RESENHA #08: O MUNDO INVERTIDO DA ALICE CONTEMPORÂNEA E SOMBRIA

27/10/2017


O MUNDO INVERTIDO: A ALICE CONTEMPORÂNEA E SOMBRIA

RESENHA #08


AUTOR: Neil Gaiman
SINOPSE: 
Coraline (e NÃO "Caroline", como ela mesmo diz inflexivelmente) acaba de se mudar para um apartamento num prédio antigo. Seus vizinhos são velhinhos excêntricos e amáveis que não conseguem dizer seu nome do jeito certo, mas encorajam sua curiosidade e seu instinto de exploração. Em uma tarde chuvosa, consegue abrir uma porta na sala de visitas de casa que sempre estivera trancada e descobre um caminho para um misterioso apartamento "vazio" no quarto andar do prédio. Para sua surpresa, o apartamento não tem nada de desabitado, e ela fica cara a cara com duas criaturas que afirmam ser seus "outros" pais. Na verdade, aquele parece ser um "outro" completo mundo mágico atrás da porta. Lá, há brinquedos incríveis e vizinhos que nunca falam seu nome errado. Porém a menina logo percebe que aquele mundo é tão mortal quanto encantador e que terá de usar toda a sua inteligência para derrotar seus adversários.

"O mundo será feito novo para você a cada manhã. Se ficar aqui, poderá ter o que quiser"

NEIL GAIMAN 

Todos nós possuímos desejos, sonhos e eternas vontades. O natural do ser humano é desejar algo inalcançável ou criar expectativas e inspirar sonhos que se tornarão ambições futuras, como conseguir das simplórias às mais difíceis coisas, sejam materiais ou não. Contudo, para alcançar cada porção de felicidade, precisamos enfrentar obstáculos, subir montanhas e confrontar os nossos medos.

Coraline, obra encantadora e assustadora de Neil Gaiman, retrata os percursos naturais e os medos mais terríveis que podemos possuir. O livro, que também já possui formato em outras mídias, como quadrinhos e filme infantil, é um apanhado de tudo que o mundo nos proporciona em uma narrativa linear, simples e, ao mesmo tempo, cheia de mistério e fantasia.


"Você realmente não entende, não é? Eu não quero tudo o que eu quiser. Ninguém quer. Não realmente. Que graça teria ter tudo o que se deseja? Em um piscar de olhos e sem o menor sentido. E daí?"


Qual a graça de ler uma narrativa em que tudo se alcança com o simples pensamento? A simples ideia e tudo já está ali? Nós precisamos enfrentar obstáculos para alcançar nossos sonhos, dessa maneira, aproveitaremos e sentiremos o gosto de nossas vitórias. O mesmo ocorre com as histórias que lemos, certo? Nós respiraremos aliviados e sentiremos o nosso esforço recompensado no final da jornada e, de tal maneira, perceberemos que o percurso para alcançar nossos objetivos tanto nos modificou e nos fez crescer como também é um de nossos mais valiosos prêmios ao lado dos nossos sonhos e objetivos. Esse ciclo tão comum dentro das tramas que vemos, é o próprio ciclo da vida, tanto é que a narrativa de Coraline conta com as três fases da vida: a criança, a adulta e a idosa.

A criança é aquela que está descobrindo o mundo, lugar onde as aventuras se tornam fantásticas pelo simples toque e imaginação. A idade adulta está no meandro, no lugar dos sonhos perdidos e das responsabilidades recorrentes, a ocupação eterna de um trabalho geralmente monótono e cotidiano. Por fim, e não menos importante, a idosa. A idosa é aquela em que o místico é capaz de voltar e a fantasia pode renascer em forma de magia ou de metáfora, fase na qual os sonhos perdidos viram sonhos novos em folha, muito embora sejam quase sempre inalcançáveis. É a fase em que a vida passou e a experiência se tornou uma lição, a lição para se passar ao próximo. No caso, à Coraline.

Embora seja uma menina de doze anos, a maturidade e a inteligência da protagonista é espantosa e maravilhosa - assim como toda a narrativa. De suas palavras, sentimos a textura da sabedoria e, em mesma medida, experienciamos a genialidade de suas ações para escapar da Outra Mãe.

Ao falar nessa personagem tão peculiar e vilã da narrativa, percebemos que o maior receio da personagem, dessa nova Alice em um mundo sombrio e cheio de formas na escuridão, não é nada mais e nada menos do que a solidão - e é com esse receio que a Outra Mãe brinca e nós nos vemos temerosos pela personagem tão carismática e exploradora.

A solidão não é algo estranho às crianças criativas demais e que desejam conhecer mais a fundo o mundo, pois elas estão entre a descoberta das novidades do mundo e a vivência das experiências que lhes são destinadas - sem necessariamente fugir delas tão como sem necessariamente aproveitá-las da melhor maneira possível. A solidão se reflete muitíssimo bem na figura da mãe como dominadora e na figura do pai como um omisso, características marcantes tanto nos pais do outro mundo quanto nos do mundo real de Coraline, o que os diferencia de fato é que os outros pais parecem estar muito mais presentes nos buracos deixados pelos pais reais da protagonista e, dessa forma, a Outra Mãe é capaz de chamar a atenção da menina exploradora e até mesmo encantá-la a sua maneira, de um jeito assustador, obviamente, ao ponto da jovem ser capaz de admitir saber a respeito do amor que ela tanto fala durante a narrativa.

A tentação do outro mundo de Coraline, para a protagonista, ao contrário do apresentado na animação, não está nas cores e na beleza a priori do lugar e sim, simplesmente, por ela não estar sozinha e por todos saberem o seu nome. Quantas vezes ela não corrige os outros moradores que a chamam de Caroline?


"Agora, vocês pessoas têm nomes. Isso é porque vocês não sabem quem vocês são. Nós gatos sabemos quem somos, portanto não precisamos de nomes."


A particularidade dos nomes dentro da narrativa é algo brilhante que Neil Gaiman explora muito bem, pois utiliza o recurso do nomear como um contraponto diversas vezes, seja através da figura do gato, dos fantasmas ou até mesmo dos personagens que desconhecem esse outro lugar, onde fica o "outro tudo".

O nome é uma das chaves que destranca os temores de Coraline, tais medos que parecem se apoderar dela, embora, corajosamente, ela se negue a tê-los. A partir da perspectiva do gato, uma figura que representa - desde o passado - o equilíbrio e é capaz de estar nos dois mundos, ela observa, embora o veja como arrogante durante a trama, que o fato de não ter um nome, ou de errarem o seu nome, não é tão importante assim. Você não conhece alguém pelo seu nome e, aos poucos, durante a trajetória da trama, isso vai se tornando cada vez mais evidente e dando cada vez mais força à personagem.


"Os nomes são os primeiros a partir, depois que a respiração se esvai, e a batida do coração. Guardamos as nossas memórias por mais tempo do que os nossos nomes."


São as memórias que nos identificam, que nos presentificam, sejam as nossas ou as dos outros. São essas memórias que nos dão identidade e não, nomes. A partir de suas memórias, como a da coragem do pai, por exemplo, ou até mesmo quando ele a segurava no colo, que a personagem ganha força para enfrentar seus temores. A partir da lembrança dos defeitos, ou o que ela crê serem defeitos, tanto de sua mãe quanto de seu genitor durante o desenrolar da história, é que Coraline vai percebendo o quão distante o Mundo Real e o Outro Lugar permanecem em sua mente e no próprio espaço, mesmo que - fisicamente - sejam iguais e dividam a mesma casa.

Aos poucos, a forma visual modifica-se. Ela percebe que a Outra Mãe é muito diferente de sua verdadeira mãe, por exemplo, por ser muito mais alta e magra. Seu pai também é muito diferente. A partir dessa percepção e memória em mente que Coraline entende que sua família será uma só e distingue que não há nada igual entre os dois mundos. Entretanto, deve-se ressaltar que essa percepção não é feita de forma gratuita, muito menos o lugar no qual ocorre. Boa parte dessa percepção que a protagonista adquire durante a trama é no momento em que ela está presa no espelho, inclusive, junto a fantasmas.

O espelho é um objeto marcado pelo reflexo das aparências, sendo assim, é o simbolismo que Neil Gaiman precisa para determinar entre: o verdadeiro e o que parece verdadeiro mas não é. O auxílio dos fantasmas também não é por acaso, pois fantasmas são criaturas que já ultrapassaram a existência, a própria vida, sendo assim, eles são capazes de vislumbrar, ou melhor, perceber o que está fora dela. São essas duas marcas simbólicas, ao lado do gato, outra figura marcada e cheia de simbolismos, que Coraline consegue ultrapassar esse obstáculo.

Há um grande jogo dentro da trama, esse jogo definirá - em parte - o futuro da personagem e dos seus companheiros, sendo parte crucial do clímax e do desfecho da história. Dentro desse jogo e a partir das aventuras que moldam a narrativa e a protagonista, a menina não se vê mais sozinha, mas em busca de preencher essa solidão com personagens que estão por si mesmos, há muito tempo, sós. Os temores iniciais e que manipulam Coraline vão desaparecendo até o confronto final, em que o gato - que fala - sábio ganha muito destaque.

A luta não é individual. Nenhuma luta precisa ser individual. Em seu coração, ela não está mais sozinha. Coraline é preenchida com algo a mais, um sentimento profundo e uma compreensão muito maior do que leitores inexperientes ou leitores focados demais em uma vida estática poderão alcançar, até mesmo os mais experientes ou os mais sensíveis terão dificuldade em expressar com palavras. Coraline alcançou a sabedoria de alguém que experienciou um mundo às avessas, um mundo que parece muito distante e irreal com seus olhos de botão, mas que, em verdade, é um lugar muito comum, pois é o espaço do desejo pronto e imediato. Um lugar sombrio por ser sem expectativa de dificuldade, por ser sem graça.

Além disso, há nessa narrativa algo que é surpreendente aos jovens leitores e cativa adultos das mais diversas idades: há a compreensão sobre o mundo, a partir dos olhos infantis. O mundo não é um conto de fadas delicado e doce, mas um lugar que pode ser terrível, se você estiver sozinho. Mais há mais! Se você não estiver sozinho - e é quase um apelo -, pelas pessoas que ama, você se torna capaz de enfrentar qualquer perigo.


"Porque - disse ela - quando você tem medo e faz mesmo assim, isso é coragem"


Vou ser bem sincera. Diferentemente do que ocorre na animação, tanto a personagem quanto o livro foram muito mais instigantes e agradáveis. Coraline, como obra, parece mais linear e mais bem estruturada em diversos pontos, que se conectam com lições explícitas quanto implícitas. Coraline, como personagem, parece mais astuta, independente, inteligente, esforçada e integra as suas ideias e opiniões. A própria relação dos pais também é ligeiramente diferente e todo o tom da personagem, graças a isso, modifica-se - e muito, o que não me foi muito aprazível no decorrer da animação.

Esse prazer pode ser usufruído por todas as idades, pois ele, ao lado da personagem e do gato preto que lhe acompanha, ensina lições das mais diversas, mostra a importância de se percorrer percalços, a perspicácia da resolução das situações e, ao mesmo tempo, entrega ao leitor experiente uma protagonista tão palpável quanto humana dentro de uma narrativa infantil. Inclusive, para todos, apresenta uma criança - como todos nós, adultos ou crianças - que precisa experienciar o medo para ser capaz de superá-lo. É nesse mundo invertido que vemos a nossa verdadeira imagem, como num espelho.


REFERÊNCIAS

GAIMAN, N. Coraline. Tradução de Regina de Barros Carvalho. Rio de Janeiro: Rocco, 2003
SELICK, H. Coraline: Collector's Edition. EUA: Universal Studios, 2009.