RESENHA #12: O HERÓI DE TODOS OS TEMPOS E AS VERDADES-SOMBRAS DO SONHAR

10/11/2017


O HERÓI DE TODOS OS TEMPOS: AS VERDADES-SOMBRAS DO SONHAR

RESENHA #12


AUTOR: Neil Gaiman
SINOPSE: Quando uma ordem mística tentou capturar a irmã de Sonho, a Morte, em seu lugar eles capturaram Morfeus. Assustados com o que conseguiram, os membros da ordem o mantiveram cativo. E assim teve início um período de diversas décadas em que esse Perpétuo ficou trancafiado à mercê de seus captores, deixando o Mundo dos Sonhos abandonado e os sonhadores desamparados. A série nos revela como ele se libertou e como foi capaz de se adaptar no mundo após tantos anos de ausência, e também nos mostra um vislumbre de sua história e da mitologia dos Perpétuos.

Entre todas as frases extremamente elaboradas que eu poderia escolher para tentar - o que sempre será uma tentativa - definir The Sandman, ou como é conhecido no Brasil, somente Sandman, se tivesse de ser minha, seria: Mil em um. Essa narrativa abarca tudo, quase que literalmente, e isso tudo em apenas uma história: a história dos sonhos.

Muitas pessoas utilizam a frase central e o slogan dado pela editora, frase retirada do poema "O Enterro dos Mortos", do poeta T.S. Elliot, para tentar dar sentido a essa totalidade imensurável.

"Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó"


Contudo, contrariando todas as pessoas que, acredito eu, tentaram em uma árdua tarefa falar sobre Sandman, tenho talvez uma proposta inusitada, pois com Sandman e Neil Gaiman sempre será um talvez. Na minha humilde perspectiva, a frase que serviria para definir sua história seria:

"As coisas não precisam ter acontecido para serem verdadeiras. Contos e sonhos são verdades-sombras que vão perdurar quando os reles fatos não forem mais do que pó e cinzas esquecidas."

Mas por que eu digo que essa frase seria capaz de definir Sandman muito melhor do que a do poeta T.S. Elliot? Primeiro, porque como diria Eduardo Lourenço, "não há melhor pessoa que Fernando Pessoa para definir a si mesmo" e, entre tudo que é crível e maravilhoso na literatura canônica, não há nada melhor do que o próprio poeta ou escritor para definir sua obra. Como meu segundo argumento - e isso deve contrariar muitos leitores de Sandman -, em nenhum momento eu senti medo. Ou talvez eu tenha sentido, porém, o fascínio cresceu tanto que o medo se tornou diminuto para mim e, nesse aspecto, encontramos algo valioso em Sandman.

O que caracteriza uma divindade senão a dualidade entre medo e fascínio? Nós tememos Deus, como diria Nietzsche; os homens são crentes e devotos não pelo amor, mas pelo medo do castigo - essa é a ideia retirada da frase célebre "Deus está morto". Por outro aspecto e lado, também somos levados a fascinar e a sonhar com essas divindades e sua grandiosidade, porque elas são imensas e nos tiram do chão e também porque elas são o que está entre o chão e nós: os deuses são os nossos pilares de sustento para acreditar no real ou na verdade, independentemente do tempo em que estejamos vivendo.

O meu terceiro argumento é que nós vivemos entre verdade, conto e sonho: os três se misturam tanto em Sandman quanto na nossa própria realidade. O que as histórias contam para você? Todas as que você pode beber ao ponto de saborear uma nova vida? Todas as histórias contam uma verdade que vive na sombra da mente dos autores. Ao mesmo tempo, após a leitura, ela também vive na mente do leitor - e o influencia. Nós somos influenciados por histórias, como, por exemplo, no passado, os grandes reis foram influenciados pela figura do rei Arthur. É nessa miscigenação entre verdade, mito e sonho que vivemos e continuaremos vivendo, como Sandman continua a viver agora e viverá amanhã. Toda narrativa conta a verdade-sombra e nós precisamos nos agarrar a ela quando desejarmos, como fazemos com os sonhos. Como podemos fazer e devemos fazer com Sandman.

Embora eu tenha muitos outros pontos para corroborar porque essa frase define, em minha opinião, Sandman - e talvez a nós mesmos e nossa história -, beberei agora, junto de você, do meu último argumento: todas as narrativas são pontos de vista, nada além de pontos em que alguém fala e o outro enxerga alguma coisa. Essas narrativas geradoras de pontos de vistas podem ser ou não ser além do que foi demonstrado, o mesmo com a própria história e a realidade dos fatos.

O fato é distorcido e, de tão distorcido, o fato que é a verdade - se é que existe uma - se torna apagado na imensidão dos ideais. Sandman é sonho, não porque seu protagonista é o próprio Sonho, mas porque nos faz sonhar com a verdade - a intrínseca e a múltipla - tal como tem a sua função primordial, exatamente igual aos mitos. O que eu quero dizer, com essa frase, é que Sandman é tão mítico e verdadeiro quanto a Ilíada, quanto a Odisseia ou a Eneida, além disso, é a verdade-sombra que prospera e é primordial como os mitos, não ler Sandman é perder um pouco do mítico que há dentro de você e você nunca foi capaz de enxergar.

Não somente de metáforas a questão mítica se faz presente na narrativa, os deuses realmente aparecem, como os anjos, os demônios e os perpétuos. Você conhece os deuses, os anjos, os demônios e os personagens - se é um leitor ávido de histórias de super-heróis ou um assíduo conhecer do cinema contemporâneo - sobre-humanos e super-humanos que aparecem nos quadrinhos da DC Comics, mas e os perpétuos? Personagens incrivelmente bem elaborados por Neil Gaiman, eles são aqueles que existiram antes dos deuses e morrerão - não da forma que conhecemos a morte -quando o último dos homens padecer.

Contudo, antes de continuar, eu devo enfatizar isto em sua mente: nenhuma palavra, principalmente em Neil Gaiman, é escolhida ao acaso. Por isso, eu gostaria de traçar a etimologia da palavra perpétuo. A palavra latina perpetuum, que tem o significado correspondente ao português perpétuo, originou-se de impetere que significa "impedir"na tradução do português, no entanto, na visão dos romanos, essa palavra significava "lançar-se sobre"; a explicação para essa relação é que se uma pessoa se lança sobre outra, isso a impede de fazer o que desejava, seja física ou metaforicamente dentro do contexto que a palavra for empregada. Do mesmo radical vem ímpeto e repetir, que era repetere, ou seja, "atacar de novo, ir procurar". Nesse per-pet-s, como uma ação contínua, que avança de maneira contínua, originou-se a palavra perpétuo que corresponde ao sentido de "eterno".

Logo, perpétuo nada mais é do que aquilo que se lança sobre você/ avança sobre você continuamente - física ou metaforicamente, como já foi dito a partir de impetere. O que se lança sobre nós, a humanidade, a todo momento, sem que possamos pedir ou impedir, senão o sonho, a morte, o destino, o desejo, o delírio, o desespero e a destruição?Nesse conjunto de conceitos, acontecimentos e dados intrínsecos do homem e da natureza surge uma personificação, exatamente como todas as divindades durante o passar do tempo também são. Neil Gaiman recria a mitologia de uma maneira tão completa quanto a dos povos antigos.

A mitologia de Neil Gaiman, para aproveitar a frase de T.S. Elliot, recria os nossos medos - e fascínios. Contudo, também recria, nessa mesma medida, o herói. A figura de Sandman, o personagem remodelado por Gaiman, é a figura do herói épico que busca proteger a humanidade enquanto, ao mesmo tempo, como todo herói épico, é o herói trágico. Ele passa por tristezas, aflições e alentos impossíveis de impedir que ocorram, muito embora essas sensações sejam reduzidas em comparação a própria humanidade, pois seus sentidos não são como os nossos.

Sandman não é um herói comum, filho de deus com homem ou de perpétuo com homem, quiçá de homem com anjo: mas Morpheus, um dos múltiplos nomes do senhor dos Sonhos, é parte intrínseca do homem porque é no sonho que demonstramos mais ainda nossas vontades, nossos desejos e quem realmente somos. Morpheus, por dominar nossa terra prometida, é aquele que mais se aproxima desse meandro onde os heróis vivem.

Morpheus, ao contrário dos outros heróis que se movem em prol dos prazeres e dos desejos e valores de seu tempo, é um herói de todos os tempos, porque ele vive fora do tempo. E é fora do tempo que reinam os sonhos, pois podemos viver toda uma vida a sonhar, ainda que não se passem nem cinco minutos cronológicos. Como diriam os gregos, é o tempo do aion, ou seja, o "não-tempo".

O primeiro volume, a edição definitiva elaborada pela Panini, percorre os três primeiros arcos - que são extasiantes, brilhantes tal como os que virão a seguir. O primeiro é o reencontro de Morpheus com a liberdade, o segundo é o encontro de Morpheus com a natureza do homem e o terceiro é com o preço dos nossos sonhos - protagonizado também por Shakespeare e uma de suas comédias mais famosas "Sonho de Uma Noite de Verão" - e, como sugestão, aconselho que conheçam a peça antes de ler esse arco, porque o torna ainda mais delicioso.

Ainda que Neil Gaiman retrate perfeitamente bem o que é Sandman no arco Terra dos Sonhos, de onde essa frase foi retirada, ainda consigo ver um resquício da frase malfeita feita por mim, lá no início, dentro da narrativa: mil em um. Eu vejo amor e ódio, razão e loucura, eu vejo tudo em Sandman e, ao mesmo tempo, eu vejo um: o próprio homem.

"Mas ele não compreendeu o preço. Os mortais jamais compreendem. Veem apenas o que objetivam, seu desejo mais íntimo, seu sonho... Mas o preço de se obter o que se quer é obter o que outrora se quis."
NEIL GAIMAN



REFERÊNCIAS


CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1997.
CARLYLE, Thomas. Heroes and Hero worship. New York: The Macmillian Company, 1897.
CASSIRER, Ernst. Linguagem e mito. Tradução J. Guinsburg, Miriam Schnaiderman. São Paulo: Perspectiva, 2009.
ELIADE, M. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 2002.
FEIJÓ, Martin Cezar. O que é herói. Brasília: Editora Brasiliense, 1995.
GAIMAN, N. Sandman - volume 1, edição definitiva. Tradução de Jotapê Martins. São Paulo: Panini Books, 2010.
LOURENÇO, E. Fernando, Rei da Nossa Baviera. Lisboa: Gradiva, 2008.
NIETZSCHE, F. Grandes obras de Nietzsche. 3 volumes. 1ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.
WAGNER, H. GOLDEN, C. BISSETTE, S. R. Príncipe de histórias: os vários mundos de Neil Gaiman. Tradução de Santiago Nazarian. São Paulo: Geração Editorial, 2011.
< https://origemdapalavra.com.br/site/palavras/perpetuo/> consultado em 24/09, às 09:50