RESENHA #10: A FLOR DE OBSESSÃO E OS REQUINTES DE SOCIABILIDADE

04/11/2017


A FLOR DE OBSESSÃO E OS REQUINTES DE SOCIABILIDADE

  RESENHA #10


AUTOR:
Nelson Rodrigues
SINOPSE: "O óbvio ululante" traz uma seleção, feita pelo próprio Nelson Rodrigues, das "Confissões" que ele publicava em O Globo entre dezembro de 1967 e junho de 1968. Nessa coluna, além de deixar entrever parte de sua vida, analisava personagens de sua época, as mudanças de comportamento e os debates políticos pelos quais passava o país. Encontramos em cada crônica os tipos criados por Nelson, como a "estagiária do JB" e a "grã-fina de nariz de cadáver", e os amigos - e inimigos - que o autor transformava em personagens: Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, Antonio Callado, Alceu Amoroso Lima, D. Hélder Câmara, entre outros.

Há autores que não são capazes de se desassociar de suas obras, tornando impossível, para qualquer resenhista, falar sobre o livro sem chegar as minucias daquela personalidade que, geralmente, é tão intrigante e instigante. Nelson Rodrigues, como Cora Coralina ou Rupi Kaur, é exatamente esse tipo de escritor: sua vida, sua obra; qual a diferença mesmo?

Essa pergunta não é despropositada, principalmente ao falar de "O Óbvio Ululante". Esse livro retrata uma série de confissões - e seu subtítulo é "as primeiras confissões" - publicadas por Nelson na década de sessenta, mas especificamente nos anos de 1967 e 1968. O autor retrata - como um belo cronista e excelentíssimo poeta em prosa - a vida cotidiana da cidade do Rio de Janeiro, comentando sobre personalidades e nos levando tanto para a década de vinte, época a qual o autor retrata muitas vezes como foi sofrida por conta de sua infância pobre, quanto todo o resto de sua vida até ali. O autor usa o bom humor e a própria vida para criticar a sociedade em diversos aspectos, inclusive, celebridades e amigos. Seja num falar educado, num falar bem ou belamente debochado, mas sempre, e repito, sempre brilhante e com um exímio de refinamento linguístico e jogo de palavras.

Durante o decorrer do livro, o leitor encontrará oitenta e uma confissões, dedicadas à sociedade, tanto ao próprio Nelson, quanto aos vizinhos ou ao Guimarães Rosa. São crônicas, ou seja, textos de cunho histórico, apresentados como uma compilação desses fatos e que se mostram em uma ordem sucessiva de tempo. Muito embora, dentro do livro, não tenha de fato uma cronologia, pois podemos perceber - mediante da apresentação das datas após cada confissão - que algumas são de meses antes ou meses depois, sem ter uma ordem muito específica de tempo.

Ainda que o tempo não seja específico, o que o Nelson comenta é muito específico, em alguns momentos. Suas críticas, ao meu ver, são muito bem fundamentadas e contemporâneas. Logo, o título de seu livro não se torna somente interessante, mas também se torna necessário e mostra o quão gritante é a questão trabalhada.

A palavra "óbvio" é bem mais comum na língua do que a palavra "ululante", ainda mais na nossa contemporaneidade. Óbvio, segundo o Houaiss, vem da palavra latina "obvius, a, um", que significa "que vai ao encontro de, apresenta-se à", então, podemos perceber que o seu sentido não mudou na língua portuguesa, sendo algo que "salta à vista, fácil de descobrir, etc.". Mas a palavra "ululante"? Eu tenho certeza que poucas pessoas conhecem o termo.

"Ululante" provém de uma palavra "ululare", que deu no português a palavra ulular - como podemos ver em Nelson -, mas, mais especificamente, significa "uivo, som emitido por cães e lobos", também é visto como um prolongamento de um som gutural feito por esses animais para chamar a atenção ou ameaçar alguém. A partir desse termo "ululante", Nelson traz consigo a necessidade de uivar, chamar a atenção das pessoas para as coisas que as rodeavam - tão visivelmente, tão obviamente - em suas crônicas.

Entretanto, há algo mais interessante nesse nome, pois esse apelo dentro do livro de Nelson, esse apelo que Nelson traz ao seu público, é duplo. Mas por que eu digo isso? Durante a década de cinquenta, O termo "ululante" ficou conhecido pelo uso continuo do autor antes mesmo de escrever esse livro de confissões. Nas confissões em si, o termo já aparecia sendo utilizado constantemente e quase como cristalizado. Segundo o Houaiss, usar ululante é também uma hipérbole para dizer sobre o caráter óbvio de alguma coisa. Logo, a obra é dupla: o óbvio do óbvio. O óbvio que precisa ser gritado/uivado porque é óbvio.

Eu me atrevo a dizer que esse óbvio são obsessões de Nelson Rodrigues, que foi chamado de "flor de obsessão" - e cita isso dentro do seu livro. Uma das obsessões de Nelson, mais declaradas, é a respeito de Guimarães Rosa e sua genialidade. Ele cita, e é muito interessante, como um gênio morto nos inspira realizações e, de mesma maneira, como um gênio vivo nos inspira inveja. Embora ele não utilize literalmente o termo, acaba se tornando bem óbvio.

Além de diversas passagens a respeito de Nelson, há outras sobre D. Hélder - um religioso que, na concepção do autor, era alguém que precisava, antes de mais nada, de um holofote. Inclusive, durante as suas confissões, faz diversas piadas ácidas a respeito de como D. Hélder se comporta em prol da fome do povo brasileiro e como as suas causas sempre estão relacionadas às manchetes de jornal.

Ao falar de manchetes, uma das críticas mais pontuais e interessantes dentro de suas confissões é a crítica ao próprio brasileiro. Entre os múltiplos pontos, Nelson fala sobre o racismo - como o branco, como o negro, daquela época, renegavam o negro. Não existiam negros, Sartre mesmo comenta durante uma de suas crônicas. Somente um. Esse sim lutava pelos negros - os outros desejavam ser brancos. Uma das passagens interessantes é quando ele narra sobre um taxista e o personagem - mais palpável e real possível - diz a ele que não aceita negros em seu táxi a noite. O homem era negro. Então, com pequenos diálogos, pequenas narrativas cotidianas, o Nelson personagem que é o próprio Nelson, mostra a podridão da nossa sociedade e seus preconceitos.

Outra coisa que pontua muito fortemente é, como conhecemos bem, nossa síndrome de vira-lata. Suas palavras não são essas, mas, embora não diga, posso ouvi-lo sussurrando-as no meu ouvido. O brasileiro não se importava com a fome do Nordeste, mas se importava com a guerra do Vietnã. Estavam preocupados com o que a África do Sul fazia, mas pouco interessados nos problemas do próprio Brasil. Então, nesse momento em que a crítica se torna acirrada a respeito do que mais valorizamos como povo brasileiro, ele toma a iniciativa que, para mim, foi a mais proveitosa dentro do livro.

Ele reclama da esquerda. E sua reclamação é tão atual que eu consegui sentir o riso se perder e se achar dentro de mim. Nelson fala claramente mal da esquerda, e não porque ele não concorde com pautas humanitárias. Em nenhum momento, ele se pronuncia a respeito disso, deixo bem claro. O que Nelson frisa, repete e assina embaixo - e me levou junto dele - é da capacidade da esquerda de pensar, em alguns momentos e, em outros, parecer que não. A capacidade da esquerda de preferir dialogar com ela própria e não tentar dialogar com o próximo e crescer, mas, principalmente, a capacidade da esquerda de ferir os próprios ideias em um narcisismo tão tremendo que não se tornam melhores do que a direita conservadora. A esquerda não dialoga com o povo brasileiro, a esquerda é feita de militantes ricos que não sabem a necessidade do povo, mas querem falar sobre essa necessidade, essa fome como se fossem o povo.

A esquerda contemporânea carioca, que é a citada por Nelson - embora eu ache que não se resuma a ela - é a mesma daquela época, pessoas que vivem na Zona Sul, podendo realizar suas vontades e necessidades enquanto acham que pensam a respeito do pobre, do favelado, do negro, dos oprimidos e minorias da sociedade. A mesma esquerda que se apropria da voz para falar o que não viveu e que, ao ouvir uma opinião contrária, fecha-se em si mesma. Que Brasil melhor é esse que a esquerda busca se não tem diálogo?

Como Nelson diz dentro do livro: "a arte da leitura é a releitura". Mas quando cita isso, embora fale sobre os clássicos e livros, ele também cita sobre o próprio pensamento crítico. O pensamento que morre dentro de si mesmo e não se reinventa, principalmente, relê a si mesmo. Logo, é impossível não notar que sua "nota realista" tem uma crítica tão aprofundada a esse afunilamento, a esses "requintes de sociabilidade" que discutem Marx sem sequer terem o lido, em um egocentrismo tão grande que a opinião vira uma verdade absoluta e quem não concorda só merece o espanto.

As críticas de Nelson são extremamente presentes e me parecem, cada vez mais, em um país que o diálogo morre, que vão se tornar ainda mais contemporâneas. Nelson já gritou, já uivou, falta alguém se importar em escutar o óbvio do óbvio, o óbvio ululante.

"O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo".

NELSON RODRIGUES


REFERÊNCIAS

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 2001.
RODRIGUES, Nelson. O Óbvio Ululante: as primeiras confissões. 5ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.