ESPECIAL #20: VOCÊ SABIA? ALBERTO CAEIRO

16/04/2018


COM FILOSOFIA NÃO HÁ ÁRVORES, HÁ IDÉIAS APENAS

ESPECIAL #20


Quando eu ouvi pela primeira vez o conceito de heterônimo, eu estava no segundo ano estudando alguns poemas de Fernando Pessoa. Na época, confesso que não acreditei que alguém realmente fosse capaz de, além de adotar um nome diferente, dar uma personalidade a esse nome, tornando-o alguém. Parecia apenas complicado demais.

Bom, não para Fernando Pessoa.

Segundo o HOUAISS, a palavra 'heterônimo' tem origem no grego heterónumos, os, on ("que difere de nome") e significa, para a literatura e os seus estudiosos, o nome imaginário com o qual um escritor assina a sua obra - portanto, tornando aquele o seu autor "oficial" - e que, diferente do pseudônimo, possui qualidades e tendências que divergem das do seu criador em questão. Ou seja, o heterônimo não representa apenas um nome diferente, mas outra personalidade: um(a) outro(a) Pessoa. Assim é Alberto Caeiro.

Sem haver consenso sobre sua data de nascimento - talvez em agosto de 1887, talvez em abril de 1889 -, Alberto Caeiro é definido pelo próprio Pessoa como o heterônimo guiado por inspiração pura e inesperada. É o homem bucólico nos diversos sentidos do termo, que escreve sem calcular ou refletir grandemente:


A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.


Se fôssemos situá-lo em um tempo, Caeiro seria arcadista por excelência. Encontramos nele não só a figura do camponês que vive entre a natureza, enaltecendo-a; mas também do homem capaz de valorizar o que está diante dos seus olhos muito mais do que aquilo que não está. Caeiro é do tamanho daquilo que vê, e essa é sua maior riqueza.


"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura..."


Sua vida é simples, pautada por comparações com a natureza e todas as suas maravilhas. A ele, atrai menos o mergulho para dentro do ser, ao contrário de muitos outros poetas, preferindo, dessa forma, a capacidade de enxergar a beleza do que está em volta. Nessa concepção, as filosofias seriam uma forma de cegar-se à realidade, pois, como disse certa vez:


Com filosofia não há árvores: há idéias apenas


Nascido em Lisboa, mas criado no campo, sob os cuidados de uma tia-avó, quase tudo que sabemos sobre ele é o que as suas obras nos contam. Seu legado é a sua poesia. O grande livro no qual Caeiro nos é apresentado, O Guardador de Rebanhos, contém mais de trinta poemas que foram escritos em um único dia. Através deles é que percebemos todas as diferenças estilísticas entre o camponês, Fernando Pessoa e seus demais heterônimos; bem como a sua aversão à metafísica e seu apego à simplicidade do que se se sente, sem precisar de grandes reflexões para isso.

A visão que ele tem de Deus é intrinsecamente relacionada à natureza. Deus, o ser metafísico e distante, dá lugar às flores, aos montes e aos astros. A distância em que colocamos a divindade é vencida pelos versos desse homem simples que aprendeu a amar tudo que existe ao seu modo.


Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar


Assim como no arcadismo, no qual os pastores tinham os seus amores que harmonizavam com a natureza, Alberto Caeiro também encontrou o seu. Um amor que o fez ver a Natureza de outro modo e se interessar por coisas que antes não lhe despertavam interesse algum:


"Tu mudaste a Natureza...
[...] Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente"

"Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro."


No entanto, não é só sobre a Natureza e o Amor que nos fala Caeiro. A morte, temida por muitos, é apresentada por ele como algo mais do que natural: é insignificante diante da totalidade das coisas; e, de tudo, o mais espantoso - ele está bem com isso porque está bem com a própria natureza do mundo.


"Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma."


Mesmo que tenha morrido em 1915, o legado que deixou, bem como tudo o mais com que nos agraciou Fernando Pessoa, continua a nos alcançar nos dias de hoje. Por mais que Caeiro seja tido como o heterônimo mais simples, de menor instrução e de maior objetividade, ele não é, de forma alguma, alguém de menor complexidade. Ao assumir as posições que assume, sob elas encontramos críticas que, até hoje, permanecem atuais. Ouvir o que esse camponês tem a dizer é, também, ouvir os seus não-ditos.

Eis aí o segredo de sua grande sabedoria e atemporalidade.