ESPECIAL #17: VOCÊ SABIA? VICTOR HUGO

26/02/2018


QUERO SER CHATEAUBRIAND OU NADA

ESPECIAL #17


Essa é uma fala de Victor Hugo que, desde muito jovem, queria ser conhecido por sua arte literária. No entanto, o cômico da situação é que, perguntando aos meus amigos mais próximos, descobri que quase nenhum deles conhece René Chateaubriand, mas que conhecem muitíssimo bem Victor Hugo.

Se o que o escritor de O Corcunda de Notre Dame queria era fama e sucesso, definitivamente, ele conseguiu ultrapassar o seu ídolo e alcançar o mundo inteiro com suas obras fantásticas. Mas isso me parece ser de conhecimento comum, inclusive, comum até mesmo ao próprio Hugo.

Ele nasceu em 1802, sendo o terceiro filho de um casal que jurava que o bebê não sobreviveria, tanto por sua fragilidade quanto pelas constantes transferências do pai, que fazia parte do Exército. Por conta disso, Victor Hugo viveu muitos anos em lugares diferentes, como Espanha, Nápoles e Paris.

Desde jovem, destacava-se em nossa mais adorada "língua morta", o latim. O menino era tão inteligente que até mesmo recebeu um prêmio de física em um concurso público, além de, mesmo em tenra idade, ter escrito tragédias e poemas - algo interessante a se citar é que, se não fosse pela idade dele na época, ele teria levado um prêmio para casa da Academia Francesa de Letras.

Alguns nascem para ser geniais, Victor Hugo é um belo exemplo disso. Aos dezessete anos, teve duas de suas odes premiadas, como também já assinava matérias das mais diversas, sob onze pseudônimos. No mesmo ano, ele noivou em segredo com Adèle Foucher, sua amiga de infância e primeiro amor.

O que assusta nisso tudo é que, desde muito jovem, Victor Hugo sabia o que desejava fazer e também a que lugar queria chegar. Em 1820, ele conheceu Chateaubriand e saiu decepcionado do encontro; o que torna sua frase ainda mais cômica anos mais tarde.

Victor Hugo estava tão focado no romance que vivia com Adèle quanto na morte de sua própria mãe, em 1821, visto que sua família e a dela brigaram no ano anterior e eles tiveram de romper o noivado. Quando sua mãe faleceu, a reconciliação das famílias ocorreu e eles puderam estar juntos outra vez.

O casamento ocorreu em 1822 e, nesse mesmo ano, Victor Hugo continuou publicando textos seus, só que, dessa vez, publicou Odes e poesias diversas. A influência dele já era tamanha que o rei lhe concedeu uma pensão. Isso mesmo, o rei.

Essa pensão aumentou, inclusive, no ano seguinte, com a segunda edição de Odes. Em 1824, publicou Novas Odes e também nasceu sua primeira filha, Léopoldine. Nessa época, Victor Hugo era tanto monarquista quanto legitimista, duas posições políticas que, até o final de sua carreira, mudaram drasticamente.

Em 1826, ano que nasceu seu filho Charles, Victor Hugo começou a romper com a sua literatura anterior e passou a acolher em sua casa escritores e artistas por conta de sua influência sobre essas personalidades, fazendo múltiplas reuniões.

Em 1828, Victor Hugo perdeu seu pai - que admirava muito - e ganhou seu terceiro filho, François Victor. Ele também assinou um contrato com o editor Gosselin para publicação de algumas obras suas, como, por exemplo, As orientais e o próprio Notre Dame de Paris, que, anos depois, após uma tradução estrangeira, transformou-se - por convencionalismo comercial - no nome O Corcunda de Notre Dame.

Mesmo casando-se cedo e parecendo viver um amor arrebatador, a esposa de Victor Hugo declarou, em 1829, que não se disporia mais a ter relações conjugais com o marido. O que se torna muito estranho, pois, no ano seguinte dessa declaração, eles tiveram outra filha, Adèle.

Contudo, nem tudo são rosas e o casamento realmente parecia ter acabado, porque o autor, em 1833, passou a ter uma relação amorosa com a atriz Juliette Drouet, quatro anos mais jovem e que, com o passar do tempo, tornou-se mais amiga e auxiliar do que amante do escritor.

Outro fracasso, ou assim parece, na vida do escritor foram as suas constantes tentativas de ingressar na Academia de Letras, algo que ele tenta diversas vezes ao longo da vida, mas só realmente consegue em 1841.

Em 1843, perdeu a sua filha mais velha em um acidente de barco, o que foi um choque na vida do autor. Contudo, em 1845, pareceu estar ativo politicamente como uma espécie de conselheiro do rei e, no mesmo ano, é processado por adultério. Inclusive, nessa mesma época, começou a escrever uma de suas mais célebres obras Os Miseráveis.

A partir desse momento, algo pareceu estalar na cabeça de Victor Hugo. Ele tornou-se muito, mas muito mesmo, presente na política e passou a pronunciar diversos discursos.

Ainda que tenha se tornado constante, mesmo quando cargos lhe foram oferecidos, como a subprefeitura de Paris, em 1848, Victor Hugo não aceitou. Ele achava, acredito eu, que o certo seria passar por votação popular e, por conta disso, candidatou-se a deputado constituinte e foi eleito.

Mesmo que fizesse parte da bancada conservadora, era a bancada contrária que batia palma para seus discursos. Ele foi um confesso apoiador de Luís Napoleão Bonaparte à presidência da República, quando estava em época de eleição, porém, bastaram dois anos para o escritor se declarar completamente contra o político e ser enviado para o exílio por ter ingressado no Comitê de Resistência, quando ocorreu o golpe de Estado.

O seu destino foi Bruxelas, porém não ficou por lá muito tempo, pois foi expulso da Bélgica por criticar o novo imperador francês, Napoleão III. Por quase vinte anos, ficou na ilha de Jersey, no mar do Norte.

Em 1853, Victor Hugo se tornou mais espiritualista, iniciando experiências com espíritos, inclusive, jurou ter ouvido do próprio Napoleão - o famoso que todos conhecemos - que seu sobrinho era um traidor.

Alguns anos mais tarde, Victor Hugo ficou doente, contraindo antraz; essa mesma bactéria ficou famosa por causa de Osama Bin Laden, que disse, após o ataque às torres gêmeas, que a espalharia pelos Estados Unidos. Ela causa uma séria inflamação no trato intestinal e, na época, era considerada gravíssima - e até hoje é, caso não seja tratada, pois pode levar a pessoa à morte.

Em 1859, Napoleão III concedeu anistia ao autor, que recusou impreterivelmente. Cada vez mais movido por ideais políticos e sociais, o escritor passou a se envolver com os problemas contemporâneos à sua época, fossem políticos, sociais, econômicos ou éticos.

A partir de 1861, quando concluiu Os Miseráveis, Victor Hugo passou a fazer várias viagens e, em 1863, foi a vez de sua esposa Adèle publicar um livro, contando a vida de Victor Hugo sob uma nova perspectiva: Victor Hugo contado por uma testemunha de sua vida.

Sua esposa encontrou, oficialmente, pela primeira vez, a companheira Juliette Drouet, em 1867. No ano seguinte, faleceu em Bruxelas. Nesse meio tempo, Victor Hugo continuou publicando diversas obras com a ajuda de sua amante.

Em 1870, após a queda do Império de Napoleão III, o autor volta para Paris. No ano seguinte, foi eleito deputado e se demitiu em protesto contra os termos do tratado de paz com a Prússia. Retornou à Bélgica, sendo expulso de lá - outra vez - e, sem mais o que fazer, voltou para Paris.

Embora não tenha se candidatado, as pessoas votaram em Victor Hugo. Isso mesmo, eles votaram nele mesmo sem estar concorrendo - o que mostra o quão influente o autor era e que fascínio exercia nas pessoas.

Duas tragédias ocorreram sequencialmente na vida de Victor Hugo como pai. Em 1872, sua filha Adèle foi internada em um manicômio e François-Victor, em 1873, morreu.

Somente em 1876 retornou efetivamente à vida política, sendo eleito senador por Paris. Nesse meio tempo, ele publicou três partes de uma obra: Antes do exílio; Durante o exílio; e Depois do exílio; o texto ficou conhecido como Atos e palavras.

Victor Hugo publicou ainda mais obras durante à sua vida, a soma é tão grande que, entre 1880 a 1885, uma edição definitiva com suas histórias surgiu somando o total de 48 volumes.

Em 1881, ocorreram manifestações públicas em homenagem ao escritor pelo seu octogésimo aniversário, que demonstraram para ele o quão famoso era - definitivamente - mais famoso do que outrora seu ídolo fora.

Embora tenha organizado fundos para sua filha e Juliette em seu testamento, sua companheira faleceu antes mesmo dele. Nesse testamento, o autor também doou parte de sua fortuna, cedeu os seus desenhos - reconhecidos como obras de arte por Baudelaire - e os seus escritos para a Biblioteca Nacional da França.

Em 22 de maio do ano de 1885, toda a França entrou em luto, pois Victor Hugo havia falecido, sofrendo uma congestão pulmonar. Ele foi tão importante para os franceses que teve um velório público sob o Arco do Triunfo - todos desejavam se despedir do grande autor, político, dramaturgo, ensaísta, artista e ativista - e foi levado para ser sepultado no Panteão Nacional, com honrarias nacionais.