RESENHA #23: O FANTÁSTICO MUNDO EM QUE VIVEMOS

08/02/2018


O FANTÁSTICO MUNDO EM QUE VIVEMOS

RESENHA #23


AUTOR: Jules Verne
SINOPSE: Em 1863 o renomado professor Otto Lidenbrock, geólogo e mineralogista, descobre uma mensagem cifrada descrevendo uma viagem ao centro da Terra. É o quanto basta para o impetuoso cientista se lançar na mesma aventura - levando consigo o sobrinho Axel, colega de profissão mas defensor de diferentes teorias científicas, e o impassível Hans, guia que se mostrará indispensável para a empreitada e seu espantoso desfecho!


A ciência, meu jovem, é feita de erros, mas erros que devem ser cometidos, pois pouco a pouco conduzem à verdade.

JULES VERNE

O que é a verdade? Existe algo concreto em tudo que vemos, sentimos, lemos e apreciamos? Dependendo da obra, dependendo do autor, estamos cercados por pontos de vistas e expectativas o suficiente para podermos duvidar de tudo.

Teorias maravilhosas de grandes estudiosos surgem o tempo todo e, algumas delas permanecem, como é o caso do Big Bang - de que muitos cientistas discordam e com a qual muitos outros concordam. Então, não é de se estranhar que, em uma obra de ficção científica, exista algo no centro da terra. Quando digo algo, quero dizer além de lava vulcânica.

Para nós, na contemporaneidade, soa um tanto absurdo, porém, para a mente imaginativa de Jules Verne e para as pessoas que pouco sabiam sobre o centro da terra no século XIX, não. Ao contrário, soa muito plausível.

Para pessoas leigas em geografia, como é o meu caso, as justificativas científicas - ainda que algumas tenham sido bem estranhas ao meu ver - soavam, certas vezes, bem plausíveis, ainda mais vistas a partir da perspectiva de um cético, Axel, que a todo tempo questionava e recebia a sua pergunta refutada com uma fonte científica de um autor existente - muita das vezes - e através do mundo que se abria diante dele.

A história de Verne é sobre uma viagem, mas não uma aventura qualquer e sim, um passeio pelo centro da terra - como, em certo momento, Axel afirma que é, visto que seu tio parecia calmo e despojado - com dois cientistas e um caçador.

O mentor da jornada é o professor Otto Lidenbrock, um especialista e poliglota que encontra um livro raro em um sebo e, com a ajuda de seu sobrinho e narrador da história, Axel, percebe que trata sobre como chegar ao centro da terra. Sem perder tempo, o grande estudioso embarca em uma aventura que, por muitas razões, é constantemente questionada por seu sobrinho.

Toda a aventura e todas as adversidades enfrentadas pelos personagens são trazidas ao nosso conhecimento a partir de descrições muito precisas. Verne, no decorrer do livro, incrivelmente, mostra-nos cenários exuberantes da Islândia e de outras localidades; explica-nos sobre minérios e fundamentações geológicas; também não deixa de citar até mesmo as provisões que Axel, Otto e Hans carregam consigo para que o objetivo seja cumprido.

Uma das características mais marcantes da obra, inclusive do autor, é o seu detalhismo que, por vezes, pode parecer cansativo, contudo, em um contexto geral, é extremamente gratificante porque tudo se torna tão exemplificado e bem estruturado que a veracidade do texto, ainda que questionável, também é plausível.

Existe na obra de Verne uma dualidade insistente que nos arremata constantemente, a realidade e a ficção se cruzam em um campo amplo e, ao mesmo tempo, estreito. Essa amplitude é uma característica do gênero da ficção científica, do qual Verne é considerado genitor, visto que essa ficção inventiva, aos poucos, estende-se e alcança a realidade cotidiana. Existem vários exemplos dentro das narrativas do autor que são capazes de dar legitimidade a esse argumento, como a ida à Lua ou os submarinos que alcançam o fundo do mar.

Muito antes de vivermos essas experiências no dia-a-dia, vivemos muitas delas dentro da ficção. Contudo, ainda é um caminho estreito, porque nós precisamos percorrê-lo para alcançá-lo e, diversas vezes, não é fácil.

Nem mesmo nos enredos criados pelo autor as aventuras são fáceis. Em Viagem ao centro da Terra não é diferente. Em muitos pontos da narrativa, vemos o protagonista - literalmente, em certas etapas - empacar. A sua mente está muito focada na falha; enquanto, a mente de seu tio, em conseguir e conquistar.

Essa é uma das dualidades que percorre a narrativa. O ceticismo constante, por vezes, torna-se o empecilho de continuar a aventura que tanto ansiamos em conhecer, porém, a partir desse ponto de vista, é que vemos as diversas barreiras que nossa mente criou para nos impedir de acreditar em tudo aquilo e abrir as portas àquela ficção. Quanto mais Axel questiona e quanto mais vezes ele é refutado, mais nos convencemos de tudo aquilo - essa jogada do autor é uma das sacadas mais brilhantes da história, em minha opinião - porque as explicações científicas, para leigos, nesses momentos de refutar, aprovam a "eficácia da viagem".

Embora ela tenha servido muito mais para as pessoas contemporâneas do seu tempo, eu acredito que ela ainda tenha as suas serventias, mesmo que menos eficazes. Entretanto, vale ressaltar que, mesmo depois de todo o ocorrido, Axel ainda duvida - o que mostra quanto o personagem, ao contrário de seu tio, tem seus pés fixos no chão - e parece ser uma opinião, possivelmente, compartilhada por Verne ou algum amigo do escritor.

Outro ponto que a narrativa abarca e que me parece muito conectado com o escritor é a imensa vontade acima dos percalços. O fato do professor Lidenbrock não desistir de sua viagem, ainda que tudo pareça estar a ponto de dar errado, mostra-nos muito de Verne como também de sua filosofia de não desistir.


Enquanto o coração bater, enquanto as veias pulsarem é inadmissível um ser dotado de vontade se entregar ao desespero.


Mesmo sendo um personagem conhecido por seu conhecimento científico e de mundo, o tio do narrador é alguém que parece ter uma inabalável fé nos acontecimentos que ocorrem - o que parece até contrastar um pouco com a sua posição. Ele, como mentor, deveria ser o cético e não, o sobrinho. No entanto, os papéis são trocados e vemos o jovem questionando o mundo e o mais velho acreditando na magia que existe nele.

Com personalidades muito fortes, os dois personagens, que entram em embate diversas vezes, ganham marcas profundas na história. Cada um com sua convicção e sua forma de ver a ciência, a cada passo dado, confrontam-se em busca da verdade que, a partir do pensamento do tio, sempre vem de um erro ou até de múltiplos erros.

Entretanto, esses dois não são os únicos personagens a ter muito destaque na trama, embora sejam as principais mentes que bolam e se embolam durante o desenvolvimento do enredo. O outro personagem que, na minha concepção, também o que mais chama atenção, é Hans.

Hans é um homem de cidade pequena e caçador, seus hábitos são muito silenciosos. Na perspectiva de Axel, a qual conhecemos, pouco fala, pouco se movimenta, mas muito faz. Pode ser que seja assim também pelo fato de Axel desconhecer dinamarquês, a língua que o outro fala, o que traz mais um ponto positivo a obra e sua veracidade. O fato dos dois não conversarem e existir um impedimento linguístico é algo que muitos autores esquecem que pode ocorrer na hora de criar e desenvolver as suas histórias.

De toda forma, essa perspectiva pode ser tanto a correta sobre o personagem caçador quanto não, contudo, pelo que nos é apresentado, vemos um homem extremamente habilidoso e capaz que salva inúmeras vezes a vida dos pesquisadores.

Aqui, devo admitir, há mais um fator positivo e muito bem explorado no decorrer da história: a terceira dualidade apresentada é a dualidade de conhecimentos. O mundo científico é prestigiado e o seu conhecimento passado para todos como se fosse o melhor do que todos os outros, no entanto, Verne mostra que não: todo conhecimento é válido, nenhum é menor do que o outro, seja acadêmico ou por experiência de vida.

O que vemos na contemporaneidade é um apagamento de conhecimentos e experiências de vida em detrimento a um cientificismo. Contudo, a ciência não é a melhor resposta necessariamente e nem mesmo sempre é a correta. Como afirma tanto Axel quanto Otto, sem Hans, os dois não teriam sobrevivido - e essa é uma das realidades inegáveis da história.

Há muito na obra de Verne a ser conflitado, questionado e pensado: desde os conhecimentos científicos à estrutura da narrativa apresentada; dos percalços e dificuldades dos personagens até os detalhes bem descritos e esquematizados.

No entanto, mesmo assim, o que mais me soa interessante de prestarmos a devida atenção, ainda mais quando paramos para pensar nessa obra, é a lição que podemos retirar dela:

Não desistir de seus sonhos, possivelmente, fará com que você os alcance e se torne mais do que poderia imaginar a priori; acredito que esse seja um dos ensinamentos mais preciosos dentro dessa narrativa que conquistou corações desde a sua publicação e continua a conquistar até mesmo nos dias atuais, pois é impossível negar a criatividade e a genialidade das quais Verne lambuza as suas histórias.  


REFERÊNCIAS

VERNE, Jules. Viagem ao centro da Terra. Tradução de Jorge Bastos. 1ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.