RESENHA #18: THE QUEEN'S PATH

08/01/2018


THE QUEEN'S PATH

RESENHA #18


AUTORA: Vittória Cunha
SINOPSE: Depois de quase uma década de exílio, ela retorna à sua terra natal. Presa em uma sociedade onde a Traição e a Lealdade ditam o sentido da vida e em ambos os casos as consequências são pagas com a morte, ela terá de colocar seus sentimentos na balança e decidir qual dos mundos lhe é mais importante: a simplicidade da plebe ou o luxo da realeza. Nem mesmo o fato de ser renegada pelo pai e mantida o mais longe possível de seu irmão mais velho foi capaz de tornar Sarah Miglidori uma pessoa reclusa. Apesar da ausência de contato familiar, a menina não fez cerimônia ao começar a interagir com todos os serventes do castelo onde habitava. A princesa vê sua rotina mudar drasticamente ao fugir da revolução que se iniciava em seu país. 

The Queen's Path poderia ser considerado o cenário perfeito para o mais belo conto de fadas. Com seus castelos suntuosos, jardins impecáveis e deslumbrantes, reis e rainhas, príncipes e princesas, bailes e casamentos, poderia ser embalada por uma animada melodia, típica de clássicos da Disney. Contudo, essa história passa bem longe dos clichês romantizados que protagonizam sonhos e provocam suspiros nos leitores. 

O primeiro vislumbre do reino de Odarin, a casa da família real Miglidori, acontece através da princesa Sarah. Uma menina de dez anos que carrega em seus ombros a morte da mãe, a rainha Katherine; uma relação conturbada e nada amorosa com seu pai, o rei Henrique; e, por fim, uma admiração quase religiosa pelo irmão, o príncipe Allen, que reside no reino de Hallbridge.

Ela apresentará um pouco da rotina do castelo, com serviçais que estão sempre a postos para qualquer tarefa, além de também mostrar o vilarejo que movimenta a economia do reino. Crescendo sem a influência da rainha, a princesa não sente apelo pelos seus deveres reais e prefere viver livremente pelo castelo, mesmo que seja mantida na linha por sua rígida governanta, Evangeline. Escapar das lições de caligrafia é um de seus passatempos favoritos, sempre aproveitando a oportunidade para encontrar seu amigo, Elliot, o filho do jardineiro.

Apesar de suas obrigações e lições maçantes, das exigências de Evangeline e do pouco caso de seu pai, Sarah é feliz. A princesa vê em seus serviçais uma família, uma vez que eles são as pessoas responsáveis por todas as suas necessidades. Protegida e acolhida em seu castelo, Sarah vive uma vida tranquila e confortável. Todavia, as paredes de sua vida perfeita, que a mantêm segura e isolada do mundo, começam a ruir quando seu pai adoece e, logo depois, uma revolta toma conta do reino, obrigando-a a fugir. O rei Henrique, enfraquecido pelo mal que lhe atinge o fígado, não resiste.


"No entanto, ela desconhecia o fato de que o inverno não era a única coisa cheia de rigor e sem escrúpulos de Odarin."


Buscando asilo com famílias aliadas em Hallbridge, o lar de seu irmão, o príncipe Allen, Sarah crescerá longe de tudo o que conhecia. Quando, anos depois, retornar à sua casa, o reino de Odarin já não será mais o mesmo, assim como ela. Nesse novo - e ao mesmo tempo antigo - cenário, Sarah se tornará muito mais ciente do mundo em que vive e da incrível trama que a cerca.

The Queen's Path é uma história baseada inteiramente em seus personagens e suas tramas individuais. Sendo nesse aspecto da trama que a autora realmente se destaca e demonstra todo o seu talento.


"⸺ (...) Nós somos nobres, não temos tempo ou energia para gastar com futilidades como sentimentos ou coisas do gênero. Nossas preocupações se limitam às formalidades de nossos cargos."


A construção de um personagem é uma tarefa árdua para qualquer escritor. Em um universo como o de The Queen's Path, esse processo é ainda mais trabalhoso, uma vez que a narrativa engloba inúmeros personagens que interagem em uma longa linha do tempo. Quando gerações conversam em uma mesma história, o passado de cada um apresentado é extenso e deve ser construído com esmero. A autora demonstra seu cuidado com cada um deles como se fossem pessoas reais, presentes em seu cotidiano, o que demonstra a tamanha dedicação à trama que desenvolve e aos detalhes inseridos nela.

Cada trama apresentada é uma linha em um bordado, que se entrelaçam em pontos estratégicos para criar uma figura atrativa. Por vezes, dançam em harmonia e se encontram com suavidade; por vezes, engalfinham-se em nós firmes e violentos. São linhas recheadas de histórias, qualidades e defeitos, além de características únicas que trazem uma humanidade ímpar para cada um. Essa combinação poderosa é o que gera empatia no leitor que, não satisfeito em obter o bordado para si e admirá-lo, vai desejar fazer parte dele como se fosse um dos fios, tamanho é o envolvimento com a história e os seus personagens:


"⸺ Quer saber minha opinião? Falta-lhe um homem que a coloque em seu lugar e lhe mostre algo que seja realmente digno de devoção."


Se provocar algum sentimento no leitor é a intenção de todas as histórias, esta narrativa cumpre a função com excelência. Os sentimentos que ligarão os leitores aos personagens são os mais diversos. Há a compaixão, a ternura, o desejo, a piedade e, por vezes, até mesmo o ódio. São esses sentimentos que nos fazem continuar a leitura com avidez e até mesmo a brincar de detetives, pois buscamos inconscientemente desvendar a trama que se infiltra pelas paredes de Odarin.


"Quando se tem a mente aberta, é absurda a quantidade de coisas que consegue aprender com as pessoas, por mais simples que elas sejam."


A narrativa é interessante para os mais diversos tipos de leitores. Romance, aventura e jogos de poder se balanceiam no enredo. Mas o que realmente se destaca na história é a investigação proposta ao leitor. A autora, com muita destreza, deixa pequenas pistas ao longo do texto, dicas sobre o passado dos personagens e suas consequências nos dias atuais. Ler The Queen's Path foi como ser um turista em Odarin, visitando o castelo em uma excursão na qual a autora é a guia. Todavia, é preciso solicitar que o leitor mantenha os olhos bem abertos. Cada corredor, cada parágrafo e cada quadro guardam segredos, o que torna a autora muito habilidosa pela maneira sutil de apresentá-los, visto que passam quase desapercebidos. Por essa razão, um aviso é necessário: se o leitor observar demasiadamente o quadro que eterniza a beleza da rainha Katherine, pode não perceber o que se passa nos estábulos.


"⸺ Marco, por que você não sobe até a torre mais alta da igreja e se joga? (...)
⸺ Porque nenhum coveiro aguentaria seu choro intermitente."


A escrita da autora é leve, fluída, por vezes comedida e até mesmo divertida. Não há rodeios ou longas divagações que tirem o foco da ação em progresso. Isso exerce um grande fascínio no leitor que gosta de se envolver com uma história e anseia por respostas. A representação da época também é muito bem-feita, adicionando ainda mais veracidade à narrativa. É um trabalho primoroso que deixa claro os anos dedicados ao seu desenvolvimento, trazendo uma trama complexa e cheia de reviravoltas e surpresas.

Mesmo que ainda não esteja concluída, The Queen's Path já se estabelece como uma grande trama que merece a atenção dos leitores que buscam intrigas, romances e um longo jogo de poder que, como sabiamente apontou o príncipe Allen, "é muito semelhante ao xadrez visualmente, mas que segue regras muito próprias". Nesta partida entre leitor e escritor, as peças são substituídas por personagens complexos e que nem sempre irão seguir os movimentos aos quais nossas vagas e antiquadas regras os limitam.

Cabe ao leitor acompanhar cada nova surpresa e tentar prever o próximo movimento hábil da oponente que entrelaça os fios do bordado - afinal, todos queremos saber qual formato se fará no final.

"Os infortúnios da vida tornam-se ainda mais pesados quando envolvem aqueles a quem nós amamos."


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