MINICLUBE #02: O ESTRANHO UIVO DO VENTO - A DUALIDADE DO MORRO

27/12/2017

O ESTRANHO UIVO DO VENTO: A DUALIDADE DO MORRO

TEXTO DE APOIO #01

Mergulhar no Morro através de suas páginas é sentir, nas regiões mais inóspitas da alma, seus ventos mais ardentes. Transcendente: não há outra palavra para definir o livro e todo o seu enredo.

Escrito por Emily (1818 - 1848), sob seu pseudônimo Ellis Bell, num momento em que o Romantismo adquiria um novo patamar em suas obras: o aprofundamento psicológico. As estórias iam, aos poucos, abandonando o foco aventureiro e burlesco, adquirindo traços dualísticos que carregam consigo um misto do ideal romântico das novelas góticas do século anterior com as problematizações hierárquicas do Realismo que viria a despontar poucos anos à frente.

A história tem início quando Mr. Lockwood, novo inquilino da Granja de Thrushcross, resolve visitar seu senhorio - Mr. Heathcliff, nosso anti-heroi byroniano¹ - a fim de se apresentar. Em meio a suas descrições, Lockwood dá ao leitor uma antecipação do enredo (termo conhecido, na teoria literária, como prolepse):


"O Morro dos Ventos Uivantes é o nome da residência de Mr. Heathcliff. 'Ventos Uivantes' é um provincianismo significativo, que descreve o tumulto atmosférico ao qual este lugar fica exposto quando há tempestade."  


Essa prolepse, ainda que de nível metafórico, diz muito sobre o que se esperar: a enorme perturbação a qual fica submetido e condenado o dono da região. Ainda, ele resiste. Como uma flor drummondiana, Heathcliff rompe a narrativa, revira suas folhas e nossos corações. Entretanto, ao invés de furar "o tédio, o nojo e o ódio" (ANDRADE, 1978), ele resiste para os implantar nas próximas gerações, pois esse é seu único propósito no momento em que se encontra a estória. Numa segunda leitura, mais cautelosa, pode-se considerar que ele é a própria tempestade, expondo todos aos vestígios de suas desilusões.

Isso fica claro desde o primeiro momento, seja por seu linguajar, por suas expressões faciais, ou pelo contraste entre sua figura bonita e seu estilo de vida, um tanto rústico para um senhor de sua posição. E, justamente por isso, Heathcliff me é fascinante. Através de suas abertas reclusões, seus sorrisos encantadoramente sarcásticos e sua crueldade piedosa, ele envolve o leitor em sua tempestade. A austeridade de seu caráter e suas explosões súbitas de violência somadas a sua eterna paixão implicam para que haja essa contínua impressão de arrebatamento e tensão que se projeta, lenta e majestosamente, ao se ler.

Por qual razão essas divergências tanto nos enfeitiçam? Essa dualidade, posta por Sigmund Freud (1856 - 1939) em seu ilustre estudo intitulado "O Estranho" (original, em alemão, Das Unheimlich, 1919) é maravilhosamente explicado por Caroline Moura:


"[na expressão unheimlich] se equilibram suas ideias que são opostos: a do aconchego que sentimos quando estamos à vontade em um ambiente que nos é familiar; e a do terror que sentimos quando somos atacados ou agredidos quando menos esperávamos por isso."


Nós, pobres leitores, já seduzidos pelo que o nosso pouco conhecimento de mundo informa acerca da obra, desenvolvemos um novo estágio de fascinação verdadeiramente ao nos debruçarmos nela e darmos de cara com: personagens redondos, descrições acuradas, sequências de eventos avassaladoras e uma narrativa oscilante que envolve tamanho amor e brutalidade.

Após uma forte nevasca, Lockwood acaba por dormir na charneca. No quarto que lhe é concedido, ele encontra uma série livros e rabiscos deixados por uma antiga moradora chamada Catherine. Embriagado pelas confissões da jovem e a exaustão, o hóspede cai em profundo sono, sendo desperto por um ruído provocante em sua janela. Aborrecido, ele resolve esticar o braço para agarrar o galho causador da algazarra. Contudo, ao fazê-lo, ele sente uma mão pequena e gelada segurá-lo, com uma única súplica:


"Deixe-me entrar, deixe-me entrar! (...) Estou vagando há vinte anos"


O quarto, repleto de memórias e fantasmas, apavora a Lockwood e prostra às emoções de Heathcliff, subitamente entregue a um copioso pranto, suplicando para que o espectro o assombrasse. Esse primeiro retrato, tão destoante do que se havia visto de vosso senhorio até aquele momento, nos antecipa uma das mais belas estórias de amor já lidas pela humanidade.

Ao retornar à Thrushcross, Lockwood passa a interrogar Ms. Dean - serviçal da casa e narradora principal da estória - sobre as pessoas com quem esteve no dia anterior, bem como seus antepassados. Descobre-se, então, que Catherine Earshaw e Heathcliff, a aparição e seu algoz, dividiam, além alguns livros num cômodo na charneca, uma atribulada infância com uma conexão que extrapola qualquer nível familiar (qualquer conexão ao nível espaço-tempo, ouso dizer).

Brontë tece a narrativa com tamanha voracidade que causa rubor a quem lê. Adentrar as páginas do Morro é como abrir ao diário do universo e bisbilhotar todos os segredos da existência. Analisá-lo por completo é uma tarefa impossível. Há muito a ser discutido, porém as palavras simplesmente não são capazes de expressar com a exatidão necessária aquilo que precisa ser pronunciado. É algo como sentir a morna irradiação do sol sob a pele, ou o recorrente som do mar sobre as pedras: as imagens de tais ações nos evocam tamanho grau de intimidade, que simultaneamente a nos proporcionarem fragmentos de sensações singulares, extraem-nos do "eu" que éramos a minutos atrás. É o que o Dictionary of Obscure Sorrows descreve como "Monachopsis", ou o tênue, porém persistente, sentimento de se estar fora do lugar. Ser capaz de escutar o Uivo dos Ventos, momentos antes de fechar o livro,é estar levemente deslocado - apesar de profundamente imerso -, sabendo que uma parte sua desejaria viver algo de tamanha intensidade.


¹byroniano: sumariamente, atribui-se ao estereótipo byroniano o personagem que se reclui da sociedade por forças externas ou vontade própria, rejeitando os valores impostos por essa. Tem uma origem marginalizada ou se torna um fora da lei, sendo comumente rejeitado por membros de classes hierárquicas iguais ou superiores a dele. Tem um temperamento ranzinza, porém possui paixão em demasia por algo específico. 


REFERÊNCIAS

ANDRADE, C. D. A flor e a náusea. Antologia Poética - 12a edição - Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, p. 16.
BRONTË, Emily. O Morro dos Ventos Uivantes. Edição Bilíngue. São Paulo: Editora Landmark, 2011.
MOURA, C. N. A tradição e o Gótico em O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. Trabalho de conclusão de curso. Porto Alegre: UFRGS, 2015. 59p. Disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/130029/000975775.pdf?sequence=1