ESPECIAL #19: VOCÊ SABIA? AKIRA TORIYAMA

05/04/2018


MAIS DO QUE AS ESFERAS DO DRAGÃO

ESPECIAL #19


Nos anos 90, a febre das animações japonesas começou no Brasil. Várias emissoras embarcaram no sucesso da TV Manchete, comprando atrações animadas e os famosos Tokusatsus - séries de fantasia e aventura com atores reais - para serem exibidos. Uma dessas emissoras, o SBT, trouxe consigo o anime Dragon Ball, que contava as histórias de um garoto inocente e engraçado com uma cauda de macaco, um bastão mágico e uma nuvem voadora.

O criador dessa obra, Akira Toriyama, é - sem dúvida - um dos mangakás mais famosos do mundo e ilustra qualquer conversa sobre o gênero em quase todo lugar. Do Brasil ao México, dos EUA à Austrália, muitos gostam da obra de um dos maiores expoentes autores da cultura japonesa.

Toriyama nasceu em um 5 de abril de 1955, na cidade de Kiyosu, distrito de Nishikasugai na província de Aichi. Graduou-se em meados de 1977 em Desenho Gráfico e, após isso, mergulhou de cabeça nos concursos para novos mangakás realizados pelas editoras. No mesmo ano em que se formou, venceu o concurso da Shueisha na Monthly Young Jump, concurso esse que buscava revelar novos talentos, através da submissão de histórias curtas à avaliação de um júri. Assim, publicou seu primeiro mangá chamado Wonder Island, de gênero cômico.

Nesse primeiro período de sua carreira, o autor não alcançou muito prestígio, mas trabalhou com afinco e lançou mais quatro histórias, dentre as quais, a mais exponencial foi: Today's Highlight Island.

Seu sucesso veio pouco tempo depois, em 1980, com a publicação semanal de Dr. Slump na Shonen Jump. A série acabou depois de cinco anos, rendendo dezoito volumes de luxo e projetando-o como o criador de um dos ícones da cultura pop japonesa pré-otaku, numa época em que os jovens nipônicos ainda não tinham as referências necessárias para moldar a cultura japonesa pop, ao menos, a apresentada nos dias de hoje. O alcance dessa obra foi tanto que até mesmo modelos e jornalistas usavam óculos com armações parecidas da protagonista do mangá, Arale.

Graças a essa narrativa, os cosplayers - grupo de fãs do gênero que costumam se vestir como os personagens dos mangás e dos animes que gostam - começaram a se ver com mais seriedade, tendo organizado os primeiros protótipos de concurso e conferências de fãs. Algumas pessoas, por exemplo, começaram a se vestir de forma inspirada pela obra durante o cotidiano, e até mesmo a incorporar no seu dia a dia um subdialeto urbano baseado na protagonista, que ficou conhecido na época como Arale-Go.

Toriyama sempre foi um homem reservado, preferindo viver longe dos grandes centros e da agitação metropolitana, pois valoriza a dedicação à família e ao trabalho. Essa sua escolha, foi responsável por algumas excentricidades das pessoas ao seu redor, chegando ao cúmulo da administração da cidade de Nagoya, construir uma estrada de faixas triplas com o intuito de facilitar o acesso ao aeroporto e ao centro, visando a comodidade do autor e de sua empresa, a Bird Studio. Dessa forma, os originais de Dragon Ball chegavam mais rápido ao destino, o que era uma prioridade para a Shueisha e também para a metrópole, que contava que os impostos pagos por Toriyama, um dos maiores contribuintes do país, seriam dados à outra província, caso ele tivesse de se mudar por dificuldades na entrega das suas histórias.

As excentricidades dele também ficam evidentes em suas obras. Seus protagonistas quase nunca andam por cidades, não costumam estudar ou ir ao banco, preferindo sempre lutar ao natural ou explorar locais inóspitos. Inclusive, parte das características mais humildes dos seus personagens provém da personalidade dele, que não tem ambições com dinheiro, fama ou influência, afinal, conta-se que até hoje o autor circula pelos lugares vestindo calças velhas e calçando confortáveis chinelos.

Fã de Jackie Chan, buscou inspiração para fazer Dragon Ball no filme Drunken Master, o qual assistiu várias vezes antes de começar a trabalhar no mangá. Também chegou a se encontrar com Ayrton Senna, desenhando os seus personagens vestidos com o uniforme do piloto e nos moldes da equipe McLaren, escuderia que Senna defendia na época.

Com muitas excentricidades e uma parcela de timidez, esperava-se que ele tivesse dificuldades para se casar. De fato, antes de conhecer a sua esposa atual, ele foi a um omiai - na tradição japonesa, é um tipo de encontro às escuras realizado para conseguir um matrimônio vantajoso e de sucesso, equivalente ao casamento arranjado no ocidente - e a pretendente era outra mangaká com os mesmos problemas de timidez, uma rotina tão acirrada quanto a sua e o seu próprio sucesso. Pois é, Akira Toriyama quase se casou com Rumiko Takahashi, autora de Ranma ½.

Entre os japoneses, ele é considerado um autor talentoso, mas preguiçoso, pois gosta de coisas diversificadas e tende a não dar muita atenção às sagas longas, preferindo produzir histórias curtas e dedicar seus talentos para outras coisas, como, por exemplo, desenhar personagens de jogos e ajudar em projetos de artistas pop, usando e abusando das referências disponibilizadas pela cultura que ajudou a criar.

Mesmo com essa fama de preguiçoso, continua sendo um dos poucos artistas da revista Jump que sempre teve consistência e raramente atrasou a entrega de suas histórias ou tirou alguma folga. Outra característica interessante sobre o autor é que, às vezes, ele esquece completamente de um personagem e sua história acaba incompleta, mas isso não é um problema de memória constante, porque ele é um dos poucos mangakás que conseguiu trabalhar em duas séries ao mesmo tempo no Japão.

Detalhes sobre sua vida pessoal são bem opacos e quase inexistentes, visto que o autor, além de tímido, é bem reservado e limita-se a falar somente sobre as suas obras nas poucas entrevistas que dá. Sabe-se, no entanto, que ele é casado, gosta de viver de forma simples e detesta o trânsito e barulho. Além de gostar de esportes, tem uma rotina bem regrada, focada em muito trabalho e pouca diversão. Tem uma esposa e um filho chamado Sasuke e, depois de tudo isso, não seria de se espantar que um dos sonhos do autor é morar na Kame House, uma casinha fictícia isolada em uma ilha sem qualquer comunicação com o continente ou vizinhos por perto, moldada sem dúvida, para atender ao gosto de alguém que não tem muito amor pela vida na cidade.