RESENHA #13: A PARÓDIA DO ROMÂNTICO SONHADOR

11/11/2017


A PARÓDIA DO ROMÂNTICO SONHADOR

RESENHA #13


AUTOR:
Fiódor Dostoiévski
SINOPSE: Durante uma das maravilhosas 'noites brancas' do verão de São Petersburgo, em que o sol praticamente não se põe, dois jovens se encontram numa ponte sobre o rio Nievá, dando início a uma história carregada de fantasia, emoção e lirismo. Nesta novela singular, publicada em 1848, Dostoiévski constrói uma atmosfera delicada e fantasmagórica, que evoca o gosto romântico da época. Nela, a própria cidade de São Petersburgo - com seus palácios e pontes, seus espaços monumentais - revela-se como personagem.


Com o quê vou sonhar se, desperto, fui tão feliz ao seu lado?
FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

Um livro tão pequeno pode se mostrar enorme. O livro considerado o primor da transição de Fiódor Dostoiévski é exatamente isso: Noites Brancas não é um simples romance que explora as minucias e nuances do romântico como estético e como narrativa, mas um livro que explora o ponto de vista do realismo a partir da perspectiva do homem sonhador e romantizado por parte da literatura.

Antes de falar diretamente da narrativa, há um ponto que precisa ser tocado: a própria transição do autor como uma espécie de romântico àquele que será considerado um dos fundadores do realismo. Dostoiévski possui duas fases, a primeira - embora excelente - não é tão valorizada quanto a segunda, a qual transparece muito mais os ideais firmes do cotidiano em detrimento a idealização do homem sonhador que aparece, por exemplo, em Noites Brancas.

O livro em si é uma pequena aula sobre o romantismo e também a crítica nua e crua que faz com que o tempo dessa estética se esgote e novas ideias surjam com o movimento literário realista que vem em seguida. Contudo, não podemos de deixar de nos tocar, em certa medida, com o que a narrativa traz.

Creio que todo leitor é um sonhador; nós sonhamos todo o tempo - quer sejamos ávidos em nossas leituras e lugares fantasiosos, quer imaginemos a nós mesmos em cargos importantes, profissões prestigiadas e reconhecimento. Tudo nos leva a certo tipo de reconhecimento porque o homem em si existe para si quando percebe o outro. Nós só percebemos que somos nós mesmos quando percebemos que não somos outra pessoa, a nossa essência, os nossos gostos, inclusive, vivemos em um tempo que o desejo pela individualidade é tão intenso que nos espelhamos no outro para não o repetir. Não todos, claro.

Em Noites Brancas, possuímos um protagonista sem nome, mas que sonha. Na minha concepção, podem existir duas leituras que expliquem esse fato: a primeira, é que aquele homem pode ser qualquer um de nós, sonhadores; e, a segunda, que me parece mais válida, aquele homem é tão sonhador que não vive na realidade, aquele homem é tão romântico - tão dentro de sua esfera romântica e idealizada - que ele simplesmente não existe.

Em mesma medida que todos podemos nos encaixar no personagem que sofre e delira por um sonho de amor - como é, literalmente, dito dentro da trama -, também podemos encaixar a narrativa toda em uma alegoria que demonstra como o romantismo, estética, estilo e personagens, parecem fascinados e fascinantes demais para a realidade cotidiana.

Mas por qual razão essa ambiguidade ganha tanto destaque nessa resenha? Porque é a partir desse ponto que sua leitura muda no decorrer da obra. Talvez não tenha sido proposital, mas assim me parece. Dostoiévski abre a margem para as duas possibilidades, pois, a partir da primeira possibilidade, podemos sofrer como os personagens que ganham e perdem amores, que não se encaixam no cotidiano, que se achavam diferentes dos demais, que sofrem e choram por se sentirem fora do mundo, embora estejamos presos nele. Nós vivemos constantemente essa pressão, ainda mais na contemporaneidade (o que dá a essa obra uma expansão atemporal).

Quem nós somos? Não somos ninguém, porque não possuímos nome. O que sonhamos? Sonhamos acordados, sonhamos dormindo em alcançar nossos objetivos, apaixonarmo-nos finalmente, não é verdade? O protagonista vive em mesma medida, buscando um contato, um afeto que o reconheça. Dessa forma, essa primeira leitura é tão possível como dolorosa.

Entretanto, como outrora mencionei, não é - nem perto - a minha leitura de Noites Brancas. Posso parecer um pouco contra a onda de romantismo e individualismo que se espalha pelo mundo desde antes de muitos de nós nos reconhecermos como gente ou sequer existirmos. Esse livro, na minha perspectiva, expõe muito o que de fato uma pessoa realista vê quando observa alguém romântico demais.

Nessa ideia, o protagonista não tem nome porque ele não existe na esfera da realidade. Se um homem prefere viver num mundo idealizado e de sonhos, deixando, nessa medida, de viver a realidade, o tempo passa, o mundo passa e ele é ignorado pelo mundo por propriamente ignorá-lo.

Após uma primeira leitura bem romantizada, essa segunda leitura pode ser um pouco enérgica demais. Contudo, ela me parece muito mais plausível, não pelo fato de Dostoiévski estar em transição, mas sim porque é o que a narrativa parece demonstrar do início ao fim.

Conhecemos o personagem quando ele está desolado demais, afastado demais das outras pessoas e incapaz de se comunicar com cada uma delas, ele conversa com as casas e elas assim o respondem (ou melhor, na cabeça dele fazem-no). A sua falta de nome e a sua falta de contato com as demais pessoas fazem-lhe perder parte de sua própria história, ou melhor, fazem-no não ter uma história.

"— História? — exclamei assustado. — História? Mas quem lhe disse que eu tenho história? Eu não tenho história...
— Então como é que viveu, se não tem história? — interrompeu ela, rindo. 
— Absolutamente sem qualquer história! Vivi assim, como se diz, para mim mesmo; isto é, absolutamente só, completamente só, sozinho. Compreende o que significa "sozinho"?"

Esse é um dos lamentos mais gritantes dentro da narrativa: os anos perdidos, a falta de história e o limiar entre a realidade e o sonho. Contudo, a característica de sonhador - do grande sonhador da narrativa - dá ao personagem um aspecto de poeta, de um brilhante poeta que se revela graças ao próprio talento de Dostoiévski.

Durante toda a trajetória da trama, o linguajar do personagem é "como se lesse um livro" a cada frase que verberava, sua acompanhante, Nástienka, também leitora e sonhadora (não tanto quanto o outro), deixa isso explícito, inclusive, quando o questiona se não pode falar de outra maneira, porém, o personagem se nega a fazê-lo. Uma característica do romantismo é esse posicionamento superior do poeta, do autor e do artista - que parece, mais uma vez, bem marcado dentro de Noites Brancas.

Então, de repente, como os filmes e livros românticos nos demonstraram durante o decorrer dos anos da história da humanidade, a mocinha chora em um canto ou corre perigo (duas situações que demonstram a fragilidade feminina). Os dois ocorrem dentro do livro e isso pode parecer piegas, e, brilhantemente, Dostoiévski assinala que as palavras que diria - no caso, "Senhorita" - já ocorreram em múltiplos romances, então, o narrador personagem tende a evitá-lo como se tentasse escapar das amarras que lhe fazem ser aquele personagem.

Ele conhece Nástienka, uma menina que deseja escapar das amarras de sua avó, que a prende ao seu vestido com um alfinete. Muitos dos detalhes, bem detalhados, devo ressaltar, da trama são exagerados, principalmente para os leitores contemporâneos. Entretanto, isso também me parece proposital, porque a partir da perspectiva realista, o romântico é um exagerado. O seu amor é demais para caber em seu peito, ele está além, muito longe dos demais e, inclusive, da própria realidade.

E a própria realidade do personagem favorece a sua unicidade. O título da narrativa é Noites Brancas, contudo esse nome não é um jogo do acaso, pelo contrário, "Noites Brancas" é um fenômeno natural e comum na Europa, que ocorre entre os meses de Maio e Junho. Acontece que embora o Sol se ponha, ele permanece um pouco abaixoda linha do horizonte, dando ao céu noturno uma claridade que o define como uma noite clara ou noite branca, o que causa uma atmosfera singular no cenário. O cenário, na narrativa, não se reduz só ao céu, mas também as margens do rio Niéva. Um lugar estrategicamente romântico e considerado como um dos mais belos pontos turísticos da cidade, ao lado do Jardim de Verão.

Nesse cenário belo e único, que cheira a romantismo, os dois personagens, o protagonista e Nástienka vão se encontrar, sendo - praticamente - os únicos presentes durante a narrativa, como se só existissem os dois e mais ninguém. O livro inteiro é dividido em cinco capítulos, cada capítulo falará de cada uma das quatro noites, sendo, o último, a manhã seguinte.

O resultado desses encontros se dará dentro da história e, assim espero, explicará muito dos pontos aqui comentados. Entretanto, para que a leitura seja mais agradável, evitaremos spoilers.

De todo, a narrativa é uma experiência marcante, brilhante e com certa pitada, diria eu, de ironia. Em um jogo constante de palavras, de diálogos, de situações e também de lugares, Dostoiévski, em Noites Brancas, marca-se, mais uma vez, como um incrível autor que - no decorrer desse pequeno livro - mostra que é possível fazer uma crítica a toda uma estética, usando-a e ferindo-a dentro de si mesma.

Claro, sem deixar de contar uma história piegas e de amor. 


REFERÊNCIAS

DOSTOIÉVSKI, Fiòdor. Noites Brancas. Tradução de Nivaldo dos Santos. 1ª ed. São Paulo: Editora34, 2005.