RESENHA #20: O TEMPO DOS DESERTOS

22/01/2018


O TEMPO DOS DESERTOS

RESENHA #21


AUTOR:
Dino Buzzati 
SINOPSE: Ao alcançar o posto de tenente, o jovem Giovanni Drogo é designado para o Forte Bastiani, o que crê ser a primeira etapa de uma carreira gloriosa. A má impressão que tem ao chegar ao isolado forte o abala. A espera pelo inimigo, que justifica a permanência do comando militar na região, transforma-se na espera por uma razão de viver, na renúncia da juventude e na mistura de fantasia e realidade. Militares apáticos veem aos poucos seus sonhos serem minados numa rotina angustiante e alimentam a ilusão ou o temor de que um dia a batalha de suas vidas aconteça, quando os inimigos finalmente surgirem do deserto.nte e alimentam a ilusão ou o temor de que um dia a batalha de suas vidas aconteça, quando os inimigos finalmente surgirem do deserto.

Coragem, Drogo, esta é a última cartada, vá ao encontro da morte como um soldado, e que a sua existência errada pelo menos termine bem. Vingado finalmente da sorte, ninguém cantará seus louvores, ninguém o chamará de herói ou de qualquer coisa semelhante, mas justamente por isso vale a pena.
 
DINO BUZZATI

Ler O Deserto dos Tártaros vale a pena.

Acredito que uma afirmação deva sempre vir à frente de uma justificativa, pois é dessa forma que evoluímos. Entendermos as nossas opiniões, compreender a nossa forma de pensar e conseguir explicar o porquê é muito difícil, mas, assim que conseguimos, passamos para um novo estágio: debater, dialogar e conversar com o outro - para que, mais uma vez, possamos investigar o mundo e abrir nossos horizontes. Um ato cotidiano, um ato que devemos levar a sério.

Dizer que ler O Deserto dos Tártaros vale a pena também precisa de uma justificativa: a própria obra fala, exclama por si quanto a isso. Não pelo seu enredo principal, visto que não há nada de surpreendente à primeira vista, mas sim pelas camadas filosóficas que as areias daquele deserto nos transmitem somente por passar os olhos.

Dentro desse fascínio, nós nos perdemos tanto quanto o personagem - supostamente - principal, Giovanni Drogo. Confesso que foi um livro difícil de ler, não por sua densidade gramatical ou por seus contornos literários mais puros, até porque a escrita de Buzzati é extremamente simples e poética com seu tom jornalístico costumeiro, mas porque é um livro que fala de um tempo parado e que se move ao mesmo tempo.

Pode parecer confuso dizê-lo - e é -, porém o que eu quero dizer é que nada - literalmente - acontece durante boa parte da história, somente o tempo se move, ainda que os próprios personagens não sejam capazes de senti-lo antes que seja tarde demais. É um tempo que se move tão lentamente que você sente a história parada, porém, você sabe, a partir das indicações do autor dentro da narrativa, que a história está em constante movimento.

Existe uma ambiguidade singular dentro de toda a obra, mas, a principal delas se remonta ao forte Bastiani. Embora o protagonista seja Drogo, um tenente que acabou de começar a vida e foi enviado para um lugar distante de tudo e todos que conhecia, para mim, o personagem principal é o forte. O Forte é aquele que embora se altere como os homens diante do tempo, é o único entre todos eles que permanece de pé. Além disso, há uma duplicidade nas estruturas que mantém os personagens dentro da trama e dentro do próprio forte: ele liberta ao mesmo tempo que prende.

A liberdade exercida pelo forte está nos contornos, na beleza das paisagens e na segurança de poder - um dia - ir embora. Ao mesmo tempo, o forte prende os personagens que não conseguem escapar da mirada e não podem sair quando querem, pois precisam seguir as ordens. É nesse misto, nessa duplicidade que o Forte Bastiani se mantém na cabeça de Drogo, na cabeça de muitos outros personagens. A liberdade confinada. A prisão livre.

Contudo, entre tudo o que o livro de Buzzati apresenta, o que é mais nítido é a vida. A vida humana. O romance é uma alegoria do ordinário da vida humana, representada a partir da perspectiva de um militar. Essa afirmação é um tanto contraditória com as opiniões de alguns dos especialistas e leitores de O Deserto dos Tártaros, porém, foi o que me pareceu na leitura.

Enquanto muitos falam do extra-ordinário e do fantástico apresentado nas linhas poéticas da história, eu somente consigo ver o ordinário da vida humana em uma alegoria tão profunda que marca a todos. Quem não quer ser lembrado? Quem não espera algo? Que a comida esteja na mesa? Que a vida seja cada vez melhor? Quem não precisa da esperança de que amanhã será melhor?

Humanos são criaturas que sempre precisam de mais e mais. Os militares esperam a glória por seus feitos em campo de batalha; os intelectuais, que seu brilhantismo seja reconhecido; os camponeses, a salvação divina. Todos acreditamos em algo para o futuro e esperamos por ele, porque sabemos que virá. Sempre há um futuro, mesmo na morte. Por conta disso, ainda que eu reconheça o extraordinário nas belas formas das planícies e do forte, acabo apreciando muito mais a filosofia da vida cotidiana e da espera contínua nas páginas do livro que consagrou o autor italiano no cânone.

Esta filosofia de vida apresentada em O Deserto dos Tártaros está conectada intrinsecamente com a questão do tempo. O tempo, que ora passa tão rápido que não percebemos, ora é tão lento que também não nos damos conta, é essencial dentro da narrativa. O jovem em confronto com o velho se transforma, ciclicamente, no velho - que outrora fora jovem - confrontando o novo. Há passagens dentro do livro, uma em particular, que marcam profundamente o movimento cíclico da vida, do que fomos e do que somos. Do que somos e do que seremos - sem saber que assim seremos.

Entrementes, há uma lição profunda, como há também nas obras kafkianas a que tanto Buzzati é comparado, sobre a valorização do que nos rodeia. Como ocorre com Gregor Samsa ao se transformar em uma barata; ocorre com Giovanni Drogo algo similar: ele sempre tivera o tempo, em sua concepção, na palma da mão; com esse pensamento, o valor de todas as coisas importantes se perdeu e a única coisa que lhe restou foi a espera de algo que não sabia se um dia chegaria.

O interessante - e ao mesmo tempo nefasto - é que Drogo não foi o único a agir de similar maneira. Antes dele, outros pensaram e fizeram o mesmo, pois todos são parte desse ciclo e, inclusive, Buzzati mostra que o protagonista é apenas um em e entre vários. Drogo não é especial, Drogo é simplesmente mais um homem qualquer. Isso nos assusta, em certa medida, porque todos queremos ser mais, todos queremos ser especiais e estamos presos, escravizados por nossas ambições.

Como a grande alegoria que é da vida humana, Buzzati não poderia deixar de destacar também a diferença e a permanência dos homens entre o sonho e a realidade, lugares nos quais o homem comum intercala; vivendo e sobrevivendo. Algumas passagens mostram sonhos que podem ser interpretados tanto de maneira freudiana quanto da forma com que se apresentam, pois o que torna a realidade - com suas carências e angústias - suportável, muita das vezes, é o fantástico dos sonhos. Acredito, por conta disso, que Buzzati é aclamado pelo extraordinário - e o surrealismo - de sua obra, justamente por ser capaz, magistralmente, de conectar esses dois lados do cotidiano humano.

Há mais desse livro do que percebemos em uma leitura, talvez em até vinte leituras, pois o autor nos mostra uma parcela do deserto, a cada passagem, e nem sempre nos atentamos a todos os detalhes, porque ainda precisamos viver mais. Essa é uma obra que vejo como um livro que deve nos acompanhar em nossas etapas da vida. A cada etapa de nossa história, podemos ler esse livro e ver um ângulo inteiramente novo, pois nós já não somos mais o que éramos antes e, dessa forma, sempre obteremos uma leitura singular, principalmente com um livro como esse em que o tempo é primordial.

Como outrora comentei: é um livro difícil tanto de ler quanto reler, ao menos, para um leitor do século XXI. O Deserto dos Tártaros é uma obra atemporal, ou seja, uma história que pode ser lida no século XX ou no século XXX, que não fará qualquer diferença, pois trabalha - tanto quanto Shakespeare e Machado - o intrínseco humano. Todos vamos nos identificar com Giovanni Drogo, porque todos somos humanos e lutamos contra o tempo. Entretanto, é uma história que se move como a nossa própria: lentamente; quando nos damos conta, já passou, mas, enquanto acontecia, não percebíamos que estava passando.

Nós, pessoas do século XXI, não vivemos mais em uma rotina vagarosa, mas sempre agitada, sempre contínua e sempre cheia de percalços a cada instante, o que não é a realidade do personagem preso no forte Bastiani e nem a realidade de muitas pessoas do século XX. Nós, infelizmente, não temos mais a paciência que tínhamos para histórias que demoram a acontecer, por conta disso, a leitura de O Deserto dos Tártaros pode ser cansativa, vagarosa e terrivelmente entediante em algumas partes. Contudo, é extremamente necessária e desistir dela, por alguma fadiga, é uma lástima - é perder a oportunidade de conhecer ainda mais a si mesmo, preso nas amarras da sociedade como Drogo está nas do forte.

O mesmo forte que nos observa, vê nossas gerações, mantém-se. No final, o forte - como a sociedade - é o que importa, porque embora ganhe novas estruturas e novas marcas, ainda está presente em todos os tempos, sempre existindo e permanecendo, ao contrário dos homens comuns.


REFERÊNCIAS

BUZZATI, Dino. O Deserto dos Tártaros. Clássicos de Ouro. Tradução de Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.