CRÍTICA #02: IT E A MATERIALIZAÇÃO DO MEDO

13/09/2017


IT E A MATERIALIZAÇÃO DO MEDO

CRÍTICA #02


SINOPSE: Um grupo de sete adolescentes de Derry, uma cidade no Maine, formam o auto-intitulado "Losers Club" - o clube dos perdedores. A pacata rotina da cidade é abalada quando crianças começam a desaparecer e tudo o que pode ser encontrado delas são partes de seus corpos. Logo, os integrantes do "Losers Club" acabam ficando face a face com o responsável pelos crimes: o palhaço Pennywise.

DIRETOR: Andy Muschietti (2017)
GÊNERO: Suspense e Terror.
DISTRIBUIDOR: Warner Bros. ' Estados Unidos 

Stephen King é provavelmente o escritor que possui mais obras adaptadas para o universo cinematográfico até hoje. Isso porque - ao contrário do conhecimento comum - cada livro seu transita entre gêneros diferentes: nunca encontraremos uma história absolutamente assustadora sem que essa tenha personagens cômicos, dramas familiares, um toque de erotismo, amizade e romance. É essa complexidade que conquista fãs ao redor do mundo e é nela que uma grande porcentagem de filmes encontram seu fracasso mais evidente: em um longa de duas horas, o roteirista escolhe focar nos elementos de terror, esquecendo-se (muitas vezes por necessidade) de desenvolver as características mais envolventes dos livros.

Não é à toa que clássicos como "O Iluminado", de Stanley Kubrick, e "Carrie: A Estranha", de Brian de Palma, são cultuados entre cinéfilos e sempre ocupam os primeiros lugares em listas do gênero. O que os diferencia das demais adaptações é a forma como o horror atinge seu ápice apenas quando o desenvolvimento psicológico de seus protagonistas está completo.

Em "It", o décimo segundo livro de King (e o meu favorito), conhecemos a cidade de Derry nos anos 80, palco de uma série de crimes infantis inexplicáveis. Ao longo de suas mil e tantas páginas, somos presenteados com matérias jornalísticas sobre os desaparecimentos, depoimentos de testemunhas visuais e até investigações policiais que nunca foram solucionadas. Todos esses detalhes são construídos lentamente para que o leitor, ao decorrer desse quebra-cabeça, possa juntar as peças e entender a história de Derry, de seus moradores e desta criatura que os espreita.

Quando se trata de assassinatos em série e desaparecimentos, qualquer escritor em sã consciência escolheria um protagonista adulto (talvez um policial ou um detetive) para lidar com a situação, mas é aqui que está a genialidade do livro: quem luta para solucionar a violência derramada sob essa cidade são sete crianças que sofrem igualmente com as consequências dela, há aqui uma inversão de papéis: as crianças amadurecem através do medo e os adultos se isolam do mundo, pois não aguentam lidar com ele.

Na história, esse "mal" possui uma forma humanoide e somente através dele que os eventos se desenrolam. Em ambos os filmes, assim como no livro, Georgie Denbrough é brutalmente assassinado pelo palhaço enquanto brinca com seu barquinho de papel. Tomado pela raiva e pelo luto, Bill, seu irmão mais velho, decide agir - ao lado de seus melhores amigos - para acabar com o monstro de uma vez por todas.

Quando o primeiro anúncio da adaptação de 2017 foi feito, muitos leitores ficaram com medo - e com razão. Apesar de o telefilme de 1990 ser considerado um clássico do horror, ele está muito longe da essência da obra original. O palhaço interpretado por Tim Curry age como um sociopata, é cheio de trejeitos cômicos e ironia, e a personalidade de cada criança é anulada, fazendo com que cada uma delas pareça um boneco vazio onde a única utilidade é fazer Pennywise se destacar.

Porém, é nesse quesito que "It: A Coisa", de Andy Muschetti ("Mama"), encontra sua excelência. O longa em momento algum busca causar apenas medo, ser apenas um tipo de gênero. Sua genialidade foi manter a essência da história original: uma mistura de momentos aterrorizantes que nos causam calafrios e alívios cômicos tipicamente infantis que dão leveza à trama.

O roteiro, com auxílio de Cary Fukanaga ("True Detective"), dedica o Primeiro Ato à apresentação de cada criança e, mesmo sendo um tanto apressado (afinal, são sete personagens), conseguimos entender suas motivações, virtudes, falhas e traumas, tornando cada reação delas a determinados tipos de acontecimentos, muito crível e condizente com que nos foi apresentado. A dinâmica e carisma dos membros do "Clube dos Perdedores" é o ponto mais alto do filme - tudo graças ao elenco mirim talentosíssimo.

Cada criança possui um universo particular antes de se unirem ao grupo e cada uma delas enfrenta diariamente um monstro muito mais terrível que a "Coisa": racismo, bullying, pedofilia, luto, depressão, fobias e insegurança. Toda essa mitologia precisou se adaptar a um limite de 2h15min, sofrendo algumas alterações e reduções na história - mas não houve qualquer impacto negativo na narrativa.

Bill Denbrough, o líder do grupo, é mobilizado pelo luto da morte do irmão mais novo e, ao contrário dos pais que parecem apáticos e distantes com a morte do filho, Bill decide canalizar essa dor para solucionar os desaparecimentos e entender o que aconteceu com Georgie.

Beverly Marsh, a única menina, carrega sozinha uma das histórias mais pesadas da trama. Enquanto no livro, Bev é vítima de violência física e psicológica pelo próprio pai, o filme resolve focar no desejo sexual que ele sente pela filha - fator pouco explorado, porém citado por King no livro. Para completar, ela ainda sofre slutshamming por algumas pessoas da cidade. A atriz consegue transmitir o medo e o nojo ao olhar para o pai, chegando a cortar o próprio cabelo por ter sido tocada; as cenas nas quais os dois interagem são as mais assustadoras e revoltantes do filme.

Eddie Kaspbrak foi outro personagem muito bem explorado e não precisou de cenas longas para que pudéssemos entender a relação doentia que o garoto tem com a mãe. No livro, a mãe de Eddie é uma senhora viúva, sendo o filho a única coisa que lhe restou, ela é extremamente protetora, chegando a inventar doenças para o garoto e entupindo ele de remédios sempre que possível. O filme segue com fidelidade essa relação de dependência e de suas fobias (consequências desse sufocamento materno) que estão representadas em todas as cenas, muitas vezes servindo de alívio cômico.

O bullying sofrido por Ben Hascom e seu talento para a arquitetura é pouco explorada no filme. Aqui ele é mais um outsider que um garotinho gordo do qual todo mundo tem nojo, mas o filme acerta - e muito - ao escolher a pesadíssima cena onde Henry Bowers e seu grupo utilizam uma faca para machucá-lo, além de explorarem melhor sua paixão por livros e sua avidez para desvendar mistérios.

Da mesma forma, acredito que não houve tempo suficiente para explorar Mike, Stanley e Richie, e trazer questões do racismo violento sofrido por Mike, o antissemitismo com Stanley e a relação de Richie e sua família que são muito importantes para a formação da sua personalidade e das famosas "vozes" para disfarçar suas inseguranças. No entanto, para compensar essa falta de aprofundamento, o filme soube manter muito bem as características marcantes de cada personagem e acredito que o próximo filme poderá focar nesse aspecto (ao menos, sobre os traumas que ficaram em cada um).

Outro ponto a ser elogiado é a interpretação de Bill Skarsgard. Distanciando-se muito do palhaço cômico de Tim Curry, essa nova leitura de Pennywise se assemelha a um predador que aguarda pacientemente sua presa desistir de lutar. Aqui, seus olhares são indecifráveis, sua voz está sempre alternando entre agudo e grave e seus sorrisos - hora sarcásticos, hora aterrorizantes - estão sempre carregados de saliva.

Quando Pennywise finalmente ataca, a direção de Muschetti sequer se preocupa em esconder a violência. As mortes são retratadas cruamente, dos gritos por socorro ao sangue jorrando. Mesmo sendo com crianças, nenhuma cena nos ofende ou nos faz virar o rosto (como a famosa orgia infantil que acontece no livro), todas têm um motivo para acontecer.

A falta de explicações sobre a criatura é outro acerto magnífico. Quem é Pennywise? De onde veio? Nenhuma dessas questões são respondidas. Nenhuma precisa ser. Apesar de, no final da obra original, termos todas as explicações sobre sua origem, não cabia interromper esse primeiro filme para isso.

Nessa altura, rotular Pennywise de "palhaço assassino", "espírito" ou "demônio" seria diminuir seu papel na trama e destruir a mitologia construída ao longo de 2h. Ele apenas é. Ele apenas faz. É isso que o torna mais assustador. Deixe que o "Clube dos Perdedores" resolva esse mistério na vida adulta, por agora, somos todos crianças em uma jornada desconhecida.

"It: A Coisa" está longe de ser uma obra prima do horror, como foi seu antecessor. A experiência aqui é outra: acompanhar crianças marginalizadas em uma terrível aventura de auto descoberta e amadurecimento. No entanto, você irá sentir a aura de terror que envolve o filme, mas tenha em mente que há coisas muito mais assustadoras que o Pennywise.


REFERÊNCIAS 

KING, Stephen. It - a Coisa. 1ª edição, Rio de Janeiro: Suma das Letras, 2014. 
TROTTIER, David. The Screenwriter's Bible. 6th edition, Los Angeles: Silman-James Press, 2014