MINICLUBE #02: MORRO DOS VENTOS UIVANTES SOB A PERSPECTIVA TOPOANALÍTICA

16/01/2018

ATENÇÃO: o texto abaixo contém spoilers sobre a obra. Caso não deseje encontrá-los, não leia.

MORRO DOS VENTOS UIVANTES SOB A PERSPECTIVA TOPOANALÍTICA

TEXTO DE APOIO #02


MECANISMOS ESPACIAIS DENTRO DA NARRATIVA

A construção da grande maioria dos cânones literários conta com uma série de aspectos que passam a ser lapidados ao longo da narrativa como os personagens, o tempo, o tipo de narrador, o espaço, etc. No século anterior muito se estudou acerca do tempo: como as esferas básicas da vida se transformaram a partir de sequencias de fatores históricos, políticos e, principalmente, tecnológicos. Acredito que a tecnologia, hoje mais do que nunca, causou uma grande ruptura na sociedade no que concerne não apenas o tempo, mas o espaço também - para bem e para o mal. Isso, contudo, é assunto para outra matéria e um outro dia.

Voltando à temática da crítica literária, houve e ainda há um crescente movimento que busca se focar na importância do espaço para a edificação e interpretação das obras literárias. A esse estudo específico entre personagens e os cenários que os cercam, dá-se o nome de topoanálise. Alguns nomes de grande destaque, àqueles interessados, afloram aqui: Edgar Allan Poe (1809-1849) com A Filosofia do Mobiliário (1840); Gaston Bachelard (1884 - 1962) com A Poética do Espaço (2005); Denis Bertrand (1949), com O espaço e significado: um ensaio da semiótica discursiva (1985); Borges Filho com Espaço e literatura: introdução à topoanálise (2007); Alberto Brandão com Teorias do Espaço Literário (2013). 

A subjetividade na construção do espaço cria um nível maior de proximidade entre a narrativa e o leitor, povoando o imaginário deste através de elementos descritivos que enriquecem tanto o texto literário quanto suas possíveis interpretações - permitindo um envolvimento eficaz e, dessa maneira, um intenso efeito catártico. Segundo Bachelard:


"O espaço compreendido pela imaginação não pode ficar sendo o espaço indiferente abandonado à medida e reflexão geômetra. É vivido. E é vivido não em sua positividade, mas com todas as parcialidades da imaginação."



Ingenuidade do leitor e do escritor em início de carreira ao acreditar que se tem uma boa estória apenas com o desenvolver de personagens complexos. Uma obra não tem tal nome despropositadamente. Nos sinônimos de "obra" encontramos a composição, o trabalho, o efeito e, não menos importante, o resultado. Nenhum deles se obtém de forma significativa sem que se trabalhe nas demais concepções que demandam uma narrativa de qualidade.

Para que serve, então o espaço e como posso utilizá-lo em minha estória? Segundo Borges Filho, a topoanálise nos indica: 1) o posicionamento socioeconômico e psicológico dos personagens; 2) a sua influência nos personagens e suas ações, que ora reagem aos elementos espaciais, ora os alteram; 3) o promover ou facilitar determinadas ações; 4) asituação geográfica das personagens; 5) para representar os sentimentos vividos pelas personagens; 6) estabelecer contraste com as personagens; 7) antecipar os eventos da narrativa (prolepse).

Para não tornar a leitura cansativa, destaco aquelas funções que acredito terem maior destaque ao longo da obra.


O POSICIONAMENTO DOS PERSONAGENS

Exploremos o lado psicológico, pois o socioeconômico está visível ao longo de todo o romance. Voltando-nos para o Morro dos Ventos Uivantes, Heathcliff, que tem origem desconhecida, acentua o tom misterioso e imprevisível que circunda o personagem. Há algo de inquietante naquilo que se esconde, que se refugia na uniformidade camuflada e intocada do campo. Aqui, dois indícios ficam claros: a primitividade e a pureza. Por isso, na resenha que fiz anteriormente, disse que tenho a constante impressão de estar bisbilhotando em algo muito íntimo ao ler sobre a história de amor dos protagonistas. É como retornar as próprias origens, a uma época na qual o sentimento afetivo era tão primeiro, tão genuíno, que nos expõe a mais pura natureza do ser humano - por vezes, muito calorosa e aconchegante; por outras, de uma emergente brutalidade que, apesar de assustadora, constitui a mais inabitada parte de nossa psiquê. A construção do espaço é responsável, em determinado nível, por isso.

O enredo isola-se nas instalações do Morro dos Ventos Uivantes, local remoto e situado numa altitude elevada. Ao pensarmos no valor da verticalidade inseridos aos espaços, segundo a perspectiva de Bachelard, fica impossível não associar a charneca onde Heathcliff e Catherine viveram sua infância como algo onírico. Ao nos confidenciarmos de Nelly, entendemos a importância do lugar que acomodou momentos tão singulares de duas vidas. Quem não se lembra da casa em que viveu na infância, não possui um cantinho favorito ou um detalhe peculiar da decoração de um cômodo que lhe traz uma imagem à mente?

Importante lembrar, porém, do caráter dualístico que circunda esse espaço: onde o relacionamento dos dois se solidifica e, também, no qual sofre uma enorme ruptura - um dos momentos clímax da narrativa. É lá, ainda, que o espírito de Catherine vaga após a morte, como num longínquo sonho que passa a habitar, com uma frequência cada vez maior, a consciência de Heathcliff. Segundo Bachelard:

"(...) na casa natal se estabelecem valores de sonho, últimos valores que permanecem quando a casa já não existe mais. Centros de tédio, centros de solidão, centros de sonhos se agrupam para constituir a casa onírica mais durável que os sonhos dispersos na casa natal."



O Morro, portanto, passa a carregar memórias que são lembradas com amável nostalgia e um amargo pesar. Heathcliff possuiu o amor de Catherine, mas não pôde, de fato, concretizá-lo.


A SUA INFLUÊNCIA NOS PERSONAGENS E SUAS AÇÕES

A tempestade, por exemplo, faz com que Lockwood seja hospedado na casa de seu locador, assim encontrando os escritos e o espírito de Catherine - proporcionando, dessa maneira, que uma sequência de eventos que desperta o interesse do leitor. É a partir desse encontro sobrenatural que o rapaz se sente motivado a conhecer mais sobre o passado que tanto parece afetar Heathcliff.

Catherine, ao ser mordida pelo cachorro dos Linton, é tratada e convidada a ficar na casa, na qual fica por cinco semanas. Vamos estudar, portanto, como se descreve a casa dessa família.

"Ah! Era tão lindo...Uma sala esplêndida, atapetada de vermelho, com mesas e cadeiras também forradas de vermelho, um teto muito branco com moldura dourada e, no centro da peça, um lustre de contas de cristal penduradas em correntes de prata, brilhando à luz das velinhas suaves e delicadas. O velho Linton e Mrs. Linton não estavam na sala; Edgar e a irmã tinham tudo aquilo só para si. Não deveriam estar felizes?"


Poe destaca, em seu trabalho A Filosofia do Mobiliário, a importância dos móveis, da cor, dos modos de adaptação ao uso deles. Associando isso a filosofia das cores e ao significado dos símbolos, temos uma análise interessante. Vermelho é, primordialmente, a cor do sangue: uma cor associada à brutalidade, ao perigo e ao poder. É também, numa segunda interpretação, a cor que associamos ao amor e à sexualidade. Exatamente o que Edgar Linton virá a se tornar para Heathcliff (o homem de classe social mais alta que a sua, que tomou o grande amor de sua vida, impedindo-o de concretizá-lo) e Catherine (o homem a quem ela entregou seu corpo, e com ele concebeu uma criança). As cores dourado e prata, presentes também na decoração, nos remetem aos metais nobres, portanto simbolizando a riqueza - que reforçam a posição hierárquica da família.

A presença do tapete vem, novamente, enfatizar a ideia de luxuosidade. Basta lembrarmos algumas informações, como 1) o tapete é peça na qual o rei Agamemnon é recebido ao retornar da Guerra de Troia; 2) os tapetes persas, um ícone cultural, que eram muito valiosos entre os europeus para serem estendidos aos chãos; 3) "O tapete é a alma do apartamento", segundo Poe.

Tal ambiente, adornado por suas finezas, acaba por penetrar a personalidade volúvel de Catherine. Após sua estadia, retorna ao Morro com suas maneiras melhoradas, segundo Nelly. Seu porte e roupas eram refinados, aspectos que passam a ser de preocupação para a personagem, desse ponto da narrativa em diante. Seu comportamento para com Heathcliff, entretanto, era cheio de superioridade: em diversos momentos, Cathy presencia e comete atos que deixam seu meio-irmão encabulado ao ponto de que ele mesmo deseje uma aparência "decente" para poder estar dentre os demais.

É a partir dessa sutil, porém influente conexão estabelecida pela mudança de cenário que a estória segue para seu primeiro clímax: a partida de Heathcliff e o casamento de Catherine com Edgar.


O PROMOVER OU FACILITAR DAS AÇÕES

Todo o complexo do Morro, por estar em um lugar elevado e de difícil acesso, faz com que muitas ações sejam facilitadas. Um exemplo disso é o tratamento que o filho mais velho dos Linton tem para com sua irmã e principalmente Heathcliff. Não há ninguém em quilômetros que possa interferir nas injustiças sofridas pelo menino de origem cigana além de Nelly, que não tem posição aristocrática o suficiente para assumir a posição de defensora, e Cathy que, além de ser criança e não ter condições físicas de sustentar um posicionamento rebelde, é também mulher (e sabemos o que isso significava naquela época, não é mesmo?).

Outra estratégia recorrente e de suma importância é a utilização de espaços fechados, onde o clima de suspense se manterá. Poe, em seus vários textos técnicos, deixa claro que o enclausuramento dos personagens é algo bastante propício para desenvolver sentimentos como a solidão e a loucura. Vejamos trechos:

"Numa certa tarde de outubro, ou começo de novembro, tarde chuvosa e fresca, quando a turfa e os caminhos farfalhavam com as folhas úmidas, mortas e o céu de um azul frio escondia-se a meio entre as nuvens cinzentas e enormes, que subiam rápidas vindas do oeste, pressagiando tempestade - pedi a minha jovem patroa que desistisse do passeio, pois tinha certeza de que choveria. (...) Ela começou a andar, em profunda tristeza: já não corria nem saltava, embora o vento frio pudesse tê-la incentivado a correr. E, várias vezes, com o canto do olho, vi-a levantar a mão e afastar alguma coisa da face."

O arranjo das palavras na descrição do espaço é feita de tal forma, que nos leva a acreditar que elas propiciaram a melancolia de Catherine Linton (vulgo Catherine II). Chuvoso, úmido, frio, azul... todas essas características se casam com as lágrimas. Incluindo o azul do céu que é, segundo o Dicionário de Símbolos "a mais profunda das cores. (...) Imaterial em si mesmo, o azul desmaterializa tudo aquilo que dele se impregna". Assim como a cor, a realidade de Catherine está prestes a ser totalmente desconstruída.

Nessa cena em específico, ela está sofrendo pela doença do pai, e teme ser deixada sozinha no mundo. Perceba como essa poeticidade faz com que as emoções da personagem nos causem um efeito catártico, de profundo envolvimento. Devido a esse pavor e comoção, Catherine Linton cede à velada ameaça de Heathcliff e resolve visitar seu filho doente, Edgar - o que se mostra, horas depois, como uma artimanha de Heathcliff para obrigar a jovem a se casar com seu filho, condenando-a parte da tenebrosa vingança que ele planejara para toda a próxima geração das famílias que o humilharam.

Ainda no que concerne a relação entre o espaço e o facilitar de determinadas ações, numa das mais belas passagens da obra:

"No entanto, isso que você talvez suponha ser o que mais tem poder sobre a minha imaginação, é de fato o que tem menos: pois que coisa pode existir que não esteja ligada a ela, para mim? O que é que não me faz recordá-la? Não posso nem olhar para esse piso, sem ver seus traços impressos nos ladrilhos! Em cada nuvem, em cada árvore - enchendo o espaço, à noite, e espelhando-se em cada objeto, durante o dia - vivo rodeado por sua imagem! Os rostos mais comuns de homens e mulheres - os meus próprios traços - zombam de mim com a sua semelhança. O mundo inteiro é uma terrível coleção de marcas de sua existência, e de que eu a perdi!"


Percebemos claramente que Heathcliff tem seus grilhões presos ao Morro e todo o cenário disponível lá contribui para que ele não consiga apagar a imagem de sua amada. Tamanha é a dor de sua perda que, para cada mínimo elemento espacial, atribui-se um significado que remeta à Catherine - estimulando, assim, os sentimentos de isolamento e delírio do personagem, que mais tarde o levaram à morte.

Quando se trancou no quarto, Heathcliff escancarou a janela, deixando que a chuva e o espírito de Catherine os levasse. Ao subir para o andar de cima, o personagem reencontra o plano onírico: as lembranças da tenra infância, os sorrisos e aventuras com Cathy, seu pequeno pedaço de felicidade. Finalmente, ao encontrá-la na noite chuvosa, deixou-a entrar. Faleceu com o típico sorriso de escárnio de quem desafiava a própria morte. Ora, pois como a morte ousaria separar um ser de sua própria alma?

O Morro dos Ventos Uivantes vai muito além de tratar do espaço: ele cria um espaço, especialmente dele, no coração de todos que resolvem mergulhar por suas páginas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BACHELARD, G. A Poética do espaço em Os pensadores: Bachelard. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
BORGES FILHO, O. Espaço e literatura: introdução à topoanálise. Franca: Ribeirão Gráfica e Editora, 2007.
CHEVALIER, J; GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos. 28ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.
ÉSQUILO. Agamemnon. 2004, Ebook, Project Gutenberg. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/my000112.pdf
POE, E. A. The Philosophy of Furniture. Burton's Gentleman's Magazine, vol. VI, no. 5, May 1840. Disponível em: https://www.eapoe.org/works/essays/philfurn.htm.