MINICLUBE DO LIVRO #01: ILEANA E SUA HISTÓRIA

05/09/2017


MINICLUBE DO LIVRO #01: ILEANA E SUA HISTÓRIA

HISTÓRIA #01

O que você conhece de literatura romena? Muito pouco, provavelmente. Caso conheça, pode contar nos dedos os autores romenos de que já ouviu falar. Inclusive, é uma literatura tão pouco pesquisada e conhecida no Brasil que, de fato, você realmente pode contar nos dedos quantos são de conhecimento do público brasileiro; e o mesmo ocorre com a própria cultura, o folclore e tudo que envolve essa narrativa.

Se formos falar de algo de conhecimento público da Romênia, acho que somente temos o Drácula e a própria Transilvânia - o que muita gente não sabe que fica lá, aliás. Mas, antes que pensem, não, Bram Stoker é irlandês e não, romeno. Além disso, o texto original também é em inglês, o que facilita muito o acesso.

Mas, se não podemos usar Drácula como referência, o que fazer? Como conhecer um pouco mais da Romênia? E como entender a história de Ileana Simziana se não sabemos absolutamente nada?

Então, para contextualizar um pouco o conto do nosso primeiro miniclube, vamos fazer um mapeamento geral sobre alguns aspectos. O primeiro de que iremos falar é o próprio autor: Petre Ispirescu.

Petre Ispirescu nasceu em Bucareste, a atual capital da Romênia, em 1830. Era filho de um barbeiro e de Elena Ispirescu, uma incrível contadora de histórias - o que provavelmente levou o filho a ser o escritor que se tornou, pois ele cresceu ouvindo a sua mãe contar os mais variados tipos de histórias, mas, principalmente, os inúmeros contos populares romenos (dos quais, eu tenho quase certeza, você nunca ouviu falar).

Seus pais, como era de costume em sua época, queriam que ele fosse um padre e, por isso, matricularam-no para estudar como um monge na Igreja Metropolitana. Depois disso, ele estudou com um padre na Igreja Domnita Bălaşa. Mas desistiu do ofício de padre aos quatorze anos e ficou bem mais perto dos livros, trabalhando numa editora (ou uma gráfica) chamada Zaharia Carcalechi, na esperança de que, ao estar mais perto dos livros, poderia lê-los - o que contribuiria muito na sua formação.

Petre Ispirescu foi preso, pois a imprensa romena da época havia vazado uma carta do príncipe Nicolae Vogoride. Ele estava envolvido no processo de vazamento e ficou preso por um mês - o que fez com que ele perdesse o emprego. Mas, nem todos os males vem para mal de fato, e isso fez com que sua carreira decolasse e se tornasse chefe, em 1866, da State Printing House.

No entanto, antes mesmo de se tornar o chefe, Petre já havia começado a escrever - o que provavelmente, começou desde jovem. Foi em 1862 que ele começou a publicar os seus primeiros contos que sempre consistiam em histórias populares da Romênia e, esses contos, posteriormente, foram acrescentados ao livro intitulado "Contos de fadas da Romênia" (tradução para o português) que é uma raridade bibliográfica, publicado em 1882.

Ele teve muitos outros trabalhos, mas quase nenhum deles foi traduzido - nem mesmo para o inglês (e nem sempre a tradução era fiel, na verdade, as que encontramos não eram). O que tornou uma dificuldade sem tamanho, inclusive, a tradução desse conto foi feita pela equipe do próprio Caneta Tinteiro (tradução de Camille Pezzino e revisão de Letícia Guedes).

Foi a partir dessa dificuldade encontrada que percebemos o quão difícil e inacessível a cultura romena é para nós, brasileiros, e, por conta disso, vamos introduzir um pouco dela aqui.

A priori devemos ressaltar a beleza da Romênia. Se, um dia, tiver oportunidade, vá visitar. Sério. O cenário - como é descrito no próprio conto - é sublime e fantástico. Além disso, ela é considerada a terra dos castelos por possuir mais de 190 construções tradicionais.

O segundo que podemos ressaltar é a sua história: a Romênia, na época de Petre Ispirescu, era dividida em três principados distintos. Isso mesmo, Valáquia, Moldávia e Transilvânia. Em sua época, não existia de fato a Romênia que (não) conhecemos hoje, o que influenciou muito na história do autor - vocês lembram que ele foi preso, certo? Pois é, sua prisão foi por conta de fins políticos.

Existia uma revolução crescendo dentro daquele povo, pois, durante todo o período do Domínio do Império Austro-Húngaro e a Suserania Otomana, a maioria dos romenos tinham realmente muito poucos direitos e, geralmente, quando é assim, até mesmo sua própria cultura é esmagada.

Logo, temas nacionalistas - e com isso, lembremos que Petre escrevia contos populares romenos - surgiram em todo o território. Eles lutaram por muito tempo, desde 1821. Daquela época até 1859, os romenos fracassaram, porém, esse foi o ano da virada, porque, em 1859, depois de uma guerra conhecida como Guerra da Crimeia, os eleitores tanto moldávios quanto valáquios votaram na mesma pessoa, no mesmo líder como Domnitor, que significa "príncipe governante" em romeno. Quando fizeram isso, de dois povos, eles se tornaram um e foi assim que subjugaram os seus "dominadores". Como nem tudo são flores, esse Domnitor sofreu um golpe de estado e foi exilado, sendo substituído pelo príncipe Carlos I da Romênia, regente por 48 anos. O bom disso tudo é que em 1877, a Romênia proclamou Independência.

Os romenos têm uma relação tão próxima com os romanos como os italianos, os franceses e os portugueses possuem quando se fala de língua, até mesmo, com a gente, dominados pela língua portuguesa, visto que a língua romena se assemelha - e muito - com o latim. Muito embora se veja por aí dizendo da semelhança entre essa e a nossa língua - o português brasileiro - justamente por ser de origem latina, se você pegar um texto romeno sem qualquer conhecimento do latim clássico, acredite, você não vai entender quase nada - se entender alguma coisa.

Quando se trata de cultura e religião, a partir do conto, é possível ver a questão da religiosidade - seja do autor ou do povo romeno -, isso porque a maioria da população se vê como cristã, ainda que seja um país de estado laico. Um dado interessante visto que, a partir de algumas traduções do inglês pesquisadas, é possível perceber como os tradutores optaram por cortar as partes que falavam sobre Deus e religião (com exceção da parte final, na qual era impossível).

Contudo, nem tudo é a respeito da religião cristã, pois a cultura local é fortemente empregada nesse conto, afinal, não deixa de ser um conto baseado em uma lenda local, inclusive, retratando a crença a respeito de seres sobrenaturais. Esses seres são muito populares na contemporaneidade, como espíritos, fantasmas, fadas, vampiros, etc. Acredito eu que o mais conhecido é o Balaur, um tipo de dragão usado no Dungeons & Dragons. Será que você será capaz de reconhecê-lo nesse conto?


REFERÊNCIAS

<https://en.wikipedia.org/wiki/Petre_Ispirescu>
< https://en.wikipedia.org/wiki/Romania> 


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