RESENHA #22: O SILÊNCIO RUBRO CONTRA O PODER NEGRO

06/02/2018


O SILÊNCIO RUBRO CONTRA O PODER NEGRO

RESENHA #22

AUTOR: Felipe Furtado
SINOPSE: A última região habitada do mundo, Untherak, é povoada por humanos, anões e gigantes, sinfos, kaorshs e gnolls. Nela, a deusa Una reina soberana, lembrando a todos a missão maior de suas vidas: servir a Ela sem questionamentos. No entanto, um pequeno grupo de rebeldes, liderado por uma figura misteriosa, está disposto a tudo para tirá-la do trono. 
Com essa fagulha de esperança, mais indivíduos se unem à causa e mostram a Una que seus dias talvez estejam contados. Um grupo instável e heterogêneo que precisará resolver suas diferenças a fim não só de desvendar os segredos de Untherak, mas também enfrentar seu mais terrível guardião, o General Proghon, e preparar-se para a possibilidade de um futuro totalmente desconhecido. Se uma deusa cai, o que vem depois?

Alguns infernos duram mil anos; outros, um dia. 
Mas nenhum é melhor que outro.

FELIPE CASTILHO

Entre os cânones da literatura, encontramos diversos autores que, a partir de suas obras, observam como o governo é inserido na sociedade e, dessa forma, criticam-no, relativizam-no e - principalmente - questionam-no. Vivemos em um tempo em que o governo brasileiro é um caos e nós estamos perdidos entre a liberdade de sermos quem somos e as opressões passadas que continuam marcadas a fogo e ferro nas crenças populares.

Dizer que o livro escrito por Felipe Castilho e elaborado por companheiros seus é um produto do meio em que vivemos, pareceu-me muito óbvio enquanto eu lia cada palavra dessa obra que, em muitas formas, consegue me lembrar os livros de alta fantasia que são aclamados pelo público e também os cânones que constantemente desafiam os governos.

Um dos meus livros contemporâneos de fantasia preferidos é The Name of The Wind (em português, O Nome do Vento), sendo, entre tantas as escolhas que podemos fazer para herdeiros das narrativas tolkianas, a que eu sublinho e indico como uma das principais. Ordem Vermelha me passou a exata sensação que uma das minhas obras preferidas me passou.

Não somente porque é extremamente bem estruturado, mas por elementos narrativos que são muito parecidos, inclusive, a chama azul. Contudo, o que mais me lembrou a história de Patrick Rothfuss foi a forma com que o Felipe Castilho resolveu organizar a sua história.

A narrativa começa - após apresentar a mitologia daquele universo - em um futuro que, aos poucos, vai explorando o passado. Rothfuss faz exatamente isso, trazendo muitas expectativas para o leitor sobre como tudo vai acontecer e como tudo vai chegar àquele ponto já apresentado previamente. Embora no início da trama isso não prenda tanto o leitor - porque ele ainda não foi cativado pelos personagens em questão -, no final, torna-se uma jogada de mestre.

Nós terminamos o livro ansiosos e ansiando por mais e, definitivamente, é uma das grandes - e eu também diria arriscadas - jogadas desse projeto literário. Entretanto, existem muitas jogadas excepcionais que ele abarca, como, por exemplo, a forma com que o mundo se organiza e a forma como o governo se forma e explora o povo.

Quando eu comecei essa resenha atribuindo Ordem Vermelha à coletânea de livros de alta fantasia, eu também o acrescentei a outra ordem: os livros canônicos que debatem política. Inegavelmente, a estrutura elaborada por Felipe Castilho se assemelha - e muito - à infraestrutura que já encontramos no passado, no presente e até possivelmente no futuro brasileiro. Seja por pretensão dos envolvidos ou não, eu não consegui deixar de pensar em nossa ditadura; em épocas mais longínquas, na qual havia servidão e escravos; e até mesmo na contemporaneidade que miscigena política e religião.


Minha querida kaorsh, é por isso que se chama semiliberdade. A liberdade total não existe! Você gasta uma fortuna para vir para o lado de fora, mas, se Una quiser convocá-la para uma nova guerra contra o pecado e a ingratidão, você vai atender.


Ainda que tenhamos todos os livros de história dispostos a nossa mercê, continuamos cometendo erros que - por ignorância ou desejo de poder - não deveríamos. O enredo de Castilho, e seus companheiros, rememora-nos o quanto é importante desassociar religião e política. Quando somos movidos por uma fé cega, sem pensarmos em como todas as pessoas deveriam viver em sociedade de maneira justa, acabamos por rebaixar e denegrir os indivíduos que não concordam com nossos ideais, dessa forma, a mistura dentro dessa receita é fadada ao caos.

Além de vivermos isso dentro do cenário político brasileiro contemporâneo, as páginas de Ordem Vermelha mostram o extremo dessa situação, pois sempre são fundamentadas em base de poder e não de verdadeira crença religiosa.

De forma a manter todos na linha e seguindo um padrão estabelecido, a crença em Una - a deusa única - faz com que não haja rebelião, não haja revolta em Untherak, os limites dominados por Ela, mesmo que a situação de todos os indivíduos esteja precária e, a maioria, tenha se tornado escrava. Embora sejam muitos, nenhum deles luta por medo de uma punição divina.

Toda a trama, em uma distopia fantástica, acaba se tornando a busca por liberdade dessas crenças populares e, inclusive, o desejo de reerguer um povo que já não levanta mais a cabeça com orgulho e nem possui alegria. Esse ensejo, feito pela cor proibida na história, o vermelho, é um dos pontos mais altos do enredo; que faz com que uma luta entre o rubro e o negro da Mácula - um líquido viscoso e preto que amedronta a todos e os atormenta como a arma primária dessa repressão - ocorra.

O povo retratado entristecido e sem liberdade é também um povo, de inúmeras maneiras - que embora tenha louvores religiosos - extremamente corrupto; o que faz dessa narrativa uma analogia ideal ao cenário político brasileiro, com seus encarregados subornando uns aos outros e contrabandeando carvão, a droga que domina o mundo criado por Castilho e seus amigos.

Entre a política trabalhada na história e a excelente narrativa de Felipe Castilho, há diversos outros detalhes positivos. As descrições dos lugares e das batalhas são muito bem formuladas, sem serem cansativas e exageradamente descritivas. A medida certa é o ponto em que Felipe trabalha, pois não somente a construção arquitetônica, mas os diálogos possuem a comédia e o peso comedidos - o que é um acerto e tanto quando se narra uma história.

Outro fator que me chamou muito a atenção, e que também me lembrou muito o livro de Rothfuss, foi como as histórias se desenvolviam na população comum e fora do núcleo principal e como de fato ocorriam. A ideia de um telefone sem fio pareceu extremamente palpável, plausível e bem utilizada, recordando-me muito de como uma coisa ocorre e como ela é narrada pelas pessoas que, a cada ponto, aumentam o conto. Entretanto, algo que - pessoalmente - eu acharia que poderia ser feito é utilizar esse recurso como uma arma, algo que também não ocorreu na história, com exceção de um momento, porém de pequeno porte.

Outro aspecto que me interessou bastante e que, embora tenha sido explorado, poderia ser mais, foi como a manipulação da escrita e da leitura afetavam todo aquele lugar. Nós temos certa ideia disso no decorrer das páginas do livro, porém acredito que teria sido ainda melhor se pudéssemos ter visto mais da escrita, pois tenho certeza que ela seria mais afiada do que uma espada se tivesse sido extrapolada.

Também coexiste na obra de Castilho uma forte representatividade, não somente das minorias que conhecemos, mas também das que vamos conhecer no decorrer do livro. Um exemplo fortíssimo dessa conexão com nossa realidade e que é uma imensa representatividade é o estilo de dança dos sinfos - uma espécie de fadas ou ninfas da floresta -, a kaita, que me recorda muitíssimo a capoeira; outra questão que pode ser englobada é o apagamento cultural da raça dominada, algo que ocorreu em todos os países que foram comandos por outros e por pessoas que foram retiradas de suas terras e trazidas como escravas; o mesmo aconteceu, respectivamente, com os índios que foram catequizados e com os escravos negros arrastados e retirados de onde viviam, sem desejarem isso, para trabalhar sem nada receberem em troca, no Brasil.

O apagamento de uma cultura é como o apagamento de uma identidade, uma das formas de castração mais conhecidas é um dos recursos utilizados nessa trama que, magistralmente, faz um excelente trabalho tanto nesse campo como no que, em parte, retrata a comunidade LGBTQ+. Existem dois casais homossexuais dentro da trama, Raazi e Yanisha - uma das protagonistas e sua esposa -; e os pais de Aelian, Pan e Aenoch. Contudo, embora - por alto - tenha sido comentado que existe certo preconceito com lésbicas, não é comentado mais a fundo como isso é tratado quando são homens gays, ainda mais após sabermos da adoção de Aelian, o que nos traz ainda mais dúvidas de como o sistema funciona para esses casais e também para as crianças órfãs - e se existe uma diferença de tratamento entre lésbicas e gays, sendo esses alguns pontos que seriam interessantes vermos sendo trabalhados e como isso poderia, de alguma forma, afetar os personagens.

Pequenos detalhes aqui e acolá, alguns maiores que outros, ficaram extremamente em aberto, o que me fez ficar ansiosa pela continuação, mas também perceber que alguns personagens poderiam ser melhor aproveitados no decorrer da jornada que existe nestas páginas, seus passados ainda mais explorados e, dessa forma, tornando-os mais bem desenvolvidos.

Alguns personagens me passaram a sensação de estarem ali como meras ferramentas narrativas - algo que até os escravos do Poleiro, em suas breves passagens, não me pareceram (falando, obviamente, do núcleo principal). Outros, que são importantes e interessantes na trama, padecem e, por conta disso, parece que ficaremos sem saber o que ocorria na relação que eles tinham com outros personagens e também o que escondiam atrás do que eram.

Essas lacunas podem tanto ser preenchidas quanto não, porém, acredito que algumas delas tenham perdido o timing durante o decorrer do enredo e, por conta disso, podem soar estranhas na construção narrativa se elas forem alocadas mais a frente. Outras, contudo, parecem-me que em breve podemos descobrir, como, por exemplo, o funcionamento da Mácula, que ainda não está muito nítido; passados misteriosos como o de Venoma e até mesmo alguns cenários, no caso, a Degradação e o que lá se esconde.

Entre os livros nacionais de fantasia que pude vislumbrar, Ordem Vermelha não é somente surpreendente, mas também uma das histórias que mais me intrigaram para saber a continuação e como tudo irá se desenrolar. Enquanto isso, continuarei me questionando o que me fisgou dentro do conjunto apresentado: a narrativa muito bem elaborada? A trama política bem desenvolvida e que eu aguardava há muito tempo em um livro do gênero? O desenvolvimento lento e gradual de uma rebelião como diversos livros deveriam fazer? Os personagens e suas histórias ainda ocultas? O futuro que parece muito distante do passado? Essas são questões que somente o silêncio rubro contra o poder negro poderá me responder. 


REFERÊNCIAS

CASTILHO, Felipe. Ordem Vermelha. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.
ROTHFUSS, Patrick. O Nome do Vento. Tradução de Vera Ribeiro. São Paulo: Editora Arqueiro, 2009.