RESENHA #21: UM MORDOMO E TANTO

24/01/2018


UM MORDOMO E TANTO

RESENHA #21


AUTORA: Yana Toboso
SINOPSE: Ciel Phantomhive é um jovem de apenas 12 anos de idade que pertencente a uma das mais nobres famílias da Inglaterra. Sebastian é um impecável mordomo que pode realizar praticamente qualquer tarefa que seu mestre ordene. Depois de perder tudo, Ciel faz um contrato com Sebastian, e juntamente com seus outros servos, trabalham para desvendar quem está por trás do assassinato dos pais de Ciel.

Se esse é o seu desejo... Seguirei seus passos seja para onde for. Mesmo que seu trono se despedace. Mesmo que sua resplandecente coroa perca o brilho e o poder... Mesmo que se formem pilhas e pilhas de corpos, eu estarei ao lado do pequeno rei. Até o momento do xeque-mate.
YANA TOBOSO

Embora tenham se passado dez anos de publicação dessa obra, o momento do xeque-mate ainda não chegou para Ciel Phantomhive, o protagonista da narrativa ao lado de seu fiel mordomo Sebastian.

Muitas pessoas já ouviram falar a respeito da obra mais aclamada da mangaká Yana Toboso, porém, poucas delas conhecem verdadeiramente a essência dessa história. O primeiro ponto é que se trata de um shounen. Shounen são narrativas criadas para atrair o público infantil masculino, retratando geralmente a temática da amizade, do companheirismo e de batalhas. Embora Kuroshitsuji possua tudo isso e até um pouco mais, a maioria dos fãs de animes e mangás desconhecem esse fato porque a obra ficou conhecida - por conta de parte de seu público imaginativo - como um shotacon.

Shotacon é uma classificação utilizada para narrativas que trabalham uma relação romântica e sexual entre um adulto e um menino. Algo que não existe, definitivamente, nessa história. Entretanto, vale ressaltar que há passagens, principalmente na animação, que fomentam esse pensamento, porém é tudo uma brincadeira da autora que já trabalhou algumas histórias yaoi. Yaoi é outra classificação e termo utilizado no universo dos animes, no caso, seria um gênero que trabalha a relação romântica e sexual entre dois homens. No entanto, deve-se deixar claro que é a relação entre dois homens adultos, e não uma criança e um adulto.

O segundo ponto que deve ser rememorado sempre pelo público e para quem deseja conhecer essa trama é que a história não é um romance. Como o próprio gênero narrativo prediz, Kuroshitsuji é um shounen, ou seja, a trama trabalha o desenvolvimento de Ciel Phantomhive e Sebastian Michaelis como duas figuras que possuem objetivos que se cruzam. O primeiro está em busca de concretizar sua vingança; e o segundo, o mordomo que dá título à trama, deseja consumir uma alma corrompida, a alma de Ciel quando tudo acabar. Logo, torna-se, na minha concepção, um tanto absurdo que alguém realmente pense nesses dois personagens juntos - romanticamente - dentro da trama.

O terceiro aspecto é que, antes de tudo, Kuroshitsuji é uma narrativa histórica, ou seja, a ideia de Yana Toboso se desenvolve totalmente na Inglaterra vitoriana, o que dá certa pompa ao seu enredo e, principalmente, aos seus desenhos e faz com que muitas pessoas já reneguem a narrativa pela quantidade de ornamentos nas vestimentas dos personagens. A maioria do público que consome este mangá é feminino, visto que muitos meninos possuem preconceito com a trama pelo que falam dela, sem sequer realmente conhecê-la.

Deixando esses três aspectos claros para o público pré-conceituoso, agora, podemos desenvolver os pensamentos a respeito da trama trabalhada em Kuroshitsuji. Kuro, em japonês, significa "negro; preto" enquanto "shitsuji" seria mordomo. Logo, o nome da trama é literalmente "mordomo negro" ou, como algumas adaptações sugeriram "mordomo sombrio". Uma clara referência a Sebastian Michaelis, o personagem mais cativante e charmoso da trama.

Sebastian é um demônio, inclusive, existe um trocadilho constante em que ele reforça isso a todo momento, porém, somente funciona em japonês. A fala do personagem, e a mais famosa do mangá - acredito -, é "eu sou apenas um mordomo e tanto". Entretanto, em japonês, há uma ambiguidade, visto que as palavras dentro de uma frase não possuem espaço.

No caso, a frase poderia ter duas separações silábicas-morfológicas "akuma de shitsuji desu kara" (悪魔で執事ですから) e "aku made shitsuji desu kara" (飽くまで執事ですから), respectivamente "eu sou apenas um mordomo que também é demônio" e "eu sou apenas um mordomo e tanto". O que poderia retirar essa ambiguidade - que não é uma proposta utilizada com frequência pela Yana Toboso - é o uso do kanji, o sistema de ideograma japonês que um símbolo representa uma palavra, porém ela opta geralmente pelo uso de hiraganas, o alfabeto silabário japonês que o símbolo representa o som, como ocorre com as nossas letras do alfabeto latino. Logo, ela geralmente recorre a essa segunda forma de representação da língua japonesa, fazendo "akumade" (あくまで) e deixando a todos na dúvida, pois - como já expliquei - não há espaçamento entre palavras na língua japonesa. Algumas vezes, porém, quando Sebastian se mostra quem é realmente, ela retira a ambiguidade e representa com o kanji mesmo em "akuma de" (悪魔で), no caso, "akuma" significa "demônio".



Esse trocadilho - e tantas outras informações na obra - muita das vezes se perdem com a tradução e esse é um grande problema, principalmente Kuroshitsuji. As traduções têm sido insuficientes - sem notas de rodapé ou informações extras em algum lugar - e, por isso, não conseguem expressar totalmente o que ocorre na narrativa. Kuroshitsuji, por exemplo, possui um plot twist - uma reviravolta no enredo - que, graças a tradução, pode passar como incongruente ou até um problema de desenvolvimento do enredo, coisa que não é verdade.

O segundo personagem central da história é ninguém menos do que o jovem Ciel Phantomhive, uma criança nobre que possui todo um legado nas costas e diversas feridas não cicatrizadas de seu passado cruel. As nomenclaturas e trocadilhos são extremamente importantes dentro de Kuroshitsuji - como já podemos perceber -, um deles é o próprio sobrenome do Ciel, que já indica muitas informações na história do personagem e na trama central do enredo (calma, não vou dar nenhum spoiler, não que você - que não acompanha a história fielmente - vá realmente entender).

Phantomhive significa, em inglês, "colmeia fantasma" e esse nome dá todo o simbolismo escuso da família desse personagem. A família Phantomhive, também conhecida como a família de cães de guarda da rainha, é praticamente uma organização que faz o trabalho sujo e limpa as ruas da Inglaterra. A cada geração, esse legado continua e, dessa vez, o trabalho ficou nas costas de Ciel que utiliza seus recursos para não somente desvendar crimes e acabar com vilões perante a coroa, mas para descobrir quem foram os culpados por destruírem sua família e a sua vida.

Sebastian é, para Ciel, somente mais um desses recursos, porém, é o seu recurso mais perigoso: tanto para seus inimigos quanto para ele mesmo. Contudo, independentemente disso, você acaba se encantando com ambos os personagens que trocam farpas psicológicas e, de certa maneira, filosóficas o tempo todo.

Existe nessa trama um desenvolvimento constante de dualidades, principalmente, quando se trata da pureza e da podridão humana; ora mencionada por Sebastian, ora mencionada por Ciel e, muitas vezes, mencionadas pelos antagonistas da narrativa, que trazem sempre uma personalidade marcante, um objetivo completamente monstruoso e que faz contraste quase que absoluto com a figura de Ciel, que não é nem um pouco santa.

O mais interessante é que, embora seja um shounen, Ciel está muito longe de ser uma figura animada, doce, burra e extrovertida, que é uma característica geral dos protagonistas do gênero desde Dragon Ball, de Akira Toriyama. Yana Toboso faz um trabalho sublime em desenvolver personagens únicos, construir roupas elegantes em seus traços sinuosos e criar lutas visualmente marcantes.

Entre todos os mangakás que eu já tive o prazer de conhecer e me aventurar em suas histórias, Yana Toboso, com a narrativa de Kuroshitsuji, para mim, sem sombra de dúvida, é a que mais se aproxima em estilo narrativo, desenvolvimento de história e de personalidade de Hiromu Arakawa, criadora de Fullmetal Alchemist. Inclusive, a noção de sacrifício e de figuras devastadas.

Além de tudo, há uma influência extremamente marcante da história e da cultura inglesa da Era Vitoriana, apresentando personagens históricos marcantes, como Arthur Conan Doyle, sua versão de Jack, o estripador e a própria rainha Vitória; cenários reais, acontecimentos verídicos, como o naufrágio do Titanic; e referências literárias, como o poema The Raven, de Edgar Allan Poe.

Obviamente, há muito mais aspectos a serem comentados a respeito de uma obra que já ultrapassou os dez anos de publicação, como a miscigenação entre magia e ciência, desenvolvimento tecnológico e literário, e até mesmo zumbis. Exatamente, zumbis. Há esgrima, demônios, lobisomens, armas fatais, venenos poderosos, arcos musicais, circos dos horrores - e tudo isso nos é apresentado bem ao lado daquele mordomo que também é demônio.

Um mordomo e tanto mesmo. 


REFERÊNCIAS

TOBOSO, Yana. Kuroshitsuji. São Paulo: Panini, 2013 - atualmente.