RESENHA #02: GOTAS DE LIBERDADE E FAÍSCAS DE TOLERÂNCIA

21/08/2017


GOTAS DE LIBERDADE E FAÍSCAS DE TOLERÂNCIA 

RESENHA #02

AUTORA: Helene Wecker
SINOPSE: O premiado romance de estreia de Helene Wecker é uma viagem fascinante através das culturas árabe e judaica e reúne mitologia popular, ficção histórica e fábula mágica, com uma narrativa inventiva e inesquecível, escrita de maneira primorosa. Chava é uma golem, criatura feita de barro, trazida à vida por um estranho rabino envolvido com os estudos alquímicos da Cabala. Ahmad é um gênio, ser feito de fogo, nascido no deserto sírio, preso em uma antiga garrafa de cobre por um beduíno, séculos atrás. Atraídos pelo destino à parte mais pobre de uma Manhattan construída por imigrantes, Ahmad e Chava se tornam improváveis amigos e companheiros de alma, desafiando suas naturezas opostas. Até a noite em que um terrível incidente os separa. 

Fé é acreditar em algo mesmo sem provas porque, no fundo do seu coração, você sabe que é verdade
HELENE WECKER

Em um mundo onde precisamos falar sobre nossas relações uns com os outros, esse livro surge com uma narrativa necessária e universal - tanto que seu subtítulo já o relaciona a palavra fábula, provinda do vocábulo latino "fabula, ae" que significava o mesmo que uma narração alegórica, conversa ou relato; sendo esse um relato voraz que geralmente é determinado pela presença de animais ou outros seres mágicos agindo como humanos. Logo, a autora traz, dentro até mesmo do subtítulo, um trocadilho sobre qual é a proposta dessa história: duas criaturas mágicas representando a nós mesmos, humanos, e, como em uma fábula, trazendo ensinamentos.

Diz ser uma fábula eterna, pois pertence ao que somos desde ontem e até o amanhã, sem qualquer distinção social, religiosa ou política. Esse livro fala a respeito do homem, de suas necessidades e, principalmente, no que tange a uma carência presente na antiguidade e no hoje: empatia e tolerância.

A autora, brilhantemente, utiliza o passado e o presente de seus personagens para demonstrar essa carência humana, além de suas crenças, filosofias e devoções - crenças essas que, durante toda a história da humanidade, foram pisoteadas, massacradas e também criticadas a partir de uma visão particular do mundo, fosse nazista ou católica ou cristã. "Golem & o Gênio" não é uma história a respeito do romance que surge entre esses dois personagens, é uma história que trabalha dois universos opostos que se colidem e, com o passar do tempo, respeitam-se e apaixonam-se

Alguns leitores criticaram o livro pela forma com que o romance entre os protagonistas foi tratado, alegaram ser uma história que enrola e se perde quando se trata da relação romântica entre os personagens; no entanto, ao ler o livro, não pude deixar de me questionar a respeito do que induz alguns leitores a crerem e julgarem o livro sob essa perspectiva, observar essa excelente trama a partir desse ângulo.

A forma como a sinopse é apresentada leva o leitor a compreender que essa é uma narrativa que trata sobre como dois seres míticos ficaram juntos, mas não é só sobre isso. Então, antes de encarar essa maravilhosa aventura, sugiro que estejam cientes que a recepção de uma história pode mudar sua perspectiva a respeito dela, por isso, peço para que não leiam esse livro pensando que é sobre um casal embebido de misticismo, pois é - definitivamente - muito mais. "Golem & o Gênio" é uma fantasia histórica extremamente bem ambientada e pesquisada, com relatos verídicos e filosofias veladas que carregam consigo uma pitada do imaginário popular e mítico para representar as figuras em destaque da trama: os imigrantes da virada do século XX. Esse livro não é um romance romântico que enfatiza somente o casal principal, mas um universo inexplorado de uma cidade que foi revisitada múltiplas vezes dentro da literatura.

Ao destacar esse universo inexplorado, também devemos considerar e enfatizar o que torna essa visão literária tão distinta da usual: o ponto de vista abordado dentro da narrativa, diferentemente de tantas outras histórias que são ambientadas em Nova York, pertence aos imigrantes; pessoas que são vistas dentro da sociedade nova-iorquina da virada do século XX - e até mesmo nos dias atuais -, a partir da visão eurocêntrica prestigiada e consagrada, como exóticos. Para comprovar tal afirmativa, tem-se a cena em que Sophia Winston, a única personagem em destaque na trama que não pertence nem à cultura síria e nem à judaica, vai comprar o seu colar de noivado.

Os personagens dentro dessa fantasia histórica são, como já foi mencionado, em quase sua absoluta maioria, são imigrantes ou descendentes de imigrantes que, buscando uma vida melhor ou condições de sustento para a família deixada na terra natal, tentam uma oportunidade em Nova York, no Novo Mundo. Naquela época, o novo mundo era uma nova possibilidade.

Ao contrário desses personagens que também são destacados, bem construídos e possuem sua importância dentro da história, os dois protagonistas foram levados até a cidade americana - cada um em sua fantástica e particular forma - sem desejarem de fato isso; contudo, como todos os outros, eles também eram imigrantes, presos dentro de sua cultura, religião e aparência em um lugar onde a diversidade crescia cada vez mais, perdidos no mar nova-iorquino de novidades, desilusões e experiências. Essa trama abarca dentro de si o ponto de vista da minoria, dos perdidos em uma nova história e em um novo lugar, pois o gênio só conhecia o deserto e a golem não tinha nenhuma experiência de mundo ou de vida.

Qual é a melhor maneira de representar o Novo Mundo - humano - se não a partir da perspectiva de criaturas mágicas que não pertencem a ele, não o compreendem e ainda assim precisam se encaixar? Não seria, talvez, essa a forma com que os imigrantes se viam e, principalmente, ainda se veem? Quantos de nós acreditamos que precisamos nos encaixar nos moldes ditos pela sociedade vigente e nos vemos perdidos com seus conceitos? 

Nos passos hesitantes de Chava e nas aspirações inspiradas de Ahmad, somos capazes de reconhecermos a nós mesmos como faríamos com os personagens presentes nas antigas fábulas, porque embora sejam criaturas místicas de culturas tão distintas e perspectivas em oposição, eles são como um e o outro - um entre eles e o outro como nós.

Contudo, como na nossa realidade cotidiana, esse reconhecimento e aceitação de distintas maneiras de ver o mundo não é simples e nem sequer um processo rápido. Existem múltiplas dificuldades causadas a partir de tensões contínuas, barreiras que sempre parecem se fixar e estabelecer seus padrões, impedindo-nos de seguir em frente com nossas ideias e também com os ideais diferentes dos nossos. O mesmo ocorre com os protagonistas que carregam dentro de si naturezas particulares e, literalmente, opostas.

Chava é uma golem; a etimologia da palavra provém do hebraico golmi, significando o mesmo que "massa informe" ou "substância" que não possui vontade própria ou sequer uma alma. Golem é um boneco feito de barro criado por um rabino ou quem tivesse o conhecimento de um rabino. Da mesma forma que Adão, o golem também vem da terra, do barro; contudo, golem não é uma criatura feita por Deus, mas, pelo homem e, dessa forma, não era possível que o homem - mesmo que santo - fosse capaz de fazer um ser que chegasse perto das criações divinas e tivesse alma. O que causa diversas tensões na narrativa e também gera dúvidas ao personagem que seria o mentor de Chava, o rabi Meyer: A golem não teria mesmo uma alma? Ela seria capaz de algum dia amar mesmo com suas limitações emocionais presas aos vínculos de sua origem de sempre obedecer e não ter seus próprios desejos? Como seria capaz de destruir quem deu o nome que significava o mesmo que Vida?

Do lado oposto, tem-se o djim ou, como conhecido pela cultura ocidental a partir de uma tradução francesa do livro "Mil e Uma Noites", gênio. As etimologias de cada nome demonstram perspectivas distintas a respeito desse personagem mítico; a ocidental - que deu origem a versão inglesa, portuguesa e francesa (jinni, gênio ou genyes) - provém do latim "genius" que simbolizava uma espécie de espírito, levando em conta, a partir de algumas acepções, como espírito guardião. No caso da versão árabe, tem-se djim ou djinn que variam da raiz "g-nn" que significa "estar escondido" e, geralmente, reflete-se em termos como "invisibilidade, dissimulação ou isolamento". Ao contrário do golem, o djim é uma forma feita de fogo e ar criada por Deus. Eles são seres celestiais que se recusaram a curvar-se diante da criação do homem e foram expulsos do paraíso por conta disso. Ahmad é uma personificação perfeita do espírito livre, descompromissado e desprendido de um gênio.

Logo, como duas pessoas/seres míticos de origens tão distintas - uma feita de terra e o outro feito de fogo; uma pelas mãos dos homens e o outro por mãos divinas; uma que se fixa como corpo enquanto o outro seria a personificação da alma -, personalidades tão diferentes - uma fria e sempre tentando controlar seus impulsos, o outro sempre quente e com o desejo intrínseco de se rebelar - são capazes de se aceitarem, comprometerem-se e se amarem? Como são capazes de se reconhecerem um no outro?

Essa é uma questão a ser respondida e construída a partir da leitura do livro. Contudo, no meu ponto de vista, deve ser ressaltado que, ainda que Chava seja extremamente empática e Ahmad aprenda aos poucos a deixar de lado sua apatia, o que me parece é que o desejo e o sonho de liberdade levam os dois a reconhecerem um ao outro. Somos todos tão distintos uns dos outros, tendo ideais tão contraditórios entre nós mesmos: como somos capazes de nos reconhecermos como humanos? Não por um senso biológico, mas como ver no outro o seu lado humano? Como reconhecê-lo e percebê-lo? 


"Olho para o que chamamos fé e vejo apenas superstição e subjugação. Em todas as religiões, não apenas no judaísmo. Elas criam falsas divisões e nos acorrentam a fantasias, quando precisamos nos concentrar no aqui e no agora."


As religiões, em seus respectivos nichos, reconhecem o outro, contudo, não caminham adiante e reconhecem os demais como o próximo. O mesmo funcionava e ainda funciona com as comunidades que se veem a partir de características sociais, psicológicas, religiosas, políticas ou de ancestralidade. As pessoas se prendem aos resquícios de similaridade ao invés de abrirem-se para semelhanças ainda inexploradas.

São essas pequenas novidades, ínfimas semelhanças; essas gotas em um mar que podem trazer consigo a liberdade e faíscas de tolerância que brotam, crepitam e queimam, aos poucos, a intolerância, extinguindo-a dentro dessa tensão onde não é o homem contra o fantástico, mas o homem contra o próprio homem.

Aos poucos, a partir de personagens bens construídos, carismáticos e com histórias das mais incríveis e distintas possíveis é que a autora demonstra que todos podem se ver, somente precisam querer enxergar isso: olhem para o oceano, vejam os fogos de artifício no céu! Um instante, todos seremos capazes de vislumbrar.


Um homem pode desejar algo por alguns instantes, mas uma grande parte dele rejeita esse desejo. Você deve aprender a julgas as pessoas por seus atos, não por seus pensamentos.



ONDE ENCONTRAR: Em todas as livrarias e também no nosso concurso até o dia 27/08/2017.

REFERÊNCIAS

BORGES, J. L. O livro dos seres imaginários. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
FERREIRA, R. A. (orientador). A mitologia árabe e seus desdobramentos. USP, 2016.
NAZARIO, L.; NASCIMENTO, L. Os fazedores de golems. Belo Horizonte: FALE/ UFMG, 2004.