RESENHA #07: DAS BOLHAS AOS VERSOS

12/10/2017


DAS BOLHAS AOS VERSOS

RESENHA #07


AUTOR: Pedro Bandeira
SINOPSE: Era uma vez uma cidade medieval pacata, risonha e livre: Findomundo. Cada um cumpria seu papel e o povo era feliz na sua simplicidade. Um dia, porém, um estrondo abalou a cidade, seguido por uma labareda cuspida para o céu e um rugido infernal. Houve pânico, correria, confusão. Quando o medo se instalou em Findomundo, eis que surge o herói Dom Pendragon de Cantalupo, vindo não se sabe de onde, determinado a restabelecer a ordem. Que preço Findomundo pagaria por tão inesperada bondade? 

Existem livros que são como buracos negros literários. Uma vez imerso neles, não há passagem de tempo ou leis físicas que se apliquem; o espaço e a temporalidade tornam-se conceitos metafísicos. Se dois corpos não ocupam o mesmo espaço, a literatura permite que dois espaços ocupem o mesmo corpo, quiçá a mesma mente: a do leitor. Existem livros que, não importa de que época você olhe, são atuais, porque não pertencem a uma só idade. Assim é O Poeta e o Cavaleiro.

O tempo é a Idade Média e o espaço chama-se Findomundo; mas, ainda que esteja mesmo nos confins do globo, quase tudo na pequena cidade transporta-nos à nossa realidade. Não é sem propósito que o pequeno monte, fonte de tanto pavor e tensão, chama-se Corcovado. Nome eleito pelo povo, aliás.

Eleições na Idade Média e Corcovado em Findomundo são apenas dois dos indicativos de que O Poeta e o Cavaleiro, na verdade, não está em lugar nenhum senão em nossas mentes. E nas páginas, é claro. Detenhamo-nos nelas. 

Findomundo é uma pequena cidade independente, na qual tudo é votado e aprovado pelo povo. Reis, deputados, primeiros-ministros, princesas e até ladrões. Apenas aqueles cargos importantes e especializados não exigiam eleições. Por isso, funções como sapateiro, bailarina e palhaço nunca eram votadas. Só as assumia quem tivesse verdadeira vocação.

Sendo um antro de concórdia, nada perturbava a paz da cidadezinha. Nunca provocavam e, por isso, jamais eram provocados. Seus impostos eram justos, o ladrão sempre devolvia o que roubava ao fim de seu mandato e, assim, todos seguiam suas vidas tranquilamente. 

Até que, certo fim de tarde, ouve-se um estrondo no alto do Corcovado e, junto ao som, uma enorme labareda de fogo é cuspida para os céus. É então que todos os findomundenses experienciam um sentimento até aquele momento desconhecido para eles: Pânico.

Em meio ao caos, um cavaleiro de armadura e palavras imponentes invade o castelo de Findomundo. Ele traz uma terrível notícia: o estrondo era, na verdade, um dragão. Um dragão de sete cabeças, não menos que isso. 

Tudo que se segue é guiado pelo medo dos habitantes. Acreditando cegamente no cavaleiro das palavras difíceis e ofensas infindáveis, os findomundenses vão, aos poucos, cedendo sua paz, suas crenças e sua forma de vida, na esperança de que o forasteiro os defenda do perigoso dragão cuspidor de fogo. Todos parecem confiar plenamente nas palavras desconhecidas e na argumentação incisiva do desconhecido. Todos parecem prontos a obedecer às suas ordens. Todos... Menos o Poeta. 

Quatro personagens são centrais na trama. O primeiro deles é o narrador - e também vendedor de bolhas de sabão da cidade. Inicialmente, a imagem que se tem dele é de um habitante ingênuo, pouco corajoso e bem otimista quanto às suas próprias vendas, ainda que não consiga sequer embrulhar as bolhas de sabão. Entretanto, pelo uso de certos adjetivos (como "arrogante") e pelo contraste entre os fatos narrados e os juízos que emite, aos poucos o ingênuo vendedor de sabão mostra-se não só dissimulado, mas até - ousa-se dizer - uma chave de ironia.

Chave de ironia porque é por meio do contraste entre o que ele diz, o que acontece na história e a nossa realidade que a ironia é construída pelo leitor. O narrador, através de suas justificativas ingênuas ao excesso e, por vezes, incabíveis, permite ao leitor enxergar a história, especialmente a bondade do cavaleiro, como significando exatamente o contrário do que, a princípio, pretende-se.

Ao se falar em realidade, toca-se não apenas no contexto brasileiro, mas de vários outros países cuja situação, em algum ponto, assemelhe-se à retratada. Tanto é que o monte Corcovado, segundo o narrador, já foi anteriormente eleito Everest e Fujiama, o que remete o leitor a outros ambientes que não o nacional. Entretanto, as tangências entre Findomundo e Brasil são, certamente, mais frequentes. É possível observar isso na comparação que se faz entre a cidade e Benta e Nastácia, duas figuras da literatura brasileira bastante queridas pelas crianças. 

Se o primeiro personagem é considerado uma chave, o segundo é, talvez, um elo: Simão, o homem das rimas improvisadas e soltas ao vento, as quais encontram na liberdade a sua força. Pelo que nos deixa entrever a narrativa, o Poeta é, de todos os habitantes findomundenses, o único que, desde o início, enxerga a desonestidade por trás das pérfidas palavras do cavaleiro. Justamente por examinar criticamente o forasteiro é que Simão torna-se o elo entre Findomundo e a realidade. Através de seus versos, a pequena cidadezinha assume-se (porque já era) uma metáfora da nossa sociedade.

O cavaleiro, terceiro personagem, é de grande interesse por dois motivos: as referências que evoca e as interpretações que projeta. No que diz respeito ao primeiro ponto, seu nome, Pendragon, além de ter sido um título utilizado entre os antigos reis bretões, foi também concedido ao Rei Artur. Não bastando isso, o cavaleiro recém-chegado ainda retira uma espada da terra de forma solene, embora ele mesmo a houvesse fincado. Quanto às interpretações projetadas, elas decorrem das atitudes tomadas pelo forasteiro, as quais permitem lê-lo como um governante opressor, mentiroso e quiçá um ditador.

Por último, um personagem que não o é propriamente: o dragão. Ainda que permaneça oculto durante toda a história, o dragão cuspidor de fogo metaforizou-se em pesadelo para toda uma cidade. Unido a todos os outros elementos metafóricos da narrativa, nada impede que, no fim, seja lido como uma estratégia política comum às ditaduras que enfrentamos no mundo real: o terror. Pelo terror a ditadura se instaura, pela justificativa de esta ser a única salvação. Pelo terror, a opressão se mantém. É por ele que as liberdades pessoais são cerceadas. 

Enfrentamos dragões e Pendragons frequentemente. Infelizmente, nem sempre existem Simões sagazes para ajudar-nos, com seus versos, a desacortinar a verdade. Muitas vezes, ficamos tão ocupados em embrulhar nossas próprias bolhas de sabão que não questionamos quais dragões são ou não reais. É por isso que O Poeta e o Cavaleiro não é só uma leitura infantil, mas necessária. Porque, como os versos de Simão, ela nos faz pensar.

Findomundo é, ao mesmo tempo, uma cidade medieval e o Brasil. Rio de Janeiro e Nepal. Tóquio, quem sabe? Talvez, quando lida por uma criança, a cidadezinha seja o protótipo de perfeição. Se ela crescer mais um pouco, talvez enxergue em Dom Pendragon seu pior pesadelo. Na vida adulta, lutar contra os diversos cavaleiros da realidade talvez seja sua bandeira. 

Para que qualquer um dos "talvezes" torne-se real, é preciso, primeiro, que essa criança leia. É preciso que conheça a cidadezinha para que passe a habitá-la, ainda que apenas em sua mente. Um dia, quando sua mente infantil for capaz de desmetaforizar Findomundo e enxergar como, a um tempo, a cidade é dois (ou inúmeros) espaços, teremos uma nova consciência crítica. Alguém que, como Simão, pense e faça pensar.

Mas que não tarde. O mundo urge por novos Poetas.      


REFERÊNCIAS

BANDEIRA, Pedro. O Poeta e o Cavaleiro. São Paulo: FTD, 2006.