RESENHA #09: AS CAMADAS DE UM HOMEM

02/11/2017


AS CAMADAS DE UM HOMEM

RESENHA #09


AUTOR:
Stephen King
SINOPSE: No ano de 1922, a vida de Wilfred Leland se torna um verdadeiro inferno. Sua esposa está decidida a vender suas preciosas terras, afastá-lo do filho e levar consigo tudo que - para Wilfred - tinha valor. Contudo, para contornar a situação, precisará assassinar o problema. 

Minha primeira­­ experiência com Stephen King não foi como andar em um carrossel bonito em uma tarde animada. Na verdade, minha primeira vez com ele foi como andar em uma montanha-russa desgovernada em uma velocidade tão alucinante que fez com que meus olhos saltassem das órbitas. Talvez essa seja a única maneira. Não existe um jeito fácil de entrar no universo de King.

O primeiro contato que tive, dentro dessa literatura do mestre do horror, foi com o conto "1922". Essa narrativa abre a sua antologia intitulada "Escuridão total sem estrelas". Nessa história, vamos conhecer nosso narrador, Wilfred Leland, sua esposa Arlette Christina Winter James e seu filho, Henry Freeman James. Eles vivem em uma fazenda no Nebrasca, resultado da combinação das terras da família de Wilfred e de Arlette.

Wilfred é típico homem do interior da década de 1920, época em que o conto se passa, como pode se perceber no título. Seus dias são dedicados à sua plantação e seus animais, cuidando de cada detalhe enquanto, ao mesmo tempo, passa o seu conhecimento para o filho. Seu orgulho é sua terra como também o fato de trabalhar de sol a sol, construindo algo importante que será deixado para seu único herdeiro. É um personagem que pode parecer muito simples, mas que vai se compondo de camadas cada vez mais profundas e complexas.

Arlette é a típica mulher do interior que sonha com as luzes da cidade grande. Assume o clássico papel da mulher dos anos 20, mãe e dona de casa, dedica seus dias a cozinhar, limpar e cuidar dos homens em sua vida. Contudo, ela não é feliz com a vida de moça do interior e sonha em viver na cidade, abrindo sua própria boutique de vestidos. Mas deve-se lembrar que sonhos podem custar caro e, abrir uma boutique, é uma evolução em sua vida que custa um dinheiro que não possui.

Henry é o típico filho do interior, que aceita desde muito cedo que seu destino é substituir o seu pai no cuidado com a terra. Vivendo quase totalmente isolado, suas únicas referências são os pais - que tem um grande poder sobre ele - e a religião, como todo bom menino de interior. Um personagem que desde sempre foi apresentado às perspectivas pequenas e concorda com cada uma delas.


"E será que o inferno existe mesmo? Ou fazemos o nosso próprio inferno aqui na Terra?"


Os três são os elementos principais do desastre, os pilares de um drama assustador. Tudo começa a ruir quando a família recebe uma proposta: uma empresa gostaria de comprar o terreno para construir um abatedouro de porcos. Arlette vê nessa proposta a chance de mudar de vida e realizar seus sonhos na cidade grande, uma vez que - agora - tem dinheiro, embora ele não seja composto por notas, mas sim por hectares de terra. Wilfred vê a ideia como uma ofensa e um pesadelo, imaginando sua plantação destruída e seu riacho contaminado por lixo e restos de porcos. Nesse processo, Henry só vê seus pais brigando - dia e noite.

A briga entre os personagens inclui a venda das terras, um possível divórcio e a guarda do filho. A mãe procura um advogado e decide que irá vender as terras que herdou de seu pai, decidida a mudar-se para a cidade grande e levar Henry consigo. Então, nesse momento, Wilfred vê-se em um beco sem saída e mostra sua primeira camada, talvez a mais perturbadora delas.

Decidido a proteger suas terras, ele começa a persuadir o filho a tomar seu lado naquela discussão. Assusta o menino de apenas quatorze anos com fatos terríveis sobre a vida na cidade, sobre nunca mais ver seu pai, sobre nunca mais cuidar da fazenda, sobre céu, inferno e pecados, alimentando uma ideia poderosa: nada precisa mudar se sua mãe desaparecer. Arlette era não só a rachadura em seu mundo perfeito - de tudo o que ele conhecia - como também era aquela que ameaçava arruinar tudo o que construiu. Para o velho fazendeiro, todo aquele discurso ainda não era o suficiente para dissuadi-lo, dessa forma, Wilfred decide usar Shannon, a filho do vizinho e a menina que Henry ama.


"Dizem que o amor é cego, mas este é um axioma tolo. Às vezes, quem ama vê até demais."


Wilfred planta aquela poderosa ideia na cabeça de seu próprio filho com o mesmo cuidado e destreza que planta seu milho. Entretanto, uma ideia não precisa de tanto tempo para criar raízes, principalmente, quando regada constantemente com palavras de incentivo. Assustado e apaixonado, Henry concorda com a ideia de que sua mãe é a personificação de todos os seus problemas, o último obstáculo entre ele e a felicidade eterna.


"Quando a cabeça dos adolescentes não está girando como um cata-vento em um vendaval, eles são inflexíveis como puritanos."


Em uma noite, Wilfred concorda com os planos de sua mulher e começa uma comemoração. Sabendo que ela continuaria bebendo enquanto ainda houvesse vinho por perto, o fazendeiro fez questão de manter o copo cheio e a expressão vazia. Arlette, por sua vez, conversou com Henry sobre sua paixão por Shannon e distribui conselhos sexuais, com uma coragem e desprendimento que só o álcool concede, fazendo a fúria do filho ferver ainda mais. Enquanto isso, o marido apenas a observava, tranquilo e completamente ciente do que faria a seguir.

Mostrando-se um homem frio e calculista, Wilfred leva a mulher para cama, embriagada e incapaz de caminhar sozinha. Em seguida, coloca seu plano em ação. Há uma urgência: ele precisa matar sua mulher para que ela não possa vender suas terras. Henry sugere ao pai que a sufoque com um travesseiro, uma bagunça muito mais fácil de ser limpa depois, porém, nesse instante, Wilfred mostra mais uma de suas camadas. Por debaixo da calma contida de homem pragmático do interior, queima uma raiva incandescente pela mulher. Ele não quer apenas se livrar da ameaça; ele quer fazê-la sofrer.

A história vai muito além de como a tragédia contaminou as terras e a vida de Wilfred. Agora, o personagem é assombrado por uma Arlette morta e parcialmente decomposta. A próxima camada de Wilfred talvez seja uma que nem ele mesmo conhecia até o momento. Uma nova camada que precisa lidar com o fato de que algumas coisas não podem ser resolvidas com o seu pragmatismo. Algumas coisas são muito mais profundas e complexas de serem processadas.

Um fator recorrente e relevante é a presença dos ratos durante o decorrer da narrativa. Esse animal terá uma acepção diferente em cada cultura, porém, fica claro que Stephen King o utiliza especificamente dentro da narrativa, aproveitando-se da cultura europeia e de seu simbolismo. São considerados, entre suas referências simbólicas, um símbolo de avareza e cobiça, capazes de definirem a decadência do personagem e, de certa forma, também passam a assombrá-lo. Como diz no Dicionário dos Símbolos:


"Como assinala Freud em O homem dos ratos (cinco psicanálises), este animal, tido como impuro, que escava as entranhas da terra, tem uma conotação fálica e anal, que o liga à noção de riquezas, de dinheiro. É o que faz com que seja frequentemente considerado como uma imagem da avareza, da cupidez, da atividade noturna e clandestina (o I-Ching junta-se nesse ponto às tradições europeias)."


Esses animais estão ligados à Arlette, a quem Wilfred chega a denominar como a rainha dos ratos. Acreditando que estão sob o comando da esposa assassinada, eles serão vistos como os responsáveis por pontos decisivos durante o desenvolvimento da narrativa, infestando a propriedade e a sanidade de Wilfred. Uma maneira sutil e assustadora de personificar a avareza de Wilfred e mostrar como ela foi sua ruína.

O conto nada mais é do que uma longa carta de Wilfred, confessando seus crimes e pecados. Logo no primeiro parágrafo já somos apresentados ao fator principal: o assassinato da esposa. Dessa forma, o leitor sabe, desde o começo, exatamente no que está se metendo.

Quando li essa história, lembrei-me daquela clássica história sobre o sapo e a água quente. Se você não teve a oportunidade de conhecer, vou te contar. É dito que se colocarmos um sapo em água fria e fervermos, aos poucos, o sapo não notará as mudanças da temperatura da água até que seja tarde demais. Enquanto, em oposição, se o colocarmos diretamente em água fervente, o sapo lutará desesperadamente para escapar. Ler uma história de Stephen King é como ser um sapo em água fria, sendo fervida em fogo baixo. A escrita do mestre do horror é muito detalhada e, por esse motivo, leva um certo tempo para a ambientação ser criada bem diante de nossos olhos. Os grandes pontos da história podem demorar a acontecer e, entre eles, diversos pequenos pontos vão acontecendo. Eles podem parecer até mesmo aleatórios, mas, na verdade, é apenas a temperatura do conto aumentando. Quando eu percebi, já estava tão envolvida naquela água fervente que não fazia sentido tentar sair.

Tive pouco contato com leituras assustadoras e sempre tive uma teoria sobre como elas não eram tão assustadoras assim. Eu costumava pensar que, por mais que o autor descrevesse muito bem uma cena, nós, como leitores, ainda precisaríamos juntar as informações e visualizar o desenrolar em nossa mente. Assim sendo, não imaginaríamos algo além do que sabemos que podemos suportar. Eu acreditava piamente que nossa mente jamais sofreria com autossabotagem.

Minha teoria foi enterrada bem fundo, tão fundo quanto um poço, enquanto lia esse conto. King tem uma destreza em contar histórias que não encontrei em mais ninguém, pois é como se ele sussurrasse cada frase em seu ouvido e elas fossem preenchendo sua mente. De repente, não há mais espaço para suas próprias ideias ou seus mecanismos de defesa. Só o que há é a história e o que King preparou para você. Ler Stephen King foi como ser sufocada por palavras.

Talvez não seja tão assustador como suas obras mais famosas, como "It" e "O iluminado", por exemplo, mas com certeza traz o sentimento que já é característico de King: a incerteza e incredulidade que nos faz questionar a natureza humana e nos mantem acordados à noite.


REFERÊNCIAS

CHEVALIER, J.; GHEERBRANT, A. Dicionário dos Símbolos. 28ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.
KING, S. Escuridão total sem estrelas. Tradução de Viviane Diniz. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.