DICA #02: OBSERVANDO O MUNDO - COMO FALAR SOBRE AMBIENTAÇÃO

16/09/2017


OBSERVANDO O MUNDO: COMO FALAR SOBRE AMBIENTAÇÃO

DICA #02

Nós vemos, sentimos, experienciamos o mundo a todo momento. Falar sobre ambientação é como falar do mundo: o que você vê, o que você sente, o que você experiencia. Contudo, diferente do mundo que sentimos o cheiro, saboreamos as cores e desbravamos os pequenos espaços entre nós e cada pequena informação, a narrativa não necessariamente vai lhe trazer isso de cara.

Pois é. Essa é uma relação entre você e a narrativa, obviamente. Mas como falar do ambiente dentro da narrativa se ela não necessariamente aparece automaticamente para você?

Esse é o primeiro ponto a ser julgado: você consegue entrar no mundo? Desbravar as cores, sentir os cheiros, tocar os espaços vazios e transformá-los em preenchidos de informações? A narrativa te proporciona os detalhes para ver o mundo literário da mesma forma - ou de forma semelhante - que você vê o mundo real?

Após responder essas questões, você já deu um passo, o seu primeiro passo. Um passo para falar sobre ambientação. Se você conseguiu entrar no mundo, explorá-lo como só o mais exímio explorador é capaz de fazer: ponto para a narrativa e para você! Fale que conseguiu e também comente sobre o que você conseguiu nesse processo. O que você sentiu? O que você acha que, com o pensamento, seria capaz de tocar? Você sentiu algum gosto? Você acha que aquele prato foi tão bem descrito que te deu água na boca? Após dizer que sim, diga o que conseguiu ver, tocar e sentir, depois, explique o motivo.

Explicar o motivo nunca é fácil. Explicar por que aquele texto de toca ou por que ela ambientação lhe pareceu tão palpável? Como fazer isso? É um processo complexo, eu sei, mas não impossível. Se você já consegue dizer o que te toca, você já deu o seu segundo passo, agora, explicá-lo parece quase impossível às vezes, mas vamos tentar desmistificar isso.

O que numa narrativa chama a sua atenção? São as palavras escolhidas pelo autor? É a forma como ele trabalha as frases? O que, ao olhar para o texto, chama a sua atenção? Pensou bem? Às vezes, você ainda não descobriu o que é, mas vai descobrir pouco a pouco, olhando para cada narrativa. A minha, por exemplo, em âmbito geral, é o uso de metáforas. Eu amo textos que possuem muitas metáforas e metáforas bem-feitas, claro. Logo, o que eu sempre levo como o ponto mais alto e positivo, quase todas às vezes, é o momento em que a narrativa explica o seu universo e mundo a base de metáforas, as minhas queridinhas. Contudo, nem sempre existem metáforas em um texto e gosto mesmo assim: por quê? O que existe nesse texto que fez com que aquela ambientação fosse tão palpável e rica? Foram as metáforas? Foi a descrição detalhada?

Cada narrativa terá o seu detalhe e a sua particularidade, além da forma - ou formato - que vislumbramos o mundo, pois eu vejo o mundo de uma forma, o autor da narrativa de outra, o leitor de outra, e aquele outro leitor de uma completamente diferente! O mundo é cheio de visões e todas elas são mágicas, descrevê-lo em palavras é como usar a magia em prol do próprio cosmos. Então, respondendo à pergunta de como explicar e dando o seu terceiro passo para completar seu comentário a respeito de ambientação é diga o que dentro da narrativa foi tão bem elaborado que te fez sentir o que sentiu. Dizer o que tem dentro da narrativa que te faz sentir é o mesmo que explicar. Às vezes, nós, mesmo assim, continuamos não sabendo o motivo - porém, podemos desenvolver cada vez mais a sensação de estar naquele lugar maravilhoso e ficcional.

Mas e se a minha resposta foi não? Eu não senti nada, eu não estava na narrativa? O que fazer? A culpa pode ser tanto sua quanto da própria narrativa, da mesma forma que a narrativa faz pontos - muitos pontos - para que você adentre no texto, ela também pode te prejudicar a entrar no texto, pois não foi bem executada e nem bem elaborada. Como também, de equivalente maneira, às vezes, nós não estamos dispostos naquele momento na hora da leitura: é um trabalho duplo, mas se você não sentiu que estava lá, não minta que esteve.

Se a sua resposta for não, não me senti na narrativa, o seu segundo passo é dizer: por quê? O que naquela narrativa não estava no lugar? Por que você não conseguiu montar o mundo na sua mente? Explique, de maneira educada e sempre crítica os motivos que lhe levaram a não adentrar ao mundo, por que aquele peixe laranja e branco pareceu tão afastado do mar? Por que aquele oceano límpido e azul não apareceu para você enquanto lia o texto? Diga ao autor, mas - sempre, repetindo - com educação e de maneira a ajudá-lo. Se acha que o que vai dizer é ofensivo: não diga.

Mas o que dizer nesses casos? Experiencie a narrativa, observe-a no geral e se pergunte: onde está a ambientação? Você a achou? Se não a achou, diga: caro autor, eu não encontrei nada que falasse sobre a ambientação; você se esqueceu de descrever seu mundo, senti falta disso; etc. Tudo que mostre para ele que falta a descrição, o espaço! Mas se ele escreveu e mesmo assim você não sentiu? Mostre para ele o que faltou, como dizendo que faltou mais detalhes da descrição, como, por exemplo, tal coisa ou aquilo ou aquele outro.

A última pergunta é: o que precisa ter em uma ambientação? Nós sabemos que precisamos nos imaginar lá, mas o que nos proporciona isso? O que pode nos proporcionar tal ambientação é a descrição dos lugares e objetos (características físicas); adjetivos e metáforas; época dentro da narrativa (aspectos psicológicos, morais e religiosos, além de socioeconômicos).

Sabendo o que te leva a chegar lá, o que traz toda essa mistura de realidade e ficção, você é capaz sim de falar a respeito. Não deixe de falar, nunca, pois da mesma forma que você se encanta ao ler histórias, um autor se apaixona por cada comentário.