MINICLUBE #01: A ESTRUTURA NARRATIVA DE ILEANA SIMZIANA

04/10/2017


A ESTRUTURA NARRATIVA DE ILEANA SIMZIANA

TEXTO DE APOIO #01


Existe uma ideia de que narrativas fantasiosas são sempre voltadas para crianças, que contos de fadas são narrativas para entreter os jovens na primeira infância e, após isso, de nada mais importam. Existe uma prorrogativa e uma perspectiva que tendem a diminuir a grandiosidade que são os contos de fada. No entanto, e se eu lhe contasse que Tolkien diz exatamente o oposto? Que, entre muitos estudiosos e nomes célebres da literatura, pensam o completo contrário?

Os contos de fadas são parte intrínseca do homem tal como os mitos. Tolkien, em seu livro Árvore e Folha, comenta que, na verdade, vivemos em mundos contrários; nosso mundo é uma mentira e as histórias de fadas falam sobre o verdadeiro lugar, o Belo Reino. Também relata sobre a primeira vez registado em um dicionário, o termo vem desde 1750, com três sentidos: lendas sobre fadas, história irreal ou incrível e uma falsidade.


Porque é o homem que é, ao contrário das fadas, sobrenatural (e muitas vezes de estatura diminuta), ao passo que elas são naturais, muito mais naturais do que ele. É essa sua sina. A estrada para a terra das fadas não é a estrada para o Paraíso - nem mesmo para o Inferno, creio, apesar de alguns terem afirmado que ela pode conduzir indiretamente até lá pelo dízimo do Diabo.


Como os mitos, com o passar do tempo, os contos de fadas passaram a ser considerados inverdades, sendo que são as verdades intrínsecas do homem, tanto é que a etimologia da palavra fada provém de fata, em uma correspondência para o português, significava "fado, destino". Logo, menosprezar os contos de fadas, como diria Bruno Bettelheim, é menosprezar toda uma psicanálise e função presentes dentro deles. Mas que função é essa dentro dos contos de fadas? Arthur Schlesinger Jr diz que, como escrever os contos clássicos, os contos "contam às crianças o que elas inconscientemente sabem - que a natureza humana não é inatamente boa, que o conflito é real, que a vida é severa antes de ser feliz -, e com isso as tranquilizam com relação a seus próprios medos e a seu próprio senso de individualidade". 

Contudo, devemos lembrar que o conceito de infância veio à tona após o surgimento dos contos de fadas. Philipe Ariès diz que a arte medieval, até o século XII, desconhecia o conceito. Não havia lugar para crianças naquela época, eram pequenos homens - com exceção dos gregos, na época de vigor de sua civilização, que idealizaram o jovem. Somente a partir do século XIII que começam os vestígios da ideia, inclusive, ao que o autor comenta, a idade privilegiada da infância foi apenas no século XVII, onde já era possível distinguir a primeira infância da adolescência.

Então, para quem servia os contos de fadas? Para todos, para todos compreenderem a natureza do homem. Contos como, por exemplo, Chapeuzinho Vermelho já eram contados desde muito tempo e demonstram uma relação macabra de estupro e abuso. Os contos de fada servem para mostrar não somente a natureza do homem, mas também a natureza da própria sociedade e se adentram, intrinsecamente, em sua estrutura narrativa.

Muitos autores com o passar do tempo, desenvolveram técnicas, escreveram teorias e tentaram desvendar os segredos por trás da permanência dos contos de fadas até a contemporaneidade. Por que, ao contrário de muitas narrativas, eles persistem e permanecem? No livro, "O Herói de Mil Faces", Joseph Campbell traça a ideia do monomito, também conhecido como "Jornada do Herói". É uma forma simplificada de como as histórias se estruturam e se desenvolvem. Dentro dela, existem três atos.



Esses três atos são primordiais, falam sobre o mundo comum, cruzamento do limiar e, principalmente, para o conto de Ileana Simziana, a ressurreição. A estrutura do conto Ileana Simziana segue, passo a passo, o monomito de Campbell. Isso faz dela, de alguma maneira, menor ou menos intrigante? Não, pelo contrário, demonstra o quão intrínseco dentro de nós essa estrutura é e permanece.

Além disso, podemos complementar essa teoria de Campbell utilizando outro autor muito famoso quanto ao estudo dos contos populares - algo que Ileana Simziana é, como já vimos no texto anterior desse miniclube - e do estruturalismo russo: Vladimir Propp.

A sua ênfase eram os contos populares russos, contudo, como já foi dito mais de uma vez durante o decorrer desse texto, os contos populares são intrínsecos, muito embora seus detalhes e acepções estejam voltados diretamente para seu povo e o seu tempo. Logo, utilizar Propp é não somente possível como também plausível.

Vladimir Propp diz que os personagens são a esfera da ação, para representar bem essa referência, utilizamos algo da cultura pop, as próprias esferas do dragão - que também, em sua contagem total, são sete.



Cada uma dessas esferas contém um personagem ou cada personagem contém uma ou mais dessas esferas. O importante a dizer é que esses personagens sempre aparecem nos contos populares, seja cumprindo uma ou mais de uma função. O rei, pai da protagonista da narrativa, por exemplo, é tanto o pai em busca de auxílio como também é o agressor, em dado momento da narrativa; temos como auxiliar e até mesmo doador os cavalos que doam o seu conhecimento e auxiliam a protagonista em sua jornada.

Esses dois tipos de estruturas, seja a formulada por Campbell ou a formulada por Propp, ajudam-nos a compreender as especificidades que os contos de fadas possuem, inclusive, demonstram que a sua estrutura não difere em nada dos grandes clássicos da literatura. Rebaixar os contos de fadas é, tão somente, rebaixar toda a criação literária desde a Antiguidade até o presente momento. Como diria Tolkien:


Uma "história de fadas" é aquela que resvala ou usa o Belo Reino, qualquer que seja sua finalidade principal - sátira, aventura, moralidade, fantasia. O próprio Belo Reino talvez possa ser traduzido mais proximamente por Magia - mas uma magia com disposição e poder peculiares, no polo mais afastado dos artifícios vulgares do mágico laborioso e científico. Há uma ressalva: se houver alguma sátira presente na narrativa, de uma coisa não se deve zombar: a própria magia. Nesse tipo de história ela precisa ser levada a sério, não deve ser motivo de riso nem de muitas explicações.


REFERÊNCIAS

ARIÈS, P. História Social da Criança e da Família. Tradução de D. Flaksman. Rio de Janeiro: LTC, 1978.
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Tradução de Arlene Caetano. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2008.
CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1997.
ELIADE, M. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 2002.
KOTHE, Flávio R. O herói. São Paulo: Ática, 1987. (Série Princípios).
PROPP, V. As raízes históricas do conto maravilhoso. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
______. Morfologia do Conto Maravilhoso. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1984.
TOLKIEN, J. R. R. Árvore e Folha. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
TURNER, M. The literary mind. Oxford: Oxford University Press, 1996.
VOGLER, C. A Jornada do Escritor. São Paulo: Nova Fronteira, 2006.
<https://origemdapalavra.com.br/site/palavras/fadas/>; consultado em 20/09/2017 às 16:00hr.