RESENHA #15: O AMOR LÍQUIDO EM UM DIA

30/11/2017


O AMOR LÍQUIDO EM UM DIA

RESENHA #15

 
Autor:
David Nicholls
Sinopse: Emma e Dexter ficam amigos após a noite da graduação, em 15 de julho de 1988 e, a partir desse ponto, o leitor acompanha o mesmo dia dos próximos 20 anos das dissonantes vidas desses dois protagonistas.

Talvez a primeira coisa que precise ser dita com relação a esse livro é que ele vai esmagar o seu coração tanto de alegria, quanto de tristeza. Isso não se deve, certamente, à sua escrita leve, com escolhas semânticas que dificilmente carregam marcas de rebuscamento. O autor consegue transmitir o verossímil através dos diálogos rápidos e das descrições presentes nas cenas, que permitem ao leitor construir todas as minúcias colocadas ora com muita poeticidade, ora com conjuntos de palavras que evocam o cômico. Um Dia é, sem sobra de dúvidas, uma narrativa precisa.

Juntamente à estrutura, as temáticas tratadas na obra o tornam mais do que o comum best seller que é. Antes de mais nada, Um Dia trata, em primeiríssima mão, sobre o fracasso dos relacionamentos modernos, especialmente pela falta de comunicação e de paciência. Seja com Emma e Dexter, ou em seus relacionamentos familiares e românticos, há uma enorme dificuldade em se comunicar, seja por medo ou insegurança. Imediatamente, esse conceito nos remete ao amor líquido de Bauman, no qual trabalha a ideia de que o romantismo está fora de moda e os relacionamentos se rompem cada vez mais rápido.

Apesar de seguir a fórmula clichê de menina nerd junto do garoto popular, Nicholls extrapola a convenção. Dexter é um personagem que, à primeira vista, se encaixa nos julgamentos de Emma e do leitor. Nasceu numa família relativamente rica, é bonito, popular, egocêntrico e até meio cruel. Age movido pelo impulso e atraído pela estética das coisas, segue o fluxo da vida no rio dos prazeres (ou seja, é o verdadeiro dandy moderno).


"Dexter não gostava de se sentir vaidoso, mas havia ocasiões em que gostaria que houvesse alguém por perto para tirar uma foto dele."

"Nesse estágio da vida, seu principal critério para escolher uma carreira era que soasse bem quando gritada no ouvido de alguma garota num bar."


Entretanto, em diversos pontos da narrativa, ele demonstra ter um nível de inteligência emocional assombrosa. Também, é capaz de atos de gentileza em meio a sua natureza volátil, como se propor a pagar uma viagem à amiga para que se encontrem na Índia . Simultaneamente, Dexter é dissimulado e ambíguo em muitos momentos, conferindo certa complexidade ao seu caráter tão mediano e, por vezes, superficial - o que coloca o leitor numa intrincada relação de amor e ódio.

Emma, por outro lado, é sonhadora e idealista, acredita que tem o poder de mudar o mundo e as pessoas ao seu redor. Todavia, não se engane: ela se torna extremamente sarcástica e amarga quando as coisas não saem como planejado - usa desse mecanismo como autodefesa, algo facilmente perceptível pelo leitor.


"por que estava sendo tão indelicada e sarcástica? Por que não conseguia se mostrar divertida e autoconfiante como as garotas exuberantes e artificiais com quem ele costumava andar?" Emma pensava."


Afinal, quem nunca se escondeu atrás de uma armadura quando ferido? Nesse mundo, no qual as relações humanas são definidas pela instabilidade, como saber o que esperar do outro? Emma é uma personagem cabível no mundo real, que transmite suas preocupações e incertezas através de suas cartas, poemas e profundas conversas.

Abro um parêntesis curto, porém necessário, para natureza intensa e contestadora da personagem. A garota traz consigo, anos mais tarde, a discussão quanto ao papel da mulher convencional, dona de casa e provedora dos filhos. Emma não se sente imediatamente atraída pela ideia da maternidade, e o autor deixa claro que ela gostaria que isso fosse visto de forma natural pela sociedade.


"(...) Sente-se especialmente irritada com as piadas sobre o relógio biológico, mencionadas por amigos, pela família, em filmes e na TV. A palavra mais idiota e tola do idioma é "solteirona", seguida de perto por "chocólatra", e Emma se recusa a fazer parte de qualquer fenômeno de suplementos de estilo de vida dos jornais dominicais."


Através de Emma, inclusive, o autor traz outra discussão válida: a noção da validade do academicismo. Durante algum tempo, Emma fez escolhas socialmente recrimináveis no que diz respeito a sua carreira profissional, preferindo trabalhar em restaurantes e peças de teatro decadentes.


"'Mas você tem um diploma com primeiro lugar em duas matérias! O que aconteceu com ele?', a mãe perguntava todos os dias, como se o diploma de Emma fosse um superpoder que ela se recusasse a usar."


Ela não se sente feliz em nenhum dos lugares em que está, contudo, não sabe como lidar com o sentimento de impotência perante ao choque da realidade que encontrou. Lidamos, portanto, com outro tópico bastante real aos estudantes que concluem o ensino médio e/ou superior: a incerteza da vida adulta. Em diversos momentos, os personagens parecem deslocados, perdidos em meio a um grande buraco negro, engolidos pela velocidade do tempo e suas ambições aparentemente inalcançáveis.


"Sei por meio de suas cartas e por tê-la encontrado depois da sua peça que você não sabe ao certo o que fazer da vida, está meio sem rumo, mas tudo bem, tudo certo, porque todo mundo é assim aos vinte e quatro anos. Na verdade, toda a nossa geração é assim. Eu li um artigo sobre isso; é porque nunca lutamos numa guerra ou por termos passado muito tempo em frente à televisão ou algo assim."


Entre as cartas, os protagonistas trocam experiências, desejos para o futuro e doloridas verdades que normalmente não temos coragem de dizer a alguém. A relação de Emma e Dexter vai além do romance: é um sentimento genuíno que ultrapassa essa fronteira, transitando livremente entre a amizade e o amor.

Em meio a tantos desencontros, repletos de ótimas referências literárias, musicais e cinematográficas, Nicholls nos oferece um enredo simples com uma execução meticulosa, no qual a sincronia temporal se apresenta como a chave para a solução do problema que deixa o leitor roendo as unhas. A todos os interessados na construção de um relacionamento romântico que se aproxime do mundo líquido em que vivemos, sugiro essa leitura.


REFERÊNCIAS

BAUMAN, Z. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
NICHOLLS, D. Um Dia. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009.