RESENHA #06: REAL OU IMAGINÁRIO? A AREIA SOBRE OS OLHOS DE HOFFMAN

10/10/2017


REAL OU IMAGINÁRIO? A AREIA SOBRE OS OLHOS DE HOFFMAN 

RESENHA #06 

AUTOR: E. T. A. Hoffmann
SINOPSE: O jovem Natanael é apresentado ao leitor por meio de cartas escritas ao seu amigo Lothar, irmão de sua noiva Clara. Perturbado por uma visita inesperada que o remete a uma sinistra lembrança de infância e provoca nele os mais inquietantes pressentimentos, Natanael conta em suas cartas a história do Homem da Areia, segundo a família do menino um homem perverso que jogava areia nos olhos das crianças para depois arrancá-los e comê-los, quando elas não queriam dormir.

Prepare-se para adentrar em uma profunda poça de areia movediça: não há maneira mais eficiente e fascinante de descrever o conto O Homem da Areia, do mestre do romantismo alemão Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffman (1776-1822).

O Homem da Areia é um conto que lida com aquele canto sombrio dos seus olhos ao qual você evita olhar quando se depara de frente a um espelho no meio da noite. A estória fala diretamente com todo ser humano que, movido pela mais primitiva forma de terror, acredita em lendas urbanas, personagens folclóricos e mitológicos, incorporando-os de maneira tão forte ao seu cotidiano que o que antes nos era estranho, passa a ser familiar. Estranhamente familiar...

Essa dualidade entre aquilo que nos é conhecido e aquilo que não é serve de base para o gênero fantástico em sua forma mais pura. Todorov, em seu livro Introdução à Literatura Fantástica aponta:

O fantástico é a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural. (...) É preciso que o texto obrigue o leitor a considerar o mundo dos personagens como um mundo de criaturas vivas e a hesitar entre uma explicação natural e uma explicação sobrenatural dos acontecimentos evocados. 

E onde está a presença do sobrenatural? Bem, Natanael é uma dessas crianças que desenvolveu uma fobia de algo que não existe... ou será mesmo? O enigmático Homem da Areia visitava o pai de Natanael em determinadas noites. Nesses dias, todos da casa eram obrigados a se retirarem a seus cômodos mais cedo, envolvendo sua mãe em um manto de tristeza e deixando seu pai silencioso e apreensivo.

Como a curiosidade de uma criança não se satisfaz facilmente, mesmo após as explicações da mãe de que o nome dado à visita nada mais era do que uma alusão ao sono, Natanael pede que a governanta da casa lhe desvende o mistério, para o qual ele recebe as seguintes palavras:


"(...) então você não sabe? É um homem mau, que vem procurar as crianças que não querem ir para a cama. Joga punhados de areia em seus olhos que tombam ensanguentados, e os apanha, os enfia numa bolsa, e os carrega para a lua para alimentar seus netinhos. Eles estão lá, empoleirados em seu ninho, com os bicos recurvados como o da coruja. E bicam os olhos das crianças que não são boazinhas."


Após a revelação da empregada, as noites de Natanael se viam sob a constante ameaça do Homem da Areia - mesmo após o findar de sua infância, os passos do Homem em direção ao gabinete de seu pai, juntamente com seu "vapor diáfano e cheiro estranho" se alastrando pela casa, lhe causavam um arrepio em seu âmago. Tamanho foi enraizado o terror que despertou nele o mais perigoso dos desejos: ver essa figura que povoava seu imaginário. Tornou-se, então, obcecado com a ideia.

Quando sua emboscada finalmente funciona, ao espiar através da cortina do gabinete de seu pai, ele percebe que o Homem da Areia se tratava de um advogado, Coppelius, que, às vezes, almoçava com a família. Isso, ao invés de dar cabo ao tão longo problema que mantinha Natanael hospedeiro de sua mente imaginativa, faz com que a figura do Homem da Areia se torne duas, três vezes mais ameaçadora:


"Contudo, o Homem da Areia não era mais - para mim - aquele espantalho da história da governanta, que roubava olhos de crianças para alimentar sua ninhada de corujas na lua. Não! Era um monstro fantástico, odiento, e que, por onde passava, levava a tristeza, a tormenta e a perdição neste mundo e no outro."


Em seguida, quando supomos que todos eventos sobrenaturais tinham suas devidas explicações, somos levados a um dos momentos clímax da narrativa: por trás de um armário embutido, havia um "nicho negro com fornilho", no qual se guardavam os mais bizarros utensílios. A face do pai próxima ao fogo o converteu "numa máscara feia, repelente, do demônio". À volta de Coppelius, estavam aquilo que é descrito pelo narrador como "rostos humanos, mas, sem os olhos" - item esse exigido pelo Homem da Areia aos gritos.

Apavorado, Natanael sai de seu esconderijo e é jogado à lareira, sendo seus olhos o novo alvo dos desejos de Coppelius. O pai, entrementes, implora pelo bem-estar do filho, que é acatado parcialmente: as articulações do menino são estaladas pelo homem e o menino desmaia. Aquela não era, contudo, a última visita de Coppelius: era apenas o começo de todo o horrível destino de nosso protagonista.

O Homem da Areia mexe com nosso imaginário, mas também, com aquilo que nos é real. Por fim, ele existe ou não? Em algumas passagens da própria obra, esse assunto é colocado em pauta. Em uma carta de Clara, o par romântico de Natanael, ela alega:


"Se existe potência que seja pérfida, sinistra e hostil em seus objetivos, e que tenha conseguido colocar dentro de nós a sua garra para nos apreender e nos arrastar por caminho perigoso, nefasto - o qual espontaneamente não percorreríamos -, se tal potência realmente existe, teria de se desenvolver dentro de nós mesmos, enquanto nós evoluímos. Teria de ocupar o nosso eu. (...) É o fantasma de nosso próprio eu que, através de seu íntimo relacionamento conosco e de sua profunda influência sobre nossa alma, nos precipita no inferno ou nos transporta aos céus."


A medida que a obra avança, cabe ao leitor a inevitável reflexão: afinal, o que é real? Como poderíamos definir o que é a realidade, se aquilo que vivemos e experimentamos é visto de um único ponto de vista e interpretado sobre a ótica singular de nossa primeiríssima pessoa? Temos, afinal, duas realidades: a interna e a externa, como maravilhosamente descritas ao longo da estória de Hoffman. Qual delas, portanto, nos é verdadeiramente real?

No espetacular texto introdutório do livro Fundamentos da Psicanálise: De Freud a Lacan, escrito por Coutinho Jorge, encontramos a seguinte passagem:


Lacan define o real de diferentes modos, mas em todos eles o que importa é seu caráter evasivo ao sentido. Ele é puro não-sentido, ao passo que é precisamente o sentido que caracteriza o imaginário, e o duplo sentido o que caracteriza o simbólico. O real é 'o que é estritamente impensável', é o impossível de ser simbolizado; o real é, por excelência, o trauma, o que não é passível de ser assimilado pelo aparelho psíquico, o que não tem qualquer representação possível. Por isso, o real é também aquilo que retorna ao mesmo lugar, já que o simbólico não consegue deslocá-lo, e o ponto de não-senso que ele implica se repete insistentemente enquanto radical falta de sentido. 


A realidade dualística de Natanael está aqui descrita: nos falta um sentido completo. Independente de para qual olhemos, ela está marcada por um trauma, algo que não foi plenamente assimilado por ele: de um lado, o destino do pai; de outro, a existência do Homem da Areia. E, por mais que tente fugir disso, Natanael acaba sempre retornando a esse mesmo ponto, seja espacialmente falando - retorno a sua cidade natal - ou metaforicamente - retorno àquilo que lhe perturba.

Falando em retornos... O Homem da Areia é mais que um personagem literário, é também uma figura folclórica amplamente conhecida no mundo, com uma lista numerosa de nomes, como Sandman, João Pestana, Pedro Chosco, etc. Sua origem é tema de debate, mas, a um bom observador e conhecedor mínimo da história, sabemos que boa parte de toda a cultura ocidental tem início na Grécia. Hypnos, o deus greco-romano do sono era irmão gêmeo de Thanatos, o deus da morte, e marido da deusa da noite, Nyx. Hypnos e sua esposa tiveram Morpheus, o deus dos sonhos. Note aqui o íntimo relacionamento entre a noite, o sono, os sonhos e a morte - temáticas bastante exploradas pelos mais diversos escritores.

Com a ascensão do Cristianismo por toda a Europa, os deuses do Panteão, contudo, tomaram outras formas para seguirem existindo: santos, demônios, fadas e outros seres das lendas e do folclore europeu. Em cada país, o Homem da Areia ganhou características diferentes e, logicamente, foi retratado pelas literaturas locais. As versões mais difundidas são: 1) Ole Lukøje (1841), conto dinamarquês escrito por escrito por Hans Christian Andersen, no qual o Homem da Areia é uma criatura simpática que gerencia os sonhos das crianças - sem qualquer espécie de punição severa para aquelas que foram desobedientes; 2) Sandman (1989), a HQ britânica de Neil Gaiman; 3) Der Sandman (1816), de E.T.A. Hoffman, aqui resenhado.

Abrimos, ainda, um último parêntesis para discutir o papel da areia, que imediatamente nos remete aos textos bíblicos. Porque tu és pó e ao pó hás de voltar... bastante simbólico, não acham? A areia também carrega a ideia cíclica, de algo extremamente vasto que pode se dispersar com facilidade, e que pode nos envolver de forma trágica (retorno à ideia da areia movediça do início do texto - quando mais se luta para escapar dela, mais nos afundamos, o que foi claramente o caso de Natanael). Ela pode ser plástica, moldando-se sob as mãos de quem a manuseia: assim como a realidade.

Real ou imaginário? Seriam os personagens sobrenaturais apenas projeções de nosso inconsciente, ou eventos que, de fato, podem acontecer? Em qual de nossas realidades, interna ou externa, vive o demônio de Natanael e os nossos também? Leia o conto e nos diga nos comentários.


REFERÊNCIAS

HOFFMAN, E.T.A. O Homem da Areia. Tradução de Fernando Sabino. Rio de Janeiro: Imago, 1993. Disponível em: https://estradadoslivros.org/suspense-misterio/o-homem-da-areia-e-t-hoffmann/
JORGE, M.A.C. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan - vol. 2. 1ª ed. Zahar: Rio de Janeiro, 2010. Introdução Disponível em : https://www.zahar.com.br/sites/default/files/arquivos//t1361.pdf7
TODOROV, T. Introdução à Literatura Fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2007.