DICA #06: POR QUE TANTOS PORQUÊS?

14/11/2017


POR QUE TANTOS PORQUÊS?

DICA #06

"Mas... por quê?"

Quem nunca ouviu ou fez essa pergunta? Essas duas palavrinhas mágicas, quando juntas, são a chave para conseguir muitas respostas (e "porque sim" é uma delas, não foi isso que seus pais ensinaram?). O mais estranho disso tudo é que, apesar de usá-las infinitas vezes para perguntar, raramente nos perguntamos sobre elas.

Como raios POR e QUE tem o poder de se unir e gerar tamanho efeito? Seriam os Supergêmeos? Seriam Goku e Vegeta? Esses são mistérios que apenas os próprios falantes podem responder, afinal, eles são os responsáveis pela consagração dessa expressão tão rica que é, ainda hoje, o pesadelo de inúmeras mães e estudantes.

Segundo as gramáticas tradicionais (aquelas mesmas que seus professores usam contra você nas aulas de português), existem quatro tipos de 'porquê'. O primeiro deles é o mais clássico, gosto de pensá-lo como típico das crianças querendo conhecer o mundo.

Por que o céu é azul?
Por que o mar é azul?
Por que eu não sou azul?


Usado principalmente para perguntar, é composto da junção da preposição POR e do advérbio interrogativo QUE. Saber que o QUE, nesse caso, é um advérbio interrogativo talvez lhe ajude a lembrar que ele é usado para fazer perguntas.

Entretanto, o por que separado e sem acento, como é muitas vezes chamado, não é usado apenas em início de frase, como frequentemente os professores acabam sugerindo, nem apenas em perguntas diretas, ou seja, com um enorme ponto de interrogação no final. O 'por que' também é usado em questionamentos indiretos, como aqueles em que se pergunta sem querer perguntar. É bem útil para conseguir informações que você não gosta de admitir em voz alta que quer, como, por exemplo:


Só gostaria de saber por que ele terminou...
Não sei por que você acha isso...


Não sou muito fã dos tais macetes, mas, como se trata de um dos usos dos supergêmeos da língua portuguesa, vou abrir uma exceção.

Toda vez que o por que puder ser substituído por POR QUAL MOTIVO, você deverá usar o POR QUE.

Isso evita a confusão gerada por frases como:


Gostaria de dizer por que fiz isso...


A frase acima não é uma pergunta indireta e, com certeza, não é uma pergunta direta, mas que conserva o sentido de por que como por qual razão. Talvez, soando piegas, nem sempre precisemos perguntar para buscar motivos.

Entretanto, ainda que esse seja o uso principal, não é a única ocorrência do por-que-separado-e-sem-acento (vou chama-lo assim para facilitar). Ele tem usos menos comuns. O primeiro deles é o que ocorre em frases atualmente pouco correntes, como


Ele obteve a felicidade por que tanto lutou


Formado pela junção da preposição POR e do pronome relativo QUE (o 'que' é uma palavrinha extremamente multifuncional), é usado com base em duas coisinhas que são marteladas em nossas aulas de português: a regência verbal (a parte em que descobrimos que alguns verbos pedem preposições, como o típico exemplo "quem vai, vai PARA/A algum lugar") e os pronomes relativos (também chamados pronomes de retomada; o 'que' é um deles). Como esse não é o assunto desse texto, aqui basta dizer que POR QUE, nesse caso, corresponde a PELA QUAL.


A felicidade por que tanto lutou = A felicidade pela qual tanto lutou.


Então, se algum dia você precisar de uma expressão para substituir 'pelo qual' ou 'pela qual', o 'por que' estará lá a sua disposição.

Existe um último uso do por-que-separado-e-sem-acento que é ainda mais incomum, mas que vale mencionar:


A professora mostrou-se interessada por que ouvíssemos sua história.


Resultante da união da preposição POR e da conjunção subordinativa integrante QUE (nome feio, mas eu juro que é um amor e bem útil se você aprende a usar), é, em suma, usado no sentido de "para que". Por ser uma ocorrência pouco usual, diria que já está até em desuso, não vou me estender muito nela. Pode acabar gerando confusão, a última coisa que desejo causar aqui. Entretanto, qualquer questão será muito bem recebida e devidamente respondida nos comentários ou por e-mail.

Passando para outro dos 'porquês', temos o PORQUE. Talvez você o conheça como o por que junto e sem acento, pois é assim que normalmente ele é apresentado nas festas, aulas de português e ocasiões especiais. Apesar de ser apontado como típico das respostas, gosto de pensá-lo como o 'porquê' das justificativas. Essa diferenciação é importante porque nem sempre, quando justificamos, estamos respondendo alguém.

Colocando em termos técnicos, o PORQUE é uma conjunção. Isso significa que ele é, por definição, uma palavra que liga duas orações (frases com verbo). É por esse motivo que o por-que-junto-e-sem-acento jamais aparece em finais de frase, afinal, se a frase está no fim, não haverá outra oração depois para que o 'porque' possa fazer seu trabalho, não é mesmo?

Entretanto, como sabemos, existem vários tipos de conjunção (você deve conhecer pelo menos uma delas a partir daquelas tabelas imensas que os professores adoram passar), e o PORQUE se encaixa em mais de um. A primeira ocorrência - e uma das mais comuns - é como conjunção coordenativa explicativa. Em frases como:


Não abra a Netflix, porque hoje você precisa dormir cedo.


Temos não só um sábio conselho, mas um 'porque' explicativo. Nessa frase, explica-se o motivo pelo qual você não dever abrir a Netflix. A razão para tal é precisar dormir cedo, algo que inúmeras séries e filmes certamente impediriam.

A segunda ocorrência é como conjunção subordinativa causal e, como o próprio nome entrega, serve para apresentar a causa de algo. Quando alguém diz:


Eu fui embora porque aquele idiota estava lá.


A pessoa está colocando a presença "daquele idiota" como a causa de sua partida.

Eu gostaria muito de dizer que o limite entre ambas, explicação e causa, é preciso e que sempre conseguiremos dizer com certeza se se trata de uma ou de outra. Entretanto, existirão casos como:


Eu não vou porque minha mãe não deixa.


Cuja ocorrência fará você se perguntar se é causa, explicação e por que diabos você precisa saber disso mesmo? Mas, acalme-se, pequeno padawan. Dúvidas são normais simplesmente porque o português é uma língua humana, criada por humanos, e ser humano não é nem de longe uma ciência exata. O mais importante é você saber que, quando você precisar ou quiser usar o por que para explicar ou apresentar uma causa, o PORQUE JUNTO E SEM ACENTO é o seu cara.

Existe um terceiro tipo de conjunção no qual o 'porque' também se encaixa, mas, por se tratar de um uso extremamente raro atualmente, apenas citarei a título de curiosidade. Em:


Não fales alto porque eles não te escutem


O por-que-junto-e-sem-acento é classificado como conjunção subordinativa adverbial final, o que, traduzindo, significa que ele é usado para indicar uma finalidade de algo. Hoje em dia, nesse tipo de frase, nós geralmente utilizamos o 'para que', cuja função é a mesmíssima da exercida pelo 'porque' no exemplo acima. Assim:


Não fales alto porque eles não te escutem = Não fales alto para que eles não te escutem.


Por ser um uso já bem incomum, não é necessário que você se detenha tanto nele. A língua caminha para frente, embora muitas gramáticas e suas inúmeras exceções e casos raros tentem nos convencer do contrário.

O terceiro dos 'porquês' é o PORQUÊ, ou o por que junto e com acento. Esse serzinho é muito dependente de um amigo seu, o tal do artigo (seja ele o definido "O" ou o indefinido "UM"). Onde o artigo estiver, o porquê estará. Isso porque o artigo tem o poder mágico de substantivar palavras, ou seja, transformá-las em substantivo. E o porquê é o único dos "porquês" que é um. Sem o artigo e o acento, porquê seria igual ao seu irmão, porque, e jamais gostamos de ser uns iguais aos outros. Além do artigo, outros amigos seus têm esse poder: o numeral (dois, três, quatro...) e alguns pronomes (esse, alguns, nenhum...).


Ah, Letícia, não sei o porquê de tudo isso.


Elementar, meu caro Watson. Pois farei as conexões agora. Lembra-se de que, ao início, falei que o POR QUE (separado e sem acento) era usado no sentido de por qual razão/motivo? Pois o PORQUÊ, enquanto substantivo, significa justamente motivo. É como se todas aquelas perguntas sobre os motivos das coisas tivessem se condensado em uma palavrinha que resumisse o sentido geral da coisa. Assim:


Não sei o porquê de tudo isso = Não sei o motivo de tudo isso.


Agora, toda vez que você não souber a razão de algo, lembre-se de que você não sabe o porquê dela. Será duas vezes uma dúvida, mas pelo menos você estará treinando o uso de um dos tipos de por quê.

O último tipo restante é o POR QUÊ separado e com acento. Ele é tipicamente apresentado como aquele que é "usado apenas em final de frase" ou, mais emocionante ainda, aquele que vem "antes de pontuações". Lendo algo assim, você, que agora é um sábio padawan, deve estar se perguntando o que eu perguntei logo ao início: "Mas por quê?".

O porquê é bem simples, na verdade (sim, estamos treinando enquanto eu escrevo). Não existe nenhuma diferença de sentido entre o por que separado e sem acento com sentido de POR QUAL MOTIVO e o por que separado e com acento, a única diferença entre os dois é o acento. Então, com isso temos duas grandes perguntas:

1) Por que o acento faz tanta diferença?

2) Por que os demais sentidos do por que separado e sem acento (lembrem-se de que citamos três usos) não permanecem quando ele é deslocado para o final da frase?

A resposta para a questão do acento é bem simples, na verdade: é uma questão de entonação. O QUE é uma palavrinha que, quando falada no final da frase, deixa de ser átona e se torna tônica, ou seja, nós a pronunciamos mais forte. Entretanto, essa não é a pronúncia típica do QUE. É por isso que o acentuamos graficamente: para demarcar que aquela não é a sua pronúncia habitual, mas que, ali, ela ocorreu. Então, em 'POR QUÊ', é isso que o acento significa.

No caso do PORQUÊ, a acentuação serve também para diferenciá-lo do PORQUE, até porque, no caso, há uma diferença de sentidos implicada.

A resposta para a segunda pergunta não é tão simples e tem a ver com as funções desempenhadas pelo QUE (eu disse que era uma palavrinha muito multifuncional). Para resumir, os outros dois usos dependem de uma segunda oração que venha depois e, em final de frase, isso não pode ocorrer, pois é o fim (literalmente). É um motivo semelhante àquele que expliquei quando falei do PORQUE.

Bom, pequenos gafanhotos... Chegamos ao final da jornada. Foi um texto árduo e bastante pesado, parabenizo-o por atravessá-lo até o fim. A vida já é um eterno "por quê?" sem resposta, não precisamos que os tipos de 'porquê' também sejam um.

Espero tê-los ajudado nisso


Para saber mais: 

SARMENTO, L. L. Gramática em textos. São Paulo: Moderna. 2005.