MINICLUBE #02: RELANCES EM O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

05/12/2017

RELANCES EM O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

HISTÓRIA #01


O segundo miniclube traz aos seus membros O Morro dos Ventos Uivantes.

Mais de que um romance nas mãos da protagonista de Crepúsculo, Bella Swan, seu incrível enredo mostra aos seus leitores a que veio e nos arrebata miseravelmente. Publicado sob o pseudônimo masculino e católico Ellis Bell, em 1847, é considerado um cânone da literatura britânica - o que não é para menos.

Sou suspeita ao afirmar que essa obra é, sem sombra de dúvidas, a maior história de amor e vingança que já tive o prazer de ler na vida. Tal fato movimentou a sociedade vitoriana da época, que se dividiu entre o choque e o fascínio. A linguagem abominável do mestiço Heathcliff, bem como suas atitudes grosseiras, animalescas e movidas pelo mais puro estado das emoções, contrastavam em absoluto com tudo o que se entendia por boas maneiras pelos ingleses. Ainda que tantos avanços científicos e financeiros fossem presenciados ao longo do século XIX, a maioria dos cidadãos vitorianos demonstrava extremo puritanismo e repressão. A existência ambígua de Catherine, vagando entre dois mundos completamente opostos, revelava um dos tabus da sociedade vigente: a presença da mulher corruptível, cujos sentimentos ameaçavam o equilíbrio e harmonia familiar.

Ao dizer isso, não me refiro ao sexo. Quando nos debruçamos sobre as páginas do livro, entendemos porque o amor dos protagonistas não se resume a algo carnal: nos perpassa, dialoga com nosso íntimo e transcende, em todos os níveis possíveis dessa palavra. Um fato interessante de ser mencionado é que, ao que se sabe da biografia de Emily Brontë (1818-1848), a jovem sequer teve um relacionamento amoroso (pasmem!).

Entretanto, não apenas de amor vive O Morro; é, também, uma obra que aborda a solidão, a complexidade dos relacionamentos familiares e a hipocrisia contida neles. Acredito que isso seja o reflexo da vida religiosamente severa e pouco sociável de Emily, conforme as declarações de sua irmã Charlotte. Aos 19 anos, isolada em seu próprio mundo, experimentara escassamente das relações humanas e, ainda, conseguiu descrevê-las com tamanha intensidade e beleza.

As irmãs, Charlotte (1816-1855) e Anne (1820-1849), também foram escritoras. No ano anterior à estreia solo de Emily, elas publicaram juntas uma coleção de poemas, cujas vendas foram pouquíssimas. Quando Morro dos Ventos Uivantes foi publicado pela primeira vez, Jane Eyre, o mais famoso romance de Charlotte, já se encontrava disponível nas livrarias em sua segunda edição. Anne, por sua vez, é reconhecida por Agnes Grey e A Moradora de Wildfell Hall.

Emily Brontë foi mais uma das centenas de vítimas da doença do século: tuberculose. Faleceu um ano após seu livro vir ao conhecimento popular. Contudo, presenteou a humanidade com um romance universal, riquíssima e atemporal. Nós iremos, ao longo dos próximos quatro meses, nos aprofundar em alguns aspectos técnicos e temáticos da obra. Vam'bora navegar conosco?


Referências:

BRONTË, E. O Morro dos Ventos Uivantes. Tradução de Doris Goettems. São Paulo: Editora Landmark, 2011.


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