RESENHA #11: AS MÚLTIPLAS SIGNIFICAÇÕES DO VAMPIRO E A MODERNIDADE EM DRÁCULA

08/11/2017


AS MÚLTIPLAS SIGNIFICAÇÕES DO VAMPIRO E A MODERNIDADE EM DRÁCULA

RESENHA #11

AUTOR: Bram Stoker
SINOPSE: Jonathan Harker, um jovem advogado inglês, viaja para as montanhas de Cárpatos para ajudar juridicamente o Conde Drácula numa transação imobiliária - ele desejava adquirir um imóvel em Londres. Com o passar dos dias, Harker percebe os estranhos hábitos de seu anfitrião e entende que está prisioneiro do castelo e de seu inumano dono, à espera de um destino terrível. Longe dele, sua noiva e sua amiga são atacadas por uma doença misteriosa que parece extrair o sangue de suas veias. Por trás de tudo está Conde Drácula, um vampiro que carrega a maldição milenar e que à noite vaga pelas ruas, sugando sangue e aterrorizando a sociedade londrina.


Drácula é um clássico da literatura devido a sua riqueza de temáticas que permanecem atuais na pós-modernidade em que vivemos. Comecemos pela simbologia do vampiro, algo que é amplamente explorado morfológica e metaforicamente. Logo nas primeiras páginas do livro, quando Jonathan está viajando rumo à propriedade de Drácula, ele diz:


"Consegui ouvir uma série de palavras que eram constantemente repetidas, expressões bastante estranhas, pois o grupo era formado por uma mistura de pessoas de várias nacionalidades. Recorrendo discretamente ao dicionário poliglota, guardado em minha pasta, apressei-me e consulta-lo. Devo confessar que nenhum dos termos encontrados encerrava um sentido reconfortante para mim. Entre outros, lá estavam ordog (satanás), pokol (inferno), stregoica (bruxa), vrolok e vrokoslak - ambos com a mesma significação, um e origem eslovaca, o outro do linguajar sérvio, e que significam lobisomem ou vampiro."


O vampiro, enquanto representação do demônio, é algo existente em praticamente todas as culturas que conhecemos. Todas as palavras citadas no trecho acima são, em uma ou em mais de uma cultura, ligadas ao conceito do que apreendemos como vampiro.

No sentido metafórico, o vampiro só consegue sobreviver graças a sua vítima, simbolizando "uma inversão das forças psíquicas contra nós mesmos". Ao extrair o sangue, a alegoria da vida, da alma e da nobreza, a vítima morre ou se torna vampiro. Perdendo a essência humana, o corpo passa a ser um recipiente do mal, escravizado e subjugado a seu mestre. Essa relação pode ser explorada a outras vertentes, especialmente à política: temos uma relação que é sinônimo da aristocracia. O Conde é o melhor e o mais virtuoso, também sendo um descendente de Átila. Drácula é aquele que doutrina essa forma de governo exercida apenas por nobres. Ele é uma figura imponente, deseja alastrar seu poder sobre os demais seres existentes. Isso fica evidente em passagens como:


"Aqui sou um nobre, um boyar, o povo me conhece e me trata como seu senhor. Entretanto, um forasteiro numa terra estranha não é ninguém, os homens ignoram sua importância... e não conhecer significa não ter consideração pelo outro. (...) Já sou senhor por tanto tempo que prefiro continuar sendo-o... ou, pelo menos, conservar o poder de não permitir que ninguém se julgue mais importante a ponto de querer ser superior a mim."


O vampiro, assim como o aristocrata, orna sua moradia. O castelo é um templo para o qual a criatura se volta e é o abrigo à sua solidão. Conforme aponta o Dicionário de Símbolos, o castelo é a metáfora visual para a proteção, uma vez que ele resguarda "um poder misterioso e inatingível" - sendo, também, um símbolo de seu poder. A composição do castelo de Drácula remete-nos a um labirinto: situado a beira de um precipício, ele possui escadas em caracol, passagens externas e diversas portas amplas, destinadas a confundir quem ali dentro se encontre. O espaço é explorado minuciosamente, de forma que os locais escuros, confusos e fechados passem a sensação de enclausuramento ao leitor com veracidade.


"Não busco as alegrias e as festas, nem a brilhante volúpia do sol pleno e irradiante ou as águas borbulhantes que tanto agradam a quem ainda está na aurora da vida e se sente repleto de euforia. Há muito deixei de ser jovem. Meu coração foi se cansando ao longo dos anos de sofrimento em que pranteou os mortos, e por este motivo não combina mais com os sons da felicidade. Além do mais, as paredes do meu castelo estão em ruínas, as sombras se multiplicam pelos cantos e o sopro dos ventos glaciais sibila através das ameias e janelas já desmoronadas. Amo a sombra e a penumbra, pois me permitem ficar a sós com meus pensamentos e com a minha solidão."


Essas características podem ser percebidas em outras obras mesmo antes de Drácula, como em Carmilla, por exemplo, outra história vampiresca não tão famosa, mas que muitos estudiosos alegam ser aquela que inspirou Stoker a escrever a obra que conhecemos. Em ambas, temos o vampiro ainda enquanto estrangeiro, aquele que corrompe, por meio das mais mirabolantes artimanhas, o ambiente e as pessoas com as quais passa a habitar. Em Drácula, especificamente, Jonathan é seduzido com conversas e charutos até o amanhecer. Um bom vampiro é eloquente e calculista, sabendo muito bem como se utilizar das palavras para obter as informações que deseja. Sua inteligência é admirável: o Conde aprende inglês de forma autodidata, usufruindo de seus inúmeros livros em inglês sobre os mais variados assuntos.

O vampirismo é uma temática que inegavelmente traz à tona as representações da mulher nas sociedades em que elas vivem. Em Drácula, temos duas imagens de mulher. De um lado há Mina, a virgem devotada à religião e aos costumes sociais da Inglaterra vitoriana, uma mulher que passa toda uma vida se preparando para o casamento... embora tenha um trabalho próprio e nos apresente um nível de independência incomum para as obras da época; de outro, temos Lucy, a jovem também encantadora que, uma vez corrompida pelo Conde, se torna totalmente oposta a tudo o que era enquanto viva: passa a ser descrita com um vocabulário bem mais sensualizado:


"Sim... era Lucy Westenra, mas totalmente alterada! Sua doçura se tornara uma crueldade dura e desalmada, enquanto a sua pureza passara a ser uma devassidão cheia de volúpia. (...) Eram os mesmos olhos apenas na forma e na cor, porque agora refletiam uma obscena impureza e o brilho das chamas do inferno, não mais a ternura e a gentileza que a tornavam mais bela e nós conhecíamos tão bem."


Tal qual a mítica Lilitu, da mitologia antiga persa, assíria e babilônica, Lucy passou a ser considerada um demônio e se alimentava do sangue de crianças, que eram encontradas "às primeiras horas da manhã seguinte", incapacitadas de explicar o que lhes acontecera à noite. Ela até mesmo ganhou delas o apelido de "Dama dos Ardis" um nome bastante explicativo, não é mesmo?

Essas representações não são apenas uma coincidência. O livro foi publicado pela primeira vez em 1897, mesmo ano em que teve início a fundação União Nacional pelo Sufrágio Feminino no Reino Unido. As rebeliões e greves tinham como objetivo o fim do sexismo institucional britânico e o direito ao voto. Independente dos divergentes destinos das duas personagens femininas, mulheres que tinham acesso à educação como Mina e Lucy, capazes de ler, escrever e se dedicar a algo além de cuidar da casa, começaram a surgir dentro da classe média europeia - muitas vistas como uma ameaça ao sistema vigente.

Outro importante ponto de destaque está nos gêneros textuais escolhidos pelo autor. A estória é um romance epistolar, sendo contada através de diversos documentos como cartas, reportagens, diários pessoais, etc. Essa estratégia não pode passar despercebida e é uma alternativa para escritores que desejam manter o leitor suspenso e atento aos acontecimentos. O diário de Jonathan Harker, por exemplo, serve ao personagem como um registro da sanidade dele, conforme anunciado por ele mesmo.

As narrações em primeira pessoa também fazem com que o envolvimento do leitor com os personagens seja facilitado. Simultaneamente, a multiplicidade de narradores inseridos na história faz com que o leitor experiente desconfie de Deus e o mundo, e acompanhe a história da perspectiva de quase todos os envolvidos - exceção para o próprio Drácula que, infelizmente, não tem a oportunidade de se comunicar com o leitor através do recurso da primeira pessoa. Drácula, apesar desse afastamento, controla não apenas as criaturas da noite como também o ritmo da narrativa. O enredo vai se estruturando de tal forma que a sua privação só nos causa mais curiosidade e até certo fascínio pelo personagem.

Não podemos esquecer de mencionar o aspecto religioso, que permeia toda a obra: o dialogismo da fé cristã e das tradições folclóricas. Isso é muito bem representado pelos personagens londrinos contra o Drácula. O conde tem aversão ao crucifixo, uma das representações mais inesquecíveis do cristianismo, e matá-lo significa, de certa forma, a conservação da fé e dos bons costumes. Num meio termo, temos o personagem Van Helsing, que é a representação de um ponto de equilíbrio no qual a mais pura forma de conhecimento prevalece, independente de possíveis preconceitos. Ele se utiliza da ciência e da sabedoria popular para repelir o mal e sua influência.

Um último adendo se destina as adaptações da obra para o cinema. Eu, pessoalmente, não sou admiradora de nenhuma delas por um simples motivo: Drácula não é uma história romântica, e Mina não é a reencarnação de um amor passado do protagonista, nem um objeto de sua obsessão. Por mais bonito que possa soar à história original, nunca é sequer insinuado que o Conde a deseje como algo mais do que alimento e uma forma de se vingar dos homens que o estão caçando. Essa transgressão dentro dos filmes, de forma geral, transforma o vampiro no arquétipo do personagem byroniano, cujos atos maldosos são justificáveis por conta de seus sentimentos humanos - outro ponto em que os filmes pecaram e andam pecando.


"Ouça-os... São as crianças da noite. Que magnífica a sua música! - E, percebendo talvez alguma expressão de desapontamento que transparecia em minha face a ponto de perturbá-lo, acrescentou: - Ah, meu caro! Vocês, os habitantes das cidades, jamais conseguirão penetrar nos mais íntimos segredos dos caçadores, como nós somos."


Drácula é sádico, caprichoso e profundamente ligado à história e aos exóticos costumes de sua terra e isso pode ser comprovado em diversas passagens da obra. Temos, no livro, uma criatura que é a personificação da forma mais vil de qualquer perversidade que possa percorrer sobre a Terra, e a sua última preocupação é em estabelecer laços emocionais com qualquer ser humano - eles são seus joguetes, presas capazes de o proporcionar níveis de entretenimento.

...E entretidos vocês estarão ao se deliciarem com as páginas desse livro. Ouça ao pai da noite mais escura, a maravilhosa sinfonia que ele nos apresenta! Você conseguiu penetrar nos segredos dos caçadores ou continua sendo uma presa?


REREFERÊNCIAS

CHEVALIER, J.; GHEERBRANT, A. Dicionário dos Símbolos. 28ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015
STOKER, B. Drácula. Editora Nova Cultural Ltda. São Paulo, 2002.