RESENHA #24: O HUMANISTA DENTRO DA SENTINELA

16/02/2018


O HUMANISTA DENTRO DA SENTINELA

RESENHA #24


AUTOR: Nikolai Leskov
SINOPSE: Uma sentinela, soldado do regimento Izmáilov, de sobrenome Póstnikov, durante o seu turno junto à entrada Iordánskaia do palávio, ouviu que, no espaço degelado do Nievá à sua frente, se afogava uma pessoa, que gritava desesperadamente por socorro.


Existem autores que nos marcam; alguns pela narração que apresentam em seus textos, outros por criarem histórias fascinantes. Nikolai Leskov, sem sombra de dúvida, encontra-se na primeira opção - muito embora as suas tramas também sejam extremamente interessantes, tanto as que possuem finais felizes e agradáveis quanto as que contêm conclusões desagradáveis e irritantes.

O conto A sentinela é uma das narrativas do autor que marcam o leitor com ferro, fogo e muito raiva, principalmente, porque vivemos em um contexto social muito diferente, se levarmos em conta que o público é humanista. Esse é um termo constante nesse conto, pois o fato de você se importar com o próximo faz com que você seja visto de maneira, à certo modo, negativa.

Pois é, acaba soando muito estranho para nós, acostumados com tramas em que o personagem principal é um exímio cavaleiro, que não pensa duas vezes em salvar vivalma, e é glorificado por isso. No conto A sentinela, o mundo não funciona bem do jeito que estamos habituados e, por conta disso, torna-se irritante, estressante e incômodo.

Mas, mesmo assim, é uma sensação muito boa. Leskov consegue criar um enredo que, literalmente, comove-nos. O maior dom de um narrador é fazer com que o seu público simplesmente sinta - e definitivamente nós sentimos na pele o prazer e a raiva, a agitação e a fúria; tudo que a vida pode nos proporcionar.

Quem conhece Leskov sabe muito bem que o autor é considerado o narrador por excelência por um dos críticos mais lidos na academia, Walter Benjamin, que faz praticamente uma ode em formato de livro científico, pontuando diversos pontos da obra do escritor e porquê deve ser considerado o melhor.

Obviamente, a comoção é um dos pontos mais fortes da história em questão. O protagonista é Póstnikov, um soldado e filho de servos da gleba, que, em meio ao seu turno de vigília da entrada Iordánskaia do palácio, ouviu alguém gritando desesperadamente por socorro, pois estava prestes a morrer afogado.

O ponto principal é que ele não podia sair, pois se o fizesse, seria punido com a morte. Nem mesmo para salvar a vida de alguém, ele poderia sair de lá; no entanto, mesmo sabendo do risco que corria, ele sai para salvar a vida do indivíduo.

O personagem hesita a princípio, rezando para que o possível moribundo calasse a boca, porém; isso não ocorre e ele acaba se rendendo a bondade que havia em seu coração. Esse aspecto bondoso - das "pequenas grandes pessoas" que não são nomeadas dentro da História, mas fazem diferença - é uma das marcas das personagens de Leskov, como menciona Benjamin:


Embora ocasionalmente se interessasse pelo maravilhoso, em questões de piedade preferia uma atitude solidamente natural. Seu ideal é o homem que aceita o mundo sem se prender demasiadamente a ele. Seu comportamento em questões temporais correspondia a essa atitude.


O crítico também acrescenta que a sentinela, no caso, Póstnikov, como outras figuras que aparecem nas narrativas de Leskov, são a encarnação da "sabedoria, da bondade e do consolo do mundo", justamente porque fazem parte de um seleto grupo de indivíduos que se importam com os demais.

Embora tenhamos o estereótipo de bom moço na trama, o que se desenvolve à volta foge e muito do que estamos habituados, pois, como principia o conto, somente na Rússia que aquilo poderia acontecer, de alguém enfrentar um risco de morte por deixar seu posto para salvar outra pessoa.

A situação soa absurda, porém, acredito eu, seja a ideia principal e proposital do conto, que tenta nos causar choque. Leskov era um exímio crítico, ainda mais quando se tratava do governo de seu país; dessa forma, vemos no conto do autor o que ele propriamente enxergava do lugar em que vivia.

Outro fator interessante a acrescentar a respeito do conto é como existe uma dupla rede. De tal forma que há a sentinela; também há o charlatão - que toma seus créditos, mas não suas dores. O homem que diz ter salvado outro ganha uma medalha; enquanto o nosso guerreiro de coração nobre é preso.

A partir daí, há todo um desenrolar do conto que nos faz questionar quem de fato triunfa na sociedade. Um ponto que faz com que a história de Leskov soe muito crua e também verídica.

Essa veracidade aparece em alguns momentos do conto e dá à narrativa algo a mais. Como é o caso de como ele é iniciado. O autor começa a trama tentando nos convencer que foi algo que ele realmente ouviu e de lá nada falso viria à luz.


De invenção, no relato entrante, não há nem um tiquinho.


Além de o narrador ouvir o relato, outros - durante o desenvolvimento - também o fazem e modificam as informações, trazendo a sensação de telefone sem fio. Essa noção de cada conto aumenta um ponto deve ser sempre enfatizada, pois traz concretude ao trabalho que está sendo feito e, a partir de Nikolai Leskov, muito bem executado.

Ler A sentinela é entender emoções que ultrapassam o comum, observar a humanidade e suas facetas como também é ver - de camarote - o exímio narrador que existe nessa figura tão incrível e peculiar.

No mundo, as pessoas pegam muita coisa de modo extremamente leviano e "dão à língua", mas quem vive nos mosteiros e nos palácios de prelado encara tudo dum jeito muito mais sério e conhece a verdadeira essência dos assuntos mundanos.
NIKOLAI LESKOV


REFERÊNCIAS

BENJAMIN, Walter. O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
LESKOV, Nikolai. Homens interessantes e outras histórias. Tradução, posfácio e notas de Noé Oliveira Policarpo Polli. 2ª edição. São Paulo: Editora 34, 2014.