RESENHA #19: INCONTROLÁVEL

13/01/2018


INCONTROLÁVEL

RESENHA #19

Autora: Cris Barbosa
Sinopse: Gabriela é funcionária do luxuoso Resort "Sun & Sea", em uma paradisíaca cidade do Nordeste brasileiro. Ela vive para o trabalho e leva uma vida tranquila e estável. É uma garota tímida, vinda de uma cidade do interior. Teve uma criação bastante rígida e severa por parte de seu pai. Muito esforçada, formou-se em hotelaria com muita luta e dedicação. Avessa à tietagem, jamais se imaginou tendo um relacionamento, mesmo que passageiro, com qualquer uma das celebridades que já se hospedaram por lá. Sam Williams é um ator inglês. O mais novo queridinho de Hollywood. Após uma intensa jornada de trabalho devido ao lançamento, quase simultâneo, de dois filmes e uma série de TV, os quais ele protagoniza, resolve aceitar o convite de um amigo para passar uma temporada num Resort no Brasil. Sam nunca se envolveu com nenhuma garota que não fosse do seu meio de trabalho, por acreditar que sua fama e dinheiro atrairiam pessoas interessadas em se promover através dele. Além do mais, as atitudes de algumas fãs obcecadas o assustam um pouco. Até que numa casa noturna os destinos se cruzam. Gabriela e Sam descobrem o poder de uma "Incontrolável Atração"! Um esbarrão... Um olhar... Aquele olhar... E tudo muda...


"Mas, antes de qualquer coisa, preciso de uma resposta sincera da sua parte: por que eu?"
CRIS BARBOSA

Quando Gabriela conhece Sam, ela percebe algo estranho. Uma força invisível que os puxa um para o outro. Não é como se Sam fosse algum desconhecido, claro que não, o mundo o conhecia. O problema é que o corpo de Gaby parecia conhecê-lo bem demais. Era uma atração incontrolável, quase impossível. E teria permanecido no campo do impossível, não fosse Sam, o Sam Williams, ter sentido o mesmo por ela.

Logo ela. Logo ele. O destino parecia estar de sacanagem. Era a receita perfeita de um desastre. Restava, então, fazer com que perder o controle não fosse assim tão ruim.

Cris, a princípio, nos pinta uma história que já conhecemos: o mocinho inalcançável e a mocinha comum, envolvidos por um sentimento inexplicável que brota desde o primeiro encontro e que faz dela, a garota dos sonhos; e dele, o príncipe encantado. Um conto de fadas com o acréscimo das cenas que ninguém nunca veria na Disney, uma vez que se trata de um romance adulto.

Entretanto, Uma Incontrolável Atração tem um adendo. Nele, incontrolável não é a medida apenas do relacionamento, mas de tudo: o tempo, o espaço, o senso - tudo, em algum momento, foge ao controle. Dois dias são suficientes para que um amor sem precedentes surja; uma cidade, simplesmente, parece estar fora do mapa; e várias pessoas saem dos eixos. Gabriela, em mais de um momento, é esmagada pela insegurança e pela mágoa; Sam se deixa levar pelo ciúme e pela extrema necessidade de controle. Tudo no livro é pautado pelo demais.

De alguma forma, é como se o desejo - por vingança, por poder, por sexo, por amor - guiasse e, ao mesmo tempo, servisse de background para a história. O único ponto de paz em meio a tudo é a amizade sólida e incondicional de Gabriela e Dandara, sua melhor amiga. Confesso que, ao longo da leitura, esperei mais de uma vez que Dandy também se voltasse contra Gaby, mas ela nunca se volta. Isso me fez ver que, ainda que essa seja a história de um casal, o amor mais sólido dentro da trama é a amizade.

Gabriela é o tipo de personagem que reúne um pouco de cada mulher: guarda lembranças da menina que foi, da mulher que, agora, é; e daquela que pretende (ou não) se tornar. Ela traz a criação que teve, no interior de São Paulo, e também os desejos que tinha e descobriu ter ao lado de Sam. Contudo, apesar de já contar com 28 primaveras, às vezes ela se comporta de maneira muito pouco madura. De certa forma, todos somos imaturos em algum ponto. O problema de Gaby é que ela deixou de amadurecer em aspectos que a magoam: sua insegurança, sua impulsividade, sua tendência a chorar compulsivamente e em público, o que rende bastante dor de cabeça não só a ela, como a Sam e à própria Dandy, que precisa constantemente ajudar a amiga a recobrar o senso.

Sam Williams foi um personagem dúbio para mim. Ao mesmo tempo em que era um poço de paciência e compreensão, era o sinônimo perfeito da explosão e falta de calma. Creio que o gatilho que o transformava do cara doce no cara grosseiro era a extrema possessividade. O fato de ele achar ter direito de posse sobre a Gabriela me incomodou muito, porque é algo que eu realmente não gosto de ver em romances. Sam, entretanto, ainda dispõe de autocontrole e da capacidade de se desculpar. Além disso, assim como Gabriela tem Dandy, Sam tem Smith para lhe colocar nos eixos quando o amigo se descontrola.

Ambos, Gaby e Sam, apesar de já adultos, frequentemente parecem envoltos pelo desconhecido e inexplorado gosto do primeiro amor, que, se já não é inocente, é frequentemente ingênuo. Tanto ela quanto ele se deixam levar por boatos e situações armadas que demonstram uma confiança ainda pouco sólida, talvez devido ao curto tempo em que se conhecem ou, quem sabe, às próprias inseguranças de limitações de cada um.

Salvo alguns poucos descuidos em algumas cenas, Cris soube bem captar a essência do que é namorar alguém que está o tempo todo sob os holofotes. As armações midiáticas por dinheiro, a falta de privacidade e as escolhas de relacionamento por interesse - tudo isso está presente em maior ou menor medida. Há poucos lugares, a exemplo de Jericoacoara, em que o casal fica livre dos paparazzi. O caso dessa cidade paradisíaca, aliás, me chamou a atenção. Hoje em dia, é difícil crer em um espaço no qual a mídia não adentre. Ainda que realmente os paparazzi não chegassem ao resort, é difícil acreditar que nenhum outro turista ou morador entregaria o romance dos dois de bandeja pela quantia certa. Entretanto, eu entendo que fosse necessário um lugar sem perturbações para que o romance pudesse, pelo menos, florescer.

Eu, que nas minhas leituras costumo amar o romance, mas não as cenas de sexo; fiquei surpresa pela forma como Cris soube encaixá-las bem na história. As cenas mais íntimas entre Gaby e Sam realmente envolvem o leitor, tanto pela intensidade das sensações descritas como pelo inusitado de algumas situações. Houve partes da narrativa em que os comentários francos (e inapropriados para todas as idades) de Gabriela sobre as vontades extremas que Sam despertava em si me incomodaram; mas até mesmo eles entravam em sintonia com o resto da cena nesses momentos.

Um ponto em que, na minha opinião, Cris poderia ter trabalhado mais é no desenvolvimento das intrigas. Elas, devido à rapidez com que as coisas ocorrem na trama, acabavam surgindo e acabando em uma velocidade grande, de forma que pouco sentíamos do gosto da separação e da discordância entre os dois. Isso se torna mais óbvio quando, já perto do final, nos deparamos com a última intriga dos dois. Eu, que sou fã de um bom drama dentro dos relacionamentos, fiquei esperando que as coisas se desenrolassem mais lentamente - o perdão, a reconciliação.

Entretanto, ler Uma Incontrolável Atração significa assumir que o tempo, também, é incontrolável. Creio que muito da organização do livro tenha a ver com seu planejamento original ser o de uma história para plataforma online, de modo cada capítulo carrega um teor forte de ansiedade e expectativa pelo seguinte. O fato de haver não só um, mas vários picos de tensão que surgem e são solucionados para que outros venham em seguida é um recurso comum, utilizado desde a época dos folhetins até hoje, em roteiros de novelas televisivas.

Uma Incontrolável Atração é um desafio para os céticos e um prato cheio para os ávidos de amor feliz. Com isso, não estou falando de um amor que é sempre feliz, porque senão não seria a vida. Gaby e Sam representam o tipo de sentimento pelo qual vale a pena lutar. E, ainda que careça de realismo e, em alguns quesitos, a revisão falhe às vezes, é um livro recheado de sentimentos nobres e sensações intensas. Lê-lo requer que abramos mão de nossa incredulidade e mergulhemos em um universo-paraíso, no qual podemos falar diferente, sentir diferente, agir diferente.

E, de bônus, podemos até dar um fora no nosso chefe às vezes. Sem demissão.

Quantos de nós não sonhamos com algo assim?

Na vida real, muita coisa seria diferente para Gaby e Sam. Talvez eles sequer dessem assim tão certo. Mas é aí que reside a magia da ficção. Se o cotidiano nos nega um final feliz, poderemos sempre buscá-lo nas páginas de um romance. E, quanto a isso, garanto que o livro de estreia de Cris não decepciona.

Uma Incontrolável Atração bebe da fonte - afinal, podemos encontrar inúmeras referências a outros livros do gênero romance adulto anteriores a ele - sem se limitar a repeti-las. É ponto médio entre desastre e felizes para sempre, de forma que a perda total de controle é apenas mais um ingrediente para o amor impossível de uma menina do interior e um homem do mundo. O livro exato para quem já cansou de não sonhar.

A realidade já é dura demais das páginas para fora. 


ONDE ENCONTRAR: Cris Barbosa


REFERÊNCIA

BARBOSA, Cris. Uma Incontrolável Atração. São Paulo: Pandorga, 2017.