ESPECIAL #23: VOCÊ SABIA? DANTE ALIGHIERI

25/05/2018


A INSATISFAÇÃO DE SEU DESEJO CONSTITUI, ETERNAMENTE, A SUA PENA

ESPECIAL #23


Dante Alighiero degli Alighieri - sendo Dante um hipocorístico, ou seja, uma forma carinhosa para Durante - era filho de Bella degli Abati e de Alighiero di Bellincione e veio ao mundo num período conturbado, em uma Itália ainda inexistente, dividida em muitas cidades-estados e intrigas políticas próprias de uma nação em formação. Nascido em uma Florença dividida entre os partidos políticos dos Guelfos e dos Gibelinos, era de família abastada e gozava de boa colocação social.

Teve uma educação em sua maior parte autodidata, sabe-se, ainda hoje, muito pouco sobre o que ele estudava na época. Alguns estudiosos do tema afirmam que Dante estudou muito a poesia toscana e as produções do movimento conhecido como "Scuola poetica siciliana" (tradução literal: Escola Poética Siciliana). O interesse nessas áreas logo o levou a estudar a poesia provençal, além de autores clássicos da Antiguidade, como Cícero, Ovídio, Horácio e, seu grande influenciador, Virgílio.

Seus estudos e avanços na poesia fizeram com que Dante lançasse, ainda em sua juventude, um movimento poético junto de outras figuras eminentes da Florença de seu tempo, o Dolce Stil Nuovo (tradução literal: "Doce Estilo Novo"), que englobava algumas obras de Guido Cavalcanti, do próprio Dante, de Cino da Pistola e Brunetto Latini.

Sob a influência desse convívio e do romantismo italiano que começava a despontar nos corações da época, Dante conheceu - aos seus 18 anos - aquela que inspiraria todos os seus suspiros dali em diante: Beatrice Portinari, filha do banqueiro e fundador do hospital mais importante de Florença até os dias atuais.

Sobre a moça em si, pouco se sabe dela além do que Dante retratou em La Vita Nuova (tradução: A Vida Nova) e em A Divina Comédia. Alguns estudiosos até debatem se Beatrice era ou não real, sendo a única referência táctil, ou seja, prova de sua existência fora da obra de Dante, um testamento em que seu 'suposto' pai deixava à Bice - mesma forma de contração que sofreu o nome de Dante - uma soma em dinheiro; esse documento é usado, até a contemporaneidade, para atestar sua veracidade como persona.

Tendo Beatrice vivido ou não, o fato é que o amor que ela inspirou em Dante equiparou-se somente com a paixão do autor por política e assuntos cívicos e militares. Sabe-se que combateu ao lado dos florentinos em uma incursão contra os cavaleiros da cidade-estado de Arezzo na batalha de Campaldino, participando de missões de escolta de importantes figuras públicas de seu tempo.

Desenvolveu, nesse meio tempo, conhecimentos na área médica e farmacêutica, contudo, não pretendia exercer nenhuma das profissões. O interesse surgiu por causa de uma lei que obrigava todo nobre que tivesse intenções de ocupar um cargo público nas assembleias da cidade a pertencer a qualquer uma das guildas de Artes e Ofícios.

Por conta de seus interesses políticos, Dante se viu envolvido em assuntos militares que interessavam diretamente a Santa Sé da época. Assim sendo, chefiou uma comitiva que exigia explicações do papa Bonifácio VIII a respeito de suas intenções de estabelecer uma ocupação militar em Florença. O homem santificado reteve Dante em Roma, impedindo-o de orquestrar uma resistência contra as movimentações dos Guelfos Negros em Florença. Com a vitória destes, sendo Dante um Guelfo Branco, foi condenado ao exílio por dois anos e ao pagamento de uma dispendiosa multa com a qual não pôde arcar, ficando assim condenado ao banimento e à proscrição.

A título de curiosidade, os guelfos, originaram-se de uma escaramuça político-religiosa onde os guelfos eram partidários do papado na decisão de quem sucederia o trono do Sacro Império Romano-Germânico. O papa e os guelfos apoiavam a Casa de Guelfo - por isso o nome - e os seus adversários na disputa, eram conhecidos como gibelinos e apoiavam a casa da suábia da Dinastia de Hohenstaufen, que governavam a partido do castelo de Waiblingen, daí a palavra gibelino. Além da disputa inicial com seus adversários, os guelfos ainda dividiam-se em duas facções, os guelfos brancos e os guelfos negros, cuja principal discordância era social, dada a uma querela entre os clãs Donati - líderes dos guerlfi neri -, uma das famílias mais numerosas, e os Cerchi - patronos dos guelfi bianchi -, parte das famílias mais abastadas de Florença.

O poeta, no entanto, não se deu por vencido e participou de várias tentativas de recolocar sua facção política de volta ao poder Florentino, todas elas, infrutíferas. Isso lançou o poeta em uma depressão política da qual não sairia mais, motivado tanto pelas humilhações sofridas dos inimigos quanto pela inatividade de seus aliados. Foi nesse tempo de depressão que Dante começaria a escrever os primeiros cantos d'A divina comédia, que de comédia, tem pouco ou quase nada. Explica-se o fato, pois na época, a comédia era o oposto do drama, portanto, a palavra foi utilizada para caracterizar o texto como uma obra de final diferente dos dramas convencionais.

O livro, indissociável do poeta, aparece aqui como uma obra prima da poesia épica mundial, figurando ao lado de grandes nomes como Ilíada, Odisseia e, mais tardiamente, Os Lusíadas.

O escritor preocupava-se com a métrica em seus mínimos detalhes, tanto é que seu épico se constitui de três partes, com trinta e três cantos, que são Inferno, Purgatório e Paraíso, excetuando-se por Inferno, que possuí 34 cantos - pois um deles é a introdução do poema. Dante construiu todo seu texto mais famoso baseado no idioma toscano - considerado pelo poeta um idioma mais nobre do que o latim, visto que não era privilégio de poucos e nem artificial -, uma variação próxima ao italiano atual, que inclusive teve a sua gramática inspirada nesse dialeto graças a essa obra.

Inferno é basicamente uma construção inicial dos primeiros anos de sua vida política. Dante descreve nesse livro: seus desafetos políticos mais ferrenhos e também faz alusão aos poetas e grandes ídolos da Antiguidade, que morreram sem conhecer Deus, sendo, por isso, condenados ao limbo; também encontra figuras comuns da vida Florentina e de algumas outras cidades pelas quais perambulou em seu exílio. Mestre na referenciação, o poeta coloca - em infernos específicos - todos aqueles que de alguma forma o incomodaram. Nessa parte também, abre concessões à inclusão de uma série de criaturas mitológicas e seres fantásticos que fazem parte dos lirismos gregos e latinos dos quais ele se vale durante grande parte da obra.

Purgatório é um pouco mais leve, mas não menos referencial. Colocou nos cantos iniciais as pessoas com quem não tinha muito convívio, documentou grande parte da história Florentina e aproximou-se do objetivo do grande poema, que é encontrar Beatriz. Tanto no Inferno, quanto no Purgatório, Dante é guiado pelo espírito de Virgílio, segundo o texto, o antigo poeta latino é enviado por uma força superior para guiá-lo através dos percalços que enfrentaria.

Paraíso chega com um toque de leveza, coroando a obra, mas não de forma magistral. É aqui que ocorre o encontro com Beatriz, a quem Dante chama frequentemente de fé personificada, e com seus ídolos, sejam eles religiosos ou políticos. Todo o poema é uma construção fantasiosa e biográfica da vida de Alighieri, evocando ora o amor por sua musa inspiradora particular, ora seu amor pela poesia e, em grande parte, sua devoção à causa florentina e seu rancor com a Santa Sé de sua época.

Dante foi acolhido, perto do fim de sua vida, pelo príncipe Guido Novello, governante de Ravena. Lá terminou seus dias, falecendo no ano de 1321. Seus restos mortais foram solicitados por Florença, contudo, nunca foram devolvidos à sua terra natal e repousam, até a contemporaneidade, na mesma cidade que o acolheu em seu exílio.