MINICLUBE #01: O FEMININO EM ILEANA SIMZIANA: UMA COMPARAÇÃO COM HUA MULAN

13/11/2017


O FEMININO EM ILEANA SIMZIANA: UMA COMPARAÇÃO COM HUA MULAN

TEXTO DE APOIO #03

Os tempos modernos mostram uma acepção muito melhor quando se trata do sexo feminino, ainda que o caminho tenha muitos percalços e ainda precise chegar ao seu fim - estando longe dele, por sinal. Nós ainda estamos lutando, porém, muitas mulheres antes de nós lutaram pela nossa causa como também suas próprias batalhas.

Duas figuras são muito interessantes dentro desse contexto onde as mulheres eram desprezadas por simplesmente serem mulheres, o que as obrigava a lutarem vestidas de homens. O caso dentro de Ileana Simziana, de uma mulher guerreira que se sacrifica em prol de seu pai, é muito similar a outra narrativa conhecida pela cultura pop, graças ao estúdio de animação Disney. Sim, estamos falando de Mulan.

A origem de Mulan se deve a uma balada chinesa, conhecida como "Balada de Mulan". Embora tenha sofrido alterações no decorrer do tempo, tem-se a tradução, de uma das versões, para a língua portuguesa:


Suspiro após suspiro, 

Mulan tece diante de sua porta.

Ninguém pode ouvir o som do tear,
apenas os suspiros da pobre menina.

Pergunte-a quem está em seu coração,
ou quem está em sua mente.

Ninguém está em seu coração,
e ninguém está em sua mente.

Ela viu os rascunhos militares ontem à noite,
Khan está convocando muitos soldados.

Uma dúzia de listas rascunhadas,
cada uma com o nome de seu pai. 

O pai não tem um filho crescido,
Mulan não tem um irmão mais velho. 

Ela decide adquirir um cavalo e sela,
e alistar-se no lugar de seu pai.

No mercado leste, ela compra um cavalo,
no mercado oeste, uma sela. 

No mercado norte, ela compra um freio,
e, no mercado sul, um longo chicote. 

À alvorada, ela se despede de seu pai e de sua mãe,
ao anoitecer, ela acampa às margens do Rio Amarelo. 

Ela não podia ouvir os pais chamando pela filha,
apenas as águas do rio fluindo. 

À alvorada, ela deixa o Rio Amarelo,
ao anoitecer, ela chega à Montanha Negra. 

Ela não podia ouvir os pais chamando pela filha,
apenas os cavalos selvagens na vizinhança do Monte Yan. 

Viajando dez mil milhas ao encontro da batalha,
passando montanhas e serras como se voando. 

...

Ventos amargos carregam os sons do sino do vigia,
uma luz pálida brilha em sua armadura de ferro. 

Generais morreram em uma centena de batalhas,
os soldados mais fortes retornaram após dez anos. 

Eles retornaram para encontrar o imperador,
o Filho do Céu sentado no palácio imperial. 

Ele recordou seus méritos em doze pergaminhos,
e concedeu centenas de milhares de recompensas. 

O Khan pergunta a Mulan o que ela deseja,
um título de grande ministro não tem utilidade para Mulan. 

Ela pede uma montaria rápida para levá-la a milhares de milhas,
e trazer a filha de volta para casa.

...

Quando pai e mãe ouvem sobre sua chegada,
eles se apoiam até o portão da cidade. 

Quando a irmã mais velha ouve sobre sua chegada,
ela se adorna e a espera em sua porta. 

Quando seu irmão mais novo houve sobre sua chegada,
ele afia a faca e prepara o porco e a ovelha. 

"Abram a porta de meu quarto ao leste, eu sento no sofá de meu quarto ao oeste.
Removo meu uniforme de guerra, e visto minhas roupas dos velhos tempos."
 

De frente para a janela, ela prende seus cabelos macios como nuvem,
no espelho, ela põe flores amarelas. 

No portão, ela encontra seus camaradas,
eles ficaram todos surpresos. 

Lutando juntos por doze anos,
eles jamais suspeitaram que Mulan fosse mulher. 


Lebres machos gostam de chutar e pisar,
lebres fêmeas têm olhos enevoados e acetinados. 

Mas se as lebres correm lado a lado,
quem pode dizer qual é ele ou ela? 

(TRADUÇÃO EPOCHTIMES)


A personagem conhecida como Hua Mulan vai para guerra no lugar de seu pai, ela não busca qualquer prestígio ou recompensa como os demais guerreiros, o que ela busca é - equivalente ao desenho - salvar a vida de seu pai. Entretanto, sua balada não tem necessariamente um final feliz de se casar com o homem por quem se apaixonou durante a guerra e nem mesmo de conseguir voltar para os braços de seu pai.

A fonte de sua narrativa proveio de uma canção folclórica da Dinastia Wei do Norte, do período de 386 a 557 d. C. Contudo, essa narrativa não chegou até o presente, perdendo-se, inclusive, parte do seu conteúdo. A cópia mais antiga encontrada está datada por volta do século XI e XII, da antologia de poemas e canções compiladas por Guo Maoqian.

Logo, como qualquer canto popular, existe mais de uma variante. As mais conhecidas, em minha humilde opinião, são as mais tristes. Na primeira delas, Mulan se apaixona, mas volta para casa sozinha, sem honrarias por desejo próprio e triste pelas marcas que a guerra imprimiu nela. Na segunda, pior que na primeira, Mulan retorna para casa e descobre que seu pai havia falecido, sente-se extremamente sozinha - inclusive sem poder ficar com o homem pelo qual se apaixonou -, nesse tormento, junto às marcas da guerra, ela se suicida. Há outras, como a versão acima, que dão a protagonista um final doce ou até agridoce.

De toda forma, após suas aventuras, Mulan é marcada para sempre - assim como Ileana Simziana. A morte é presente em ambas as histórias, visto que Ileana deixa de ser quem é, numa morte metafórica; enquanto, Mulan morre metafórica - em alguns casos - ou literalmente - em outros -, a depender de sua variação.

Contudo, o que parece ser mais característico dentro dessas semelhanças e o ponto mais forte, de acordo com a cultura local e o próprio machismo do passado, é a recusa de admitir as qualidades das mulheres para além do ofício da casa. Ambas as protagonistas demonstram como são capazes de lutar - não somente com as próprias mãos como com a própria mente. A protagonista do conto de Ileana, ao contrário de sua irmã, busca o melhor cavalo e também o melhor conselheiro, sabendo de sua necessidade. Na mesma medida, Mulan é aquela que consegue sobreviver por mais de uma década, tornando-se - em algumas variantes - uma general de guerra.

Outro ponto interessante dentro das narrativas é a valorização da natureza, demonstrando e ilustrando sempre a vastidão dos campos, o caminho percorrido pelas personagens. Embora pareça ser algo natural das aventuras, nessas narrativas, possui um significado maior. As mulheres, personagens femininas, como narrado no conto de Ileana Simziana, eram criadas para permanecer em casa, no seio do lar, logo, a natureza é a representação da liberdade - que outrora não tinham.

Claro que, em nenhuma das duas tramas, tudo são flores. Para justificar a capacidade de Ileana, ela simplesmente se transforma em homem a partir de uma reza que serviria para amaldiçoá-la. Tal como a protagonista que se torna o protagonista, Mulan não ganha honrarias - em algumas, ela recusa para poder voltar para casa - porque mulheres não podiam lutar e nem ganhavam honrarias nessa época, representando o tempo histórico que a balada retrata.

Os contos do passado e os contos da contemporaneidade divergem e muito sobre a posição da mulher dentro da narrativa. No passado, qual era o espaço da mulher dentro dos enredos? Além de ser a princesa a ser salva ou a serva que anuncia o caos ou auxilia o herói? Aos poucos, as histórias têm se modificado: não há mais princesa ou príncipe a ser socorrido, ambos se ajudam e, nessa ajuda mútua, mostram que os dois lados têm força e não há mais necessidade de transformar uma mulher em homem e, muito menos, de uma mulher - para salvar seu pai - ter que fingir ser alguém que não é.

Nós ainda não chegamos em um mundo igualitário, mas, passo a passo, podemos chegar lá, tendo heroínas, como elas duas, para nos inspirar.

REFERÊNCIAS

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Tradução de Arlene Caetano. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2008.
CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1997.
ELIADE, M. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 2002.
PROPP, V. As raízes históricas do conto maravilhoso. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
______. Morfologia do Conto Maravilhoso. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1984.
TOLKIEN, J. R. R. Árvore e Folha. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
<https://rainhastragicas.com/2016/09/03/a-balada-de-hua-mulan/>; 24/09/2017, às 18hrs.
<https://www.epochtimes.com.br/hua-mulan-a-lendaria-e-corajosa-guerreira/#.Wccfi1RSyUk>;
24/09/2017, às 18hrs.