MINICLUBE #01: O FANTÁSTICO, O MÍTICO E O SIMBÓLICO EM ILEANA SIMZIANA

29/10/2017


O FANTÁSTICO, O MÍTICO E O SIMBÓLICO EM ILEANA SIMZIANA

TEXTO DE APOIO #02


No mundo fantástico dos mitos e dos contos de fadas, animais falam, dragões existem e podem possuir múltiplas cabeças, isso não é estranho e nem questionável. Eles não precisam de explicação, pois eles são e existem como qualquer criatura, inclusive o homem.

Esse estranhamento pertence a nós, não aos personagens. Os animais falam, os cavalos presenteiam e o Sol e a Lua têm poderes especiais e influenciam na vida dos personagens. Há magos, bruxas e elfos! O reino que Tolkien diz ser mais verdadeiro que o nosso é mais palpável e mais cheio de vida, como a própria caminhada da protagonista de nosso conto que, presa dentro de um castelo, passou a enxergar o mundo com outros olhos, os olhos da primeira vez. Ela olha os prados, os rios e a natureza e se encanta com sua beleza, tal como nós fazemos quando lemos um conto ou, como ela, visitamos um lugar.

Contudo, a visão da primeira vez dentro do universo de contos de fadas sempre se repete. Como um ciclo e a própria caminhada da personagem é um ciclo que nos leva a vários lugares dentro do seu mundo e se interligam, isso é possível dizer porque suas aventuras são circulares e se voltam para ela própria e a sua existência, a comprovação disso é o próprio final do conto. Tal como esse final, surpreendente para o nosso tempo, esperado no tempo que foi inventado, ele é além da compreensão do comum, ou seja, ele se encontra no próprio fantástico.

Mas quais características se encontram no fantástico ou mítico? O próprio rei, pai da protagonista, começa a nos relatar sobre esse fantástico quando se apresenta como um metamorfo, alguém capaz de mudar de forma, mostrando suas habilidades como um grande mago. Sua forma se modifica por três vezes, sendo esse três pertencente ao simbólico.

O número três simboliza o equilíbrio, cultuado em muitas religiões e ressaltado por Pitágoras como o número do fenômeno, também adentra as principais mitologias como, por exemplo, a mitologia grega, com a tríade Poseidon-Zeus-Hades. Esse número continua a aparecer em muitas narrativas desde o passado e você sempre pode se lembrar de algum trio famoso, seja nos quadrinhos ou nos livros. Você quer exemplos? Harry Potter, A Trindade da DC Comics, Star Wars, Jogos Vorazes, Percy Jackson, entre outros, mais ou menos conhecidos.

Contudo, o três não é o único símbolo dessa narrativa, pois a protagonista passa por sete aventuras. Essas sete aventuras narradas no decorrer do conto popular reescrito por Petre Ispirescu dão a protagonista o que a modifica totalmente: o equilíbrio ou o encontro com a grande espiritualidade. O número sete é representado por diversas vezes dentro do nosso mundo e na natureza, como nos sete dias, as sete cores do arco-íris, além disso, nas histórias também, na segunda saga das aventuras de Percy Jackson, de Rick Riordan, que trabalha a mitologia romana, os personagens centrais passam de três para sete. Você também é capaz de encontrar os sete perpétuos, na narrativa de Neil Gaiman, Sandman ou em A Liga da Justiça, também da editora DC Comics.

A narrativa dos contos de fadas possui sempre animais personificados, uma figura de linguagem conhecida por nós como prosopopeia/ personificação, que representa quando animais ou objetos inanimados ganham as habilidades/características de seres humanos, como se comunicar igual a homens, andar, etc. No conto, há dois animais - esses são irmãos - que representam essa característica tão popular dos contos de fadas ou das fábulas: o primeiro cavalo e o segundo cavalo da protagonista. O primeiro era o velho cavalo de guerra de seu pai e o segundo, já presente na segunda parte da aventura da protagonista, Luz Solar.

Ambos os animais são mágicos, sendo capazes de aconselhar melhor do que homens, prevendo as ações seguintes de todos que os cercam e, principalmente, auxiliando a princesa na consecução de seus objetivos. Da mesma forma que vemos as princesas da Disney sendo ajudadas, por exemplo, no decorrer de suas narrativas, seja por cavalos, dragões de bolso ou peixes.

Há também criaturas do mundo sobrenatural, a etimologia seria da palavra latina supernaturalis, ou seja, o que está além ou acima da natureza - ao menos, a conhecida pelo homem. Figuras como o dragão que aparece ou a ogra estão além dessa natureza presente do cotidiano, logo, são partes desse mítico romeno que envolvem narrativas até a contemporaneidade.

A figura do dragão, por exemplo, é muito conhecida na Romênia. Embora o conto não lhe dê o nome, a partir das características apresentadas, como as múltiplas cabeças, é possível perceber que o dragão tratado é nenhum outro que não Balaur. Você já ouviu falar nessa figura?


(Representação do dragão mítico Balaur, na imagem ele possui sete cabeças e um longo rabo que toca as estrelas)


Balaur está presente em Dugeons & Dragons, mas como são muitos dragões, fica difícil lembrar de um específico, por isso, vamos fazer um apanhado geral sobre essa figura. Dependendo da narrativa, ele pode ter de três até doze cabeças, como no conto de Ileana Simziana - outro número extremamente simbólico na cultura bíblica, visto que o conto tem uma essência religiosa muito forte. Embora o dragão provenha do paganismo, personagens simbólicos da cultura bíblica o enfrentam, como no caso de São Jorge. O doze é o número da cifra sagrada.

O dragão ocidental, ao contrário do oriental, representa a maldade e a destruição, contudo, no conto, o dragão não é parte de qualquer maldade, mas de um obstáculo de prova da protagonista para seguir seu caminho. E, embora não seja dito o nome do dragão, a raiz da palavra "Balaur" é Bel, vinda diretamente do proto-indo-europeu (um protótipo de língua comum das línguas indo-europeias) com o significado de força, o que serviria muitíssimo bem para a protagonista, pois Balaur testa a força de vontade da protagonista como função primordial no conto. Muito embora, deva-se ressaltar que também há outra origem etimológica, a palavra albanesa "Bole" - que tem como significado serpente gigante.

Outra criatura que aparece é a ogra, na narrativa, ela é uma bruxa capaz de se transformar nessa figura. A origem da criatura é claramente europeia, porém a sua vertente etimológica não é muito certa, podendo ter uma raiz originada do latim, que traz consigo orcus - você com certeza irá associar as criaturas de Tolkien - que significa "divindade infernal" ou do alemão antigo ögr que seria um adjetivo, representando - em correspondência para o português - "feio". A ogra presente na narrativa é mais um dos obstáculos que a protagonista deve enfrentar para conseguir realizar os desejos de seu soberano.

Cada um dos conflitos e percalços encontrados pela protagonista está embebido desse universo cosmogônico muito além do cotidiano. Em cada parte, encontram-se flores mágicas que murcham ao entrar em contato com homens, águas sagradas e animais mais sagrados ainda. O conto é uma busca contínua de novas aventuras que, ao findar, são a chave para encontrar o equilíbrio da protagonista.

A característica primordial do conto popular é a de adentrar no mais intrínseco do homem, provendo-lhe aventuras, apresentando-o a heróis e exemplos a seguir. Até no mais profundo abismo, no dragão mais feroz, nas escaladas mais perigosas, você será capaz - como seu herói - de seguir em frente. O herói é o exemplo da sociedade e, a partir dele, muitos se inspiram.


REFERÊNCIAS

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Tradução de Arlene Caetano. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2008.
CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1997.
ELIADE, M. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 2002.
PROPP, V. As raízes históricas do conto maravilhoso. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
______. Morfologia do Conto Maravilhoso. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1984.
TOLKIEN, J. R. R. Árvore e Folha. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
<https://origemdapalavra.com.br/site/palavras/sobrenatural/>; consultado em 27/09/2017 às 18:00hrs.
<https://nineisawesome.wordpress.com/2012/06/05/balaur-the-romanian-dragon/>; consultado em 27/09/2017 às 18:00hrs.