RESENHA #14: A LIBERDADE EM PERSPECTIVA

22/11/2017


A LIBERDADE EM PERSPECTIVA

RESENHA #14


AUTOR: Anthony Burgess
SINOPSE: Clássico eterno da ficção inglesa, Laranja Mecânica é um verdadeiro marco na história da cultura pop e da literatura distópica, fascinando e desconcertando leitores desde seu lançamento, em 1962. A história de Alex, membro de uma violenta gangue de adolescentes que sai às ruas buscando divertimento de uma maneira um tanto controversa, incita profundas reflexões sobre temas atemporais, como o conceito de liberdade, a violência - seja ela social, física ou psicológica - e os limites da relação entre o Estado e o indivíduo.


"Então, o que é que vai ser, hein?"
ANTHONY BURGESS

Assim somos apresentados ao Vosso Humilde Narrador, Alex, no início de um dos romances que eternizaria a figura de Anthony Burgess. Ambientada em uma Inglaterra futurista marcada pela extrema violência civil e governamental, Laranja Mecânica é o tipo de distopia incômoda da qual parecemos jamais sair. Por quê? Porque, ao abrir a porta de casa e caminhar pelas ruas, especialmente à noite, a realidade que nós encontramos não é muito distinta daquela que nos pinta Burgess.

Vários são os aspectos pelos quais a obra merece mérito e, dentre eles, há três de que aqui falaremos. O primeiro deles é a questão de ser um bildungsroman, ou seja, um romance de formação. Essa denominação é dada aos livros que trazem, em suas páginas, a trajetória, a formação, de um personagem - desde sua infância ou adolescência até o amadurecimento representado pela vida adulta. Ao início da narrativa, Alex é um jovem de quinze anos. Ao final, um homem de dezoito anos; e, apesar de três anos parecerem pouco para justificar o que digo sobre Laranja Mecânica ser, de fato, um romance de formação, o termo se confirma não pelo tempo cronológico, mas pelo tempo psicológico do personagem: Alex viveu mais em três anos do que talvez vivamos em nossa vida toda.

A própria divisão do livro corrobora para essa leitura: três grandes partes, com sete capítulos cada, totalizando vinte e um capítulos. A estrutura em vinte e um capítulos reverbera o fato de que, na cultura anglo-americana, é aos vinte e um anos que a idade adulta é plenamente atingida. Já a divisão de cada parte em sete capítulos baseia-se no monólogo shakespeariano, As You Like It, sobre as sete idades do homem (da criança, do estudante, do apaixonado, do soldado, do juiz, do velho, da segunda infância), de forma que cada uma das três partes pode ser lida como uma vida completa.

Por fim, o fato de serem três partes pode ser visto, de certa maneira, como uma consequência, trazendo a simbologia do número três - o equilíbrio, a harmonia - para dentro da narrativa. Três são os atos para que Alex complete seu amadurecimento e encontre algo próximo a uma harmonia de si mesmo.

Mas harmonia jamais haverá.

Esquematizando, teríamos algo como: 


Na representação proposta, o triângulo encontra-se invertido porque, pela narração de Alex, podemos entrever a decadência que foi para ele a segunda parte da narrativa. Nesse ponto - no meio de tudo - é onde ocorre, com mais ênfase, a discussão, ora silenciosa, ora explícita, do que é a verdadeira liberdade. Discussão, de fato, é o que mais há, o que mais se tira e o que mais se projeta em Laranja Mecânica. Porém, por ser essa uma das cerejas mais saborosas do bolo (ou deveria dizer a chasha de moloko mais horrorshow, meu caro drugui?), deixá-la-ei mais para frente.

A terceira parte possui duas setas puxadas por uma razão: porque ela é uma retomada do início (com semelhanças textuais e narrativas, inclusive), mas com o objetivo de projetar um novo rumo, um novo Alex. É uma afirmação de que certas coisas não mudam, mas de que outras mudam inexoravelmente. Afinal, é esse o mundo.


"[...]E assim isso itiaria até tipo assim o fim do mundo, sem parar sem parar sem parar, como um tchelovek bolshi gigante, como o velho Bog em f [...], girando e girando e girando uma laranja voni grazni em suas rukas gigantescas."


Aproveitando o gancho criado pela citação, falemos agora do segundo ponto a que, aqui, daremos destaque: a questão da linguagem nadsat, ou adolescente, utilizada por Alex e sua gangue, cuja criação atribuímos a Burgess.

Durante o processo de escrita de Laranja Mecânica, as gangues, que são figura de protagonismo na obra, eram uma realidade no cotidiano do autor, o que lhe proporcionava acesso quase direto ao dialeto de que elas faziam uso. Entretanto, Burgess percebeu muito acertadamente que, caso ele fizesse uso da linguagem de gangues existente naquele momento logo, logo sua obra ficaria obsoleta, pois o dialeto entraria em desuso e seria substituído por outro. Por isso, graças a sua perspicácia e a uma oportuna viagem que fez à Leningrado, Burgess acabou dando origem ao que ele chamou vocabulário nadsat, uma mistura de russo, inglês popular, gírias rimadas e falar dos ciganos.

A criação desse dialeto enriqueceu Laranja Mecânica de duas maneiras. Primeiro, linguisticamente, pois permitiu a nós, leitores, conhecer e - por que não? - aprender uma nova forma de falar. Inicialmente, o vocabulário causa grande estranheza, é verdade, mas aos poucos se torna algo nosso. Estamos lá, falando nadsat com Alex, ouvindo-o ofender todos de graznis e vonis. Entendendo o que ele diz. No fim, ao fechar o livro, já não vemos as coisas, nós as videamos. Já não escutamos o que falam, nós sluchamos.

Em segundo lugar, o uso de diferentes dialetos enriquece o que é o terceiro e último aspecto que gostaria de trazer nessa exposição sumária sobre Laranja Mecânica: as discussões. Ao longo da narrativa, somos incitados, através dos olhos de Alex, a observar e perguntar. Ainda que hesitemos, ainda que não queiramos, acabamos reconhecendo e questionando uma série de realidades e de verdades para as quais, de outro modo, talvez não atentássemos.

A presença dos dialetos das gangues traz para dentro do livro a questão geracional, a efemeridade que é linguística, mas não só linguística. O que falamos, o que vestimos, do que gostamos - tudo se altera quando se altera a geração. Somos expostos a isso ao longo da narrativa de Alex assim como somos expostos a isso todo dia no nosso cotidiano. E mais: a própria questão temporal entra em jogo: ao longo do tempo, a moda, os costumes variam.

A presença da ultraviolência - a violência extremada que marca a obra - tão adorada pelo Vosso Humilde Narrador traz à cena à discussão do que é a verdadeira violência e qual a sua natureza. Violência é uma questão que diz respeito a quem comete ou ao ato que é cometido? É preciso que haja uma poça de sangue e ossos quebrados para que se fale em violência? Quem aprecia a violência explicitamente está mais errado do que quem a comete com desculpas de necessidades coletivas e maiores?

Não só isso: a ultraviolência também evoca outros conceitos como o de poder (quem pode de verdade?); o de bondade e maldade; o de certo e errado.


"Mas, irmãos, esse negócio de ficar roendo as unhas dos pés sobre qual é a causa da maldade é que me torna um maltchik risonho. Eles não procuram saber qual é a causa da bondade, então por que ir à outra loja? Se os plebeus são bons é porque eles gostam, e eu jamais iria interferir em seus prazeres, e o mesmo vale para a outra loja. E eu frequento a outra loja. E mais: a maldade vem de dentro, do eu, de mim ou de você totalmente odinokis, e esse eu é criado pelo velho Bog ou Deus, e é seu grande orgulho e radóstia. Mas o não eu não pode ter o mau, quer dizer, eles lá do governo e os juízes e as escolas não conseguem permitir o mau porque não conseguem permitir o eu. E não é a nossa história moderna, meus irmãos, a história de alguns bravos eus malenks combatendo essas grandes máquinas? Estou falando sério sobre isso com vocês, irmãos. Mas eu faço o que faço porque gosto."


E esses conceitos, por sua vez, também criam aberturas para que personagens secundários explorem seus próprios temas, como Deus, religião e livre arbítrio.


"O que Deus quer? Será que Deus quer insensibilidade ou a escolha da bondade? Será que um homem que escolhe o mal é talvez melhor do que um homem que teve o bem imposto a si?"


Entretanto, a questão principal e que é alimentada por todas as demais é a que foi citada mais ao início: a discussão sobre a liberdade. Ao longo da narrativa, cada personagem parece ter seu próprio conceito do que é ser livre, o qual, é claro, pode sempre se alterar. A liberdade é algo que Alex, Vosso Humilde Narrador, preza acima de tudo, é algo que lhe é dado e tirado dado e tirado sucessivamente, isso, certamente, ao seu ponto de vista.

O ponto de vista é essencial para tudo em Laranja Mecânica, assim como é essencial em toda narrativa cujo narrador não é onisciente. No entanto, no caso dessa obra, a perspectiva é imprescindível até para que se crie um sentido para o título, Laranja Mecânica. Acho razoável supor que, para diferentes leitores, ela será diferentes coisas. Alex, por si próprio, nos deixa entrever duas ou três possibilidades. É justamente por essa multiplicidade na produção da significação que não me estenderei, aqui, criando suposições sobre ela, a grandiosa Laranja.

No entanto, não se preocupe muito com isso agora, leitor. Entre no Lactobar Korova, peça um grande Leite-com. Talvez você encontre Alex por lá, talvez não. Quem sabe? Às vezes, se você tiver sorte, ele pode acabar lhe contando que aventuras vive agora, após tudo. Mas, enquanto você não o encontra, por que não abre esse exemplar de Laranja Mecânica aí, sobre a mesa, para videar algumas páginas? Apesar de, naquela época, ter apenas dezoito anos, o jovem Alex já tem muito a lhe contar.


VOCABULÁRIO NADSAT
(Elaboração/ tradução de Fábio Fernandes)

B -

Bog: Deus 
Bolshi: grande   

C -

Chasha: xícara

D-

Drugui: Irmão


G-

Grazni: sujo


H-

Horrorshow: incrível


I-

Itiar: acontecer


M-

Malenk: pouco, pequeno
Maltchik: garoto
Moloko: leite


O-

Odinoki: sozinho


R-

Radóstia: alegria
Ruka: mão


S-

Sluchar: escutar


T-

Tchelovek: sujeito


V-

Videar: ver
Voni: fedido


REFERÊNCIAS

BURGESS, A. (1962) Laranja Mecânica. 2ª edição. São Paulo: Aleph, 2014. 224p.