito difícil não sentir empatia por ele; na verdade, eu achei impossível, porque todas as suas questões martelam dentro de mim, como provavelmente martelam em todos nós.

Além disso, as próprias facetas do personagem se demonstram em outros que são - literalmente - ele mesmo, investigando mais a fundo para descobrir como voltar para o que chama de lar. Dessa forma, definir "quem se é" torna-se uma das questões mais acertadas e mais contínuas da narrativa porque estamos falando de alguém que confronta a si mesmo.

Tanto é que, dentro da literatura, até mesmo a nacional, podemos encontrar a ideia central do livro: o que seríamos se não fossemos o que somos? Um exemplo muito famoso é o poema Pneumotórax, escrito por Manuel Bandeira. O poeta, nesse escrito, expõe a sua ferida de ter sempre tido problemas de saúde que o impossibilitaram de muitas coisas que poderia ter feito, mas não fez. A ideia de algo que pode acontecer, mas não aconteceu vaga constantemente em nossa mente porque, antes de tudo, temos esperança.

Embora a narrativa de Crouch trabalhe um viés mais científico e muito mais aprofundado, não podemos negar que esses pensamentos são cotidianos, profundos e sempre esperam algo, alguma coisa boa e intensa.

O livro Matéria Escura, sem sombra de dúvida, trabalha intrinsecamente os medos dos homens; as esperanças que possuem; o que faz com que sejamos diferentes dos demais que nos cercam; e miscigena tudo na possibilidade dos multiversos, fazendo com que tudo que podemos ser esteja presente.

Não há escapatória quando você é o próprio vilão de sua história, ou melhor, quando as versões que poderíamos ser são as mesmas pessoas que não nos querem ver nem de perto.


Estamos apenas vagando através de tundra de nossa existência, atribuindo valor ao inútil, quando tudo que amamos e odiamos, tudo em que acreditamos e pelo que lutamos, matamos e morremos é tão sem sentido quanto imagens projetadas sobre acrílico.
BLAKE CROUCH


REFERÊNCIAS

CROUCH, Blake. Matéria Escura. Tradução Alexandre Raposo. 1ª ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.